Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Miguel Falabella volta com o 'Homem de La Mancha' e prepara o seu 'Annie'

Ator e diretor fala sobre a volta da peça e como prepara sua versão musical sobre a órfã

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2016 | 05h00

Miguel Falabella usa cada minuto de seu tempo. Famoso por se equilibrar em diversos projetos simultaneamente, ele agora escreve e interpreta a série Brasil a Bordo, que deverá estrear na Globo no início de 2017, prepara o esboço de uma telenovela e participa como ator da peça God, em cartaz em São Paulo. Mas, mesmo tão ocupado, ele arruma momentos para cuidar de um trabalho que considera especial: a nova temporada do musical O Homem de La Mancha, que cumpriu uma temporada de sucesso em 2014 e voltará ao cartaz no dia 9 de março do próximo ano, no Teatro Alfa.

“É um trabalho muito especial, o que mais me dá orgulho, pois mantém a fidelidade ao original ao mesmo tempo em que tem um ponto de vista nacional”, comenta Falabella, que aperta ainda mais sua agenda para um grande projeto que pretende ver realizado no segundo semestre de 2017 ou mesmo no início de 2018: sua versão para o musical Annie, que também será ambientado à realidade brasileira.

Eis o grande trunfo de La Mancha, que só entrou nos planos de Falabella quando descobriu o caminho a seguir: ambientar a trama em um manicômio brasileiro, cujo comando, entre os internos, está na figura do Bispo do Rosário. “Quando conheci o museu dedicado aos escritos e aos trabalhos deixados por ele, tive a certeza de que o conceito do musical tinha de seguir a arte do Bispo.”

“Em pouco tempo, o grupo de atores se adaptou ao espetáculo e estabeleceu um diálogo com esse conceito criado pelo Miguel”, observa Cleto Baccic, que venceu o prêmio de melhor ator de teatro de 2014 conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, a APCA. “O espetáculo se transformou em uma grande obra de arte, uma criação estética”, completa a atriz Sara Sarres.

A dupla está confirmada para a nova temporada do musical - Baccic parece talhado para viver Dom Quixote, tanto pelo perfil esguio como pelo adequado tom de voz, enquanto Sara é precisa como Aldonza/Dulcineia, especialmente pela belíssima voz. “Há uma honestidade cativante na interpretação de Baccic, enquanto Sara é maravilhosa nas difíceis canções solos”, observa Falabella. A novidade será a chegada de outra estrela de musicais, Bianca Tadini, no papel de Antonia. 

Ambientar originais estrangeiros à realidade brasileira tornou-se uma referência nos mais recentes musicais dirigidos por Miguel Falabella. Foi assim com A Madrinha Embriagada (2013), cuja ação foi transposta por ele para a São Paulo dos anos 1920. Em seguida, O Homem de La Mancha, que estreou em 2014 e surpreendeu ao trazer a essência do texto original de Dale Wasserman (as músicas foram assinadas por Mitch Leigh e as letras, por Joe Darion), mas sob um ponto de vista nacional, o que tornou a peça mais saborosa.

 

O mesmo raciocínio deverá nortear a próxima produção que Falabella vai dirigir, com produção do Atelier de Cultura: o musical Annie, sobre as estripulias da pequena órfã e seu cão Sandy. O espetáculo estreou pela primeira vez na Broadway em 1977 e chegou a ganhar versões cinematográficas - a mais conhecida foi dirigida por John Huston, em 1982. A versão nacional deverá estrear entre o final do próximo ano e o início de 2018.

Falabella, que já cuida da tradução dos diálogos e das letras, pretende transformá-la em uma menina de rua, como muitas que se espalham por diversas capitais brasileiras. “Nossa montagem vai mostrar Annie como uma criança em luta contra uma cidade hostil”, conta ele que, para apresentar as cores dessa disputa convidou o artista Eduardo Kobra, que começou a carreira como pichador, depois se tornou grafiteiro e hoje é um muralista com trabalhos assinados em diversas metrópoles do mundo. “Ele traduz muito bem essa relação das pessoas com as cidades”, avalia Falabella.

Não é novidade a disposição de Falabella em participar ativamente da criação de um espetáculo por inteiro. No próprio La Mancha, ao apontar a obra do Bispo do Rosário como norteador criativo, ele incentivou os demais profissionais a seguirem pelo mesmo caminho. Até mesmo o sofisticado cenário, criado por Matt Kinley (britânico) e David Harris (americano). Trata-se de uma opressiva estrutura metálica semicircular, com oito metros de altura. Quatro escadas em curva, interligadas por uma passarela, separam o espaço dos loucos do da chefia. Esse contorno cria o cenário do manicômio, remetendo a um lugar abaixo do solo. E a estrutura é recoberta por um tule importado e pintado à mão pelo artista cênico Vincent Guilmoto, que usou a caligrafia original do Bispo do Rosário.

 

“David era muito rígido com suas ideias, mas logo descobriu que essa era a melhor solução”, diverte-se Falabella, que convidou Cláudio Tovar, ex-integrante da formação original do grupo Dzi Croquetes, para desenhar os figurinos. O resultado é deslumbrante - Tovar utilizou o mesmo material escolhido por Bispo, como canecas, botões, colheres, agulhas, panos, para criar as roupas. “É delirante. Tovar soube como brincar com a loucura genial do Bispo e desenhar joias feitas com latas amassadas, coroas com prendedores de roupa, trapos que se transformam em luxuosos figurinos, comprovando que tudo é válido no mundo de Arthur Bispo do Rosário”, comenta Falabella.

Finalmente, a trilha sonora - enquanto na Broadway o espetáculo tinha uma orquestra sem instrumentos de cordas (exceto um contrabaixo), a versão nacional conta com dois violonistas especializados em melodia espanhola. Toque especial do diretor musical Carlos Bauzys.

Bibi e Autran fizeram musical

Com canções adaptadas por Chico Buarque e Ruy Guerra, 

o musical estreou em 1972 no Teatro Municipal de Santo André, com Paulo Autran (Quixote), Bibi Ferreira (Dulcineia) e Dante Rui (Sancho). 

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