Daniel Teixeira|Estadão
Daniel Teixeira|Estadão

'Meu Amigo, Charlie Brown' combina a graça infantil com dilemas dos adultos

Musical é inspirado nos quadrinhos criados por Charles M. Schulz em 1950

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2016 | 04h00

A sensação é a de abrir um enorme álbum com quadrinhos de Charlie Brown e sua turma. “Na verdade, a intenção é realmente essa: criar no espectador a impressão de estar lendo uma série de tirinhas, com o detalhe de os personagens serem animados”, comenta Alonso Barros, diretor e coreógrafo de Meu Amigo, Charlie Brown, musical que estreia hoje, no Teatro Shopping Frei Caneca.

Trata-se do espetáculo inspirado nos quadrinhos criados por Charles M. Schulz em 1950 e publicados diariamente pelo Estado. Em cena, os conhecidos e queridos personagens Charlie Brown, Lucy, Sally, Schroeder e Linus que, apesar da intenção de entreter o público infantil, revelam uma profundidade nos assuntos que interessam principalmente os adultos.

“Há um equilíbrio muito nítido nessas duas finalidades”, comenta Tiago Abravanel, que volta aos palcos depois do estrondoso sucesso de Tim Maia, Vale Tudo – O Musical. “As crianças se divertem com o visual e o gestual dos atores, enquanto os adultos se divertem com a forma com que determinados assuntos, como solidão e compaixão, são tratados.”

Tiago vive Snoopy, o adorável cãozinho que reflete sobre as atitudes humanas. Assim, ele realiza agora um desejo antigo: na primeira montagem do musical no Brasil, em 2010, Tiago participou da audição e, apesar de aprovado, relutou em deixar o espetáculo no qual trabalhava na época, Hairspray, que também era de sua adoração.

O tempo passou, Tiago marcou presença na televisão (fez novela e hoje é um dos destaques do seriado Chapa Quente) até descobrir que Meu Amigo, Charlie Brown seria novamente montado. “Um dos primeiros nomes em quem pensamos foi o do Tiago – não só por ele ter passado na primeira audição, mas principalmente pela paixão que ele tem pelos personagens”, conta o ator Leandro Luna, que não apenas vive Charlie Brown no espetáculo, como é diretor de produção, ao lado de Danny Olliveira.

Luna, assim como o resto do elenco, fez um detalhado estudo de postura em cena. Ele, por exemplo, consegue traduzir com delicadeza a melancolia de seu Charlie Brown, menino que, apesar das inúmeras qualidades, busca o reconhecimento dos coleguinhas. “Observamos como cada personagem é apresentado no quadrinho para, a partir daí, colocarmos a nossa criação”, observa Guilherme Magon, que vive o pianista Schroeder com rara precisão, tanto na presença no palco como na bela voz.

Já Paula Capovilla descobriu o filão do humor como melhor caminho para apresentar as atitudes iradas de Lucy Van Pelt, irmã de Linus, interpretado por Mateus Ribeiro – experiente no teatro musical brasileiro, Paula consegue tirar proveito da excelente extensão da voz para arrancar gargalhadas.

Mariana Elizabetsky tem uma dupla função: além de viver Sally Brown, a irmã de Charlie, ela também cuidou da versão brasileira do espetáculo, inspirado na montagem que estreou em 1999 na Broadway, You’re a Good Man, Charlie Brown. Ela teve o devido cuidado de manter o frescor do diálogo infantil, mas sem deixar que temas mais áridos (como os filosóficos) soassem impróprios ou mesmo indevidos. As canções originais são de Clark Gesner e o espetáculo ganhou músicas adicionais de Andrew Lippa.

Snoopy apareceu pela primeira vez em uma tirinha em 4 de outubro de 1950, criado por Charles M. Schulz (1922-2000), que utilizava o desenho de traço simples, mas preciso, para discretamente revelar fatos autobiográficos (Charlie Brown é o próprio Schulz na infância) e também das pessoas ao seu redor. “Não faço psicanálise para não perder a inspiração”, dizia, ironicamente.

Melancolia. O universo de Charlie Brown se caracteriza pelo humor delicado e melancólico, com personagens inteligentes, sensíveis, mordazes e criativos que provocaram uma revolução no mundo das histórias em quadrinhos. Afinal, o protagonista é um menino cheio de preocupações e com algumas frustrações; Schroeder vive debruçado ao piano e tem Beethoven como herói; Lino não desgruda de seu cobertor; Lucy tem uma banca de analista; Sally, a irmã mais nova de Charlie Brown, vive num dilema escolar e Snoopy é extraordinário em sua simplicidade.

“O grande desafio era o de manter os personagens facilmente reconhecíveis pelos fãs, mas também o de acrescentar pequenas mas importantes contribuições trazidas pelos atores”, observa Alonso Barros.

Leandro Luna teve a ideia de remontar o musical há dois anos, quando a Fox anunciou o início de uma animação em 3D, dirigida por Steve Martino e que estreou em janeiro passado, contabilizando uma ótima bilheteria. “Foi o sinal para que eu recuperasse alguns cenários e figurinos, que estavam estrategicamente guardados”, afirma Luna.

PRESTE ATENÇÃO

1. No colorido dos figurinos, criados por Jô Resende - fiel aos personagens originais, os modelos ajudam a decifrar também a personalidade de cada um.

2. Nas projeções que ocorrem no fundo do palco e que complementam as cenas, especialmente quando Charlie Brown empina papagaio.

3. No humor corrosivo e contagiante de Lucy, em grande momento de Paula Capovilla. A cena da confusão envolvendo o filósofo grego Sócrates, por exemplo, é simplesmente hilariante.

4. Na coreografia especialmente criada por Alonso Barros, que mantém, ainda que discreta, a sensualidade que habitualmente marca seu trabalho.

5. Na composição cênica de cada ator, que, com pequenos gestos, permite a rápida identificação dos personagens, especialmente pelo público mais jovem.

MEU AMIGO, CHARLIE BROWN 

Teatro Frei Caneca. R. Frei Caneca, 569, 3472-2229. Sáb. e dom., 17h30/ 20h (abril: sáb., 15h/ 17h30; dom., 16h). R$ 80. Até 24/4

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