Arô Ribeiro|Divulgação
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'Meu Lado Homem' verte erotismo da obra de Hilda Hilst

Luís Mármora mescla romance libertino de ‘Cartas de Um Sedutor’ e canções do universo feminino em um show de cabaré

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 20h17

Em uma de suas últimas entrevistas, Hilda Hilst (1930-2004), ao comentar sobre a possibilidade de reencarnar, disse: “Eu voltaria homem. É o meu desejo”. Durante sua carreira, a escritora demonstrou sua capacidade de construir um complexo perfil masculino em Cartas de Um Sedutor (1991), livro que completa a trilogia erótico-pornográfica ao lado de A Obscena Senhora D e O Caderno Rosa de Lori Lamby.

O romance revela correspondências trocadas entre o aristocrata afetado Karl com sua inocente irmã Cordélia. “A intenção dele era convencer a garota a desistir de um estilo de vida puritano e viver o mundo carnal”, explica o ator Luís Mármora que estreou nesta terça-feira, dia10, Meu Lado Homem, Um Cabaré D’Escárnio no Instituto Cultural Capobianco. “Karl fala de sexo de maneira vulgar, mas sem deixar de ser refinado”, explica. O espetáculo compõe o projeto de repertório Terceira Margem III e divide a programação com Gotas D’Água Sobre Pedras Escaldantes.

A obra de Hilda se eleva quando defende uma livre expressão da sexualidade e cria uma relação existencial com o sobrenatural. “O texto fala muito de Deus e também morte”, aponta. Em um trecho, Karl tenta negociar com a morte sua permanência na terra dos vivos, em troca de conceder prazer à entidade. Esse espírito conferiu vida à Sápata Magáli, uma “teatróloga”, em clara referência ao crítico de teatro Sábato Magaldi. “É uma grande brincadeira de inverter os gêneros”, conta o ator, usando salto alto e cílios postiços, que segue em temporada com o Galileu Galilei dirigido por Cibele Forjaz.

Com direção de Marcelo Romagnoli, Meu Lado Homem recria o ambiente de um cabaré com abajur à meia-luz, um divã, cortinas de veludo e um pequeno palco com microfone. A música é executada ao vivo conduzida pelo músico e compositor Luiz Gayotto. “As canções escolhidas trazem um essência do universo feminino”, conta Romagnoli. Entre elas, músicas interpretadas por nomes como Elis Regina, em Me Deixas Louca e Aretha Franklin por (You Make Me Fell) Like a Natural Woman, além de Cabide, presente de Ana Carolina para Mart’nália e composições de Gayotto.

Para Mármora, viver uma personagem controversa e ambígua se faz urgente nesses tempos. Dias nos quais a poesia da escritora pode conferir forças. “A violência vem crescendo, principalmente na esfera pública. A obra de Hilda avança em falar sobre sexo abertamente e sem medo. Aqui, a pornografia é pensada como um lugar de resistência da imaginação, da sobrevivência do ser humano diante da marginalidade.”

O MEU LADO HOMEM. Instituto Cultural Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 97. Tel.: 3255-8065. 3ª e 4ª, 21h. Grátis. Até 16/12

 

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