L C LEITE/ESTADÃO
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Mestre, Sábato Magaldi ficará entre os imprescindíveis

Crítico integra a geração de mineiros talentosos que iluminou a cultura brasileira em todos os setores

Jefferson Del Rios, Especial para o Estado

15 Julho 2016 | 09h21

Sábato Magaldi ficará entre os imprescindíveis. Aqueles mestres que nos acompanharão, sempre, pelo que ensinaram, deram de inteligência e afeto aos que tiveram o privilégio de conhecê-los. Sábato é desta estirpe ao lado de Décio de Almeida Prado (1917-2000). A maior cortesia, sempre, assim como, sempre, a maior exigência consigo mesmo e com alunos e iniciantes da dramaturgia que o procuravam. A paixão jamais esmorecida pelo teatro desde quando se iniciou na crítica, no Diário Carioca, do Rio (nos anos 1950), à longa trajetória nos jornais do Grupo Estado, iniciada em 1956, como redator do Suplemento Literário (1956-1969) e crítico do Jornal da Tarde (1966-1988). 

Nascido em Belo Horizonte, com um lado italiano, Sábato Antonio Magaldi integra a geração de mineiros talentosos, uns mais jovens, outros um pouco mais maduros, que iluminaram a cultura brasileira em todos os setores, uma lista incompleta no calor da despedida: Hélio Pellegrino (seu primo), Fernando Sabino, Jacques do Prado Brandão, Wilson Figueiredo, Francisco Inglesias, Autran Dourado, Wilson Figueiredo. Poetas, romancistas, cronistas, ensaístas e críticos. 

Sábato conseguiu aliar a trabalhosa linha de frente jornalística com aulas na Escola de Arte Dramática (EAD), a convite de Alfredo Mesquita, e, posteriormente, na Universidade de São Paulo, onde chegou a Professor Emérito. Sem esquecer a atuação como Secretário Municipal da Cultura (1975-79), quando o regime militar com ameaças e proibições foi um desafio que soube enfrentar. Mais detalhes de sua longa carreira estarão em outros artigos e depoimentos. Cabe aqui apontamentos de quem teve o prazer de estar próximo dele e de sua mulher, a escritora Edla van Steen. Observações que vão desde o seu rigor extremado com as vírgulas à paciência em apontar fragilidades estruturais, de enredo ou estilo, em textos que viriam a ser dramaturgia bem-sucedida. 

Quem o assistiu em aulas, sabe muito bem como o mais alto conhecimento pode ser externado de forma clara, isenta do maneirismo das citações e bibliografias pesadas. Sábato era preciso e profundo em um tom coloquial marcado por algo entre o recato, o humor discreto e, sim, os momentos duros com a literatice, o teatro obvio. Tinha autoridade para exigir mais, ele um dos primeiros a tirar de Nelson Rodrigues a etiqueta de escandaloso, senão pornográfico, para alçá-lo à dimensão de dramaturgo maior.

Faria o mesmo por Plínio Marcos. Outros bons autores, como Consuelo de Castro, Leilah Assumpção e Maria Adelaide Amaral (uma amizade para sempre) lhe são devedores gratos. Sabemos disso por saber, por confidências entre amigos e agradecimentos públicos, porque Sábato encarava tudo como dever de oficio. Não ostentava nada. Professor convidado da Sorbonne, membro da Academia Brasileira de Letras, integrante de conselhos de instituições de arte e cultura, era um conversador de primeira, o conselheiro perspicaz de novatos (o encenador Augusto Boal, um dia, foi um deles). Nenhum traço professoral, nenhuma palavra de ordem. Em política, pertenceu à geração marcada pelo Estado Novo e, portanto, sobre despotismos chegava aos palavrões. Jamais cedeu, no magistério, nas funções oficiais (secretário municipal, não temeu o SNI que quis interferir no teatro paulista). No jornalismo, quando alguém (episódio grotesco) insinuou o seu suposto apoio ao teatro de esquerda, Sábato usou a legendaria interjeição de Minas: “Uai... me mostre o bom teatro de direita”.

Sua obra é/será regra e compasso para quem entra no palco ou plateia: críticas reunidas pela grande companheira Edla, múltiplos ensaios – como o fundamental Cem Anos de Teatro Paulista, nascido de um convite de O Estado de S. Paulo que completava seu centenário, trabalho dividido com a brilhante pesquisadora Maria Thereza Vargas. E mais e mais: aulas, conselhos particulares, palestras, sugestões, pareceres, orientação de teses. É esta vida plena que o teatro celebra e terá como referência. É do querido e imprescindível Sábato Magaldi de sorriso cordial que nos despedimos com lágrimas e aplausos.

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