Acervo Claudio Botelho
Acervo Claudio Botelho

Meu encontro com Sondheim no Rio: há momento mais importante na vida?

Quero ser muito mais que sou como artista e desejo ir até onde minha mediocridade me detenha – tenho Sondheim na cabeça e na alma, minha obrigação é não desistir

Claudio Botelho*, Especial para o Estadão 

28 de novembro de 2021 | 14h35

Minha filosofia, quando escapa, é certamente de botequim. Mas, como fecharam tantos e tantos botequins durante a escabrosa pandemia, a boemia aqui me tem de regresso a filosofar em casa mesmo. Isso é preâmbulo para soltar essa: tinha dúvidas, mas agora tenho certeza de que eu e Charles Moeller somos loucos.

Nós viemos do teatro falado, ele do Antunes Filho, eu de padrinhos generosos como Sérgio Britto, Ary Fontoura, Luís de Lima. Por total falta do que fazer e nenhuma auto-censura, lá no começo dos anos 1990 decidimos fazer musicais no Brasil. Derrapamos e nos apresentamos para público que nunca tinha mais do que dez pagantes, era coisa pra cair em esquecimento mesmo, e no entanto não caiu. Em 1999, estreamos um musical com o título de Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava. Éramos nós dois, ele dirigia, eu fiz versões de canções mais engraçadas do compositor, o elenco tinha seis atrizes ilustremente desconhecidas, e o produtor era o jornalista Claudio Magnavita que, por ser maluco também, resolveu que aquilo ia dar certo e colocou uma grana do próprio bolso (não existia lei de incentivo), bancando sozinho a coisa. 

Estreou num final de semana, e ficou em cartaz durante quatro anos, era a primeira vez que ganhávamos algum dinheiro com algo nosso, e na imprensa começaram a dar atenção àqueles garotos, Moeller & Botelho.

E agora, José? Cheios de confiança e arrogância, no anos seguinte era hora de fazer “o próximo”. Com o sucesso de Cole Porter, o natural seria fazer algo semelhante com as canções de Gershwin, Irving Berlin, quem sabe até uma seleção de canções da Metro. Certo?

Uma coisa nos fez bater o pé e soltar essa: “Vamos fazer Company, do Sondheim”. Quem? O que é Company? Mas é uma peça com orquestra. Tem 14 atores. É o musical mais ´fora da casinha´da Broadway, isso é impossível de fazer no Brasil e aliás ninguém vai querer ver.

Os direitos haviam sido comprados pelo diretor e produtor Jorge Takla, que faria conosco mesmo, mas por razões pessoais nos cedeu os direitos e saiu da coisa. Ué, então vamos fazer. Fizemos.

A filosofia e o botequim (no caso, o Cervantes, que foi ceifado pela pandemia) entram aqui. Company estreou no Teatro Villa Lobos do Rio de Janeiro, onde ficou absolutamente lotado durante os cinco meses em cartaz. Até aquele momento, salvo um ou outro artigo do jornalista João Máximo, o nome de Stephen Sondheim não era sequer citado na grande imprensa brasileira. A montagem de Company tornou Sondheim assunto em todos os jornais do Rio. Para a estreia, veio o autor do texto, George Furth, ganhador de dois Tony de Melhor Autor, um cara simpático, mas o que ele vai achar disso, gente? Terminou o espetáculo de estreia,  Furth estava no saguão confraternizando com o elenco, berrando que jamais imaginou assistir a uma montagem com tanta qualidade num país desconhecido e sem história de musicais. Mais que isso, ao me encontrar, pegou o celular e ligou naquele momento para Stephen (Sondheim), e ordenou: “You have to see it. Come down and see it”. Eu era um moço de Araguari, como guardar uma emoção daquele tamanho num peito pequenino e envergonhado?

Alguns detalhes: desde os grandes musicais de Bibi Ferreira, não se viam espetáculos com orquestra no Rio de Janeiro. O teatro Villa-Lobos tinha um fosso de orquestra, mas que nunca havia sido inaugurado (o teatro abriu em 1980). Quando começamos a passar o som, nenhum microfone funcionava, afinal como fazer uma orquestra de 14 figuras tocar e ao mesmo tempo que 14 atores cantassem no palco logo acima? Quem tinha feito isso? Ninguém. Bom, o som da peça levou três semanas para ficar pronto, toda hora vinha um “especialista” que ia resolver tudo, mas não resolvia. As letras originais de Sondheim são jogos de palavra, mergulhos densos no interior dos personagens, evocações hilariantes do desespero do que eles “pensam”, não do que estão dizendo realmente. O que fiz ali foi nascer para o ofício que, desde então, me tem ajudado e viver e sobreviver. Letras aprovadas pelo autor, referendadas por críticos nossos e pelas publicações estrangeiras especializadas na obra de Sondheim, instalou-se em mim uma coragem e uma decisão: eu posso.

