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Miguel Falabella estreia 'God', peça que ironiza e humaniza o todo-poderoso

Trata-se de uma versão traduzida e adaptada pelo próprio ator e diretor

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2016 | 05h00

Além de ser brasileiro, Deus ostenta uma elegante cabeleira grisalha, bigode e cavanhaque. “E, como Ele mesmo gosta de dizer, é egocêntrico, sexista, genocida”, comenta o ator, diretor e dramaturgo Miguel Falabella que, no papel do Todo-Poderoso, estreia nesta sexta-feira, dia 18, a peça God, no Teatro Procópio Ferreira.

Trata-se de uma versão traduzida e adaptada pelo próprio Falabella (responsável também pela direção) do espetáculo escrito pelo americano David Javerbaum que, na Broadway, foi encenada por Jim Parsons (o Sheldon do seriado The Big Bang Theory) e, depois, por Sean Hayes (conhecido pelo hilariante papel de Jack McFarland, de Will & Grace). “Enquanto o Deus deles é mais frívolo, o meu é mais poderoso, até por causa da minha voz”, conta Falabella que, antes de chegar a São Paulo, apresentou o espetáculo em Niterói, Belo Horizonte, Curitiba, Campinas, Brasília e Porto Alegre, como aquecimento. “Foi emocionante. Sem contar os musicais, desde Louro, Alto, Solteiro, Procura (de 1994), eu não era recebido tão calorosamente pela plateia. Cheguei a chorar em Porto Alegre.”

O motivo é simples - ao longo de uma vasta carreira, construída especialmente na televisão, Falabella cultivou uma fidelidade com o espectador baseada na confiança. Sua ironia rasgadamente crítica sempre traduziu com exatidão os anseios de seu público e, incrivelmente, mesmo os personagens mais insolentes, como Caco Antibes, do seriado Sai de Baixo, proferiam frases que bem poderiam ser repetidas pela plateia.

Em God, a situação se repete. Na peça, ele vive o Criador que, cansado do descaso da humanidade com a natureza e com os Dez Mandamentos, volta à Terra a fim de, à la Steve Jobs, criar o “universo dois ponto zero”, com uma interface mais bem resolvida. “Segundo suas próprias palavras, se o ser humano não se cuidar, em dez anos a Nokia vai apresentar o novo modelo de homem”, diverte-se. “Sem se esquecer da Bíblia em formado iPad.”

O texto da peça é ágil e se explica por um motivo prosaico: David Javerbaum começou escrevendo tuítes em que tratava, em tom de brincadeira, de passagens da Bíblia. Em seguida, ele reuniu o material e escreveu um livro, The Last Testament: A Memoir By God (O Velho Testamento: Uma Memória de Deus), que inspirou, por fim, a peça.

Em sua versão, Falabella criou um Deus mais mundano. “É um ser muito engraçado, que confessa suas limitações, sem esconder os lances mais horrorosos. Afinal, o que Ele fez a Abrão, incitando-o a sacrificar o próprio filho como teste de sua fé, é um ato maldoso”, explica o ator. “Mas o mais interessante do espetáculo é que o texto não fala de religião, mas do homem. Com isso, ninguém se sente ofendido.”

No espetáculo, Deus e seus dois arcanjos dedicados, Miguel (Magno Bandarz) e Gabriel (Elder Gattely), respondem a algumas das questões mais profundas que têm atormentado a humanidade desde a Criação, em apenas 90 minutos. Sem paciência com as confusões políticas, Ele oferece uma nova versão dos Dez Mandamentos, entre eles os seguintes: “Honrarás teus filhos”, “Separar-me-ás do Estado” e “Não me dirás o que devo fazer”.

Também não poderia faltar humor, característica marcante de Falabella, especialmente nos desabafos de Deus. “Ele fala sobre o dilúvio de uma forma muito engraçada, dizendo que deu um trabalho danado enxugar tudo aquilo para recriar a vida”, diz. “Deus também desmistifica a origem da humanidade ao revelar que, no início, eram dois homens, Adão e Jefferson, e que a mulher chegou depois.”

Como autor da versão nacional, Falabella não se esquivou de rechear o texto com citações locais, como a referência à Rua 25 de Março (“Gosto daquele barulho”) e, ao fazer um pot-pourri de várias canções, emendou músicas de Leonardo com Mara Maravilha. “Menciono também a revista Caras, quando Deus reclama de quando teve uma única chance de aparecer na capa: ‘A Ana Maria Braga e o diabo do Louro José ficaram na minha frente na foto’.”

Apesar do tom de comédia, o espetáculo sofre uma reviravolta perto de seu final. É quando Deus recrimina os atos destrutivos do homem contra a natureza. “Ele é firme ao falar que estamos rumando contra um muro e sem freio”, comenta Falabella. “Abro mão do humor nesse momento em que Deus culpa o homem pelo apocalipse. Ao fazer minha versão, acabei retirando uma citação de José Saramago, que se encaixa bem: ‘A vida é um manual de maus costumes’.” 

GOD

Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2823. Tel.: 3083-4475. 6ª, 21h. Sáb., 18h e 21. Dom., 18h. R$ 90 / R$ 150. Até 18/12.

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