Não fizemos uma montagem reduzida, ou um concerto, como é legítimo num caso desses. O que colocamos em cena foi Company com todas as cenas, num cenário de proporções nova-iorquinas, e uma direção exata do Charles que, por insanidade similar à minha, meteu-se naquilo para acertar, já que experiência não tínhamos, aliás, ninguém tinha, era o primeiro Sondheim da América latina.

Um mês depois, Richard Salfas (de quem me tornei grande amigo, mas que não está mais por aqui), responsável pelaos direitos na Music Theatre International, liga pro meu celular às 2 da tarde e diz: “Stephen está no Rio. Vai assistir ao show hoje de noite. Por favor, ele prefere não falar com a imprensa”.

À noite, vieram Stephen e Cameron Mackintosh, amigos de longa data. Há um momento mais importante na nossa vida? Não creio. A aprovação absoluta (ele autorizou na hora a gravação do CD com o elenco brasileiro, liberou a temporada para São Paulo, falou muito sobre alguns trabalhos dos atores), e depois disso uma troca gentil de correspondência entre Sondheim e a dupla Moeller & Botelho, além da exigência de que nenhuma obra de sua autoria fosse traduzida em português senão por este filho de Araguari, direito de primeira opção sempre que houvesse pedido de montagem de suas obras para o Brasil, e a lista é grande.

A filosofia é: nossa insistência por Company, recusando qualquer outro caminho, mudou nossa vida. Os artistas que viemos nos tornando são artistas que fizeram Company. A entrada do nome de Sondheim no teatro brasileiro criou um parâmetro de enorme caráter cultural para todos os que despontavam naquele momento. O sucesso inesperado de bilheteria nos deu a sensação de que era possível fazer teatro musical de primeira linha e atrair público. Ali foi plantada a semente de mais quatro obras de Sondheim que montamos no Brasil. Gypsy (letras), Candide (letras), Lado a Lado com Sondheim  (música e letras) e estrearemos em julho deste ano em São Paulo, a obra-prima West Side Story, que marcou a estreia dele como letrista na Broadway.

Estou escrevendo este texto num momento de tristeza e um terrível sentimento de solidão. Steve partiu na sexta, aos 91 anos. Desde que Company estreou na Broadway em 1971, este compositor e letrista foi o pico da montanha da geração pós Golden Age (de 1970 pra cá). Não houve ninguém ao lado de Sondheim. Havia ele, e depois vinham os outros - mais ricos, de mais sucesso popular, criadores de canções mais simples, caras de muito talento como Jerry Herman, Stephen Schwartz, a dupla Kander & Ebb, e também uma longa lista de “pseudo-sondheims”, compositores que eram tentativas evidentes de soar como ele, de escrever como ele, participar do enredo como ele. Nenhum foi sequer notado. Sondheim morreu com 91 anos, e desde 1970 nada nem ninguém chegou perto da sua significância. Na classe teatral americana, seu apelido é Deus. Por certeza de quem é, e pela consciência de que lhe deram esta alcunha por respeito e admiração, ele não só aceitou a reverência como compôs uma canção sobre si mesmo (com ironia) cujo título é God.

Meu amor pela obra deste artista, e minha intimidade com tudo o que ele escreveu, rabiscou, deixou sem final, todas as suas letras e todos os seus espetáculos, seus livros onde minuciosamente comenta cada canção que criou – não me escondo em falsa modéstia: não há nada ali que eu não tenha lido, visto, ouvido. Faço teatro para continuar respirando. Faço no teatro o que me permitirem fazer ao lado de meus amigos e parceiros. Na obra de Stephen Sondheim, encontrei o Shakesapre que nunca alcancei, o Bergman que não decifrei, o Beckett que me deu sono. Quero ser muito mais que sou como artista e desejo ir até onde minha mediocridade me detenha – tenho Sondheim na cabeça e na alma, minha obrigação é não desistir.

Deus não morreu.

* Claudio Botelho é ator, versionista e forma com Charles Moeller a principal parceria do musical brasileiro 

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