DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Mesmo sem sabor de novidade, 'O Rei da Vela' surpreende ao traçar acurado retrato da atual crise

Teatro Oficina recria montagem de 1967, com Renato Borghi que mantém o vigor do personagem e reacende o seu sadismo

Maria Eugênia de Menezes, Especial para O Estado

08 de novembro de 2017 | 06h00

Pode-se rever um filme, um quadro, um livro. Mas uma peça, cerrada a cortina, desaparece. Ficam os registros, mas não a obra de arte em si. Não existe meio de se conhecer os espetáculos do passado nem de guardar as grandes realizações do nosso tempo para o futuro. O que a versão em cartaz de O Rei da Vela desafia, de certa maneira, é essa intrínseca fugacidade do teatro. 

Passados 50 anos de sua estreia, o que assistimos agora no Sesc Pinheiros não é propriamente uma nova montagem do texto de Oswald de Andrade, mas uma recriação da encenação de 1967. Ao tomar a decisão de resgatar em minúcias o cenário de Helio Eichbauer e de manter Renato Borghi no papel do protagonista Abelardo, cria-se a sensação de que existe uma chance de reviver a experiência histórica do Teatro Oficina. 

Obviamente, é impossível retomar o impacto original. A obra veio coroar a trajetória fulgurante de José Celso Martinez Corrêa na década de 1960, firmava seu lugar como mais importante diretor da época e, por fim, vinha apresentar Oswald de Andrade aos tropicalistas – o que nos legou uma ampla e conhecida herança. O contato com o sarcasmo e a crítica demolidora do autor deu a Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rogério Duprat e Os Mutantes a munição necessária para apontarem suas armas não apenas contra o imperialismo americano, mas diretamente para a hipocrisia da burguesia nacional.

Mesmo sem sabor de novidade, O Rei da Vela consegue ser mais do que um passeio ao passado. Ainda que tenha tom de manifesto – foi escrito em 1933, no calor da quebra da Bolsa de Nova York – o texto de Oswald cresce pela multiplicidade de contradições que aponta. Retratava-se, então, a queda da aristocracia cafeeira, que vinha dar espaço à ascensão da burguesia. Abelardo 1º é um agiota que, para legitimar sua riqueza e lugar na sociedade, quer se casar com Heloísa de Lesbos, aristocrata falida. Nesse xadrez, os peões no tabuleiro se alteram, mas não o jogo. A classe que está no poder continua a se portar como predadora, pronta a depauperar o País. O enredo soa como uma paródia, carnavalizada, do que escreveu Lampedusa, no romance O Leopardo: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Máxima, aliás, que o noticiário insiste em reiterar diariamente.

O surgimento de novas linguagens cênicas decerto tirou algo do impacto estético do espetáculo, que provocou espanto pelo seu palco giratório – modelo que Zé Celso importou do Berliner Ensemble – e pelas ambientações luxuriantes de Eichbauer para os três atos, com alusões ao circo, ao teatro de revista e a ópera. Mas as boas escolhas do diretor continuam válidas. Mesmo sem ter conhecido Bertolt Brecht, Oswald aproximava-se do teatro épico – corrente que busca manter o público distanciado das estratégias de ilusão usadas em cena e atento à crítica social. Zé Celso sabe usar o gênero com uma propícia dose de deboche e sem prender-se às suas amarras. Com bom ritmo e humor afiado, a encenação ressalta a perspicácia do texto. Mesmo com arestas em algumas interpretações, o elenco mostra-se suficientemente coeso para cativar o interesse da plateia por cada um dos três atos.

Aos 80 anos, Renato Borghi mantém o vigor do personagem e reacende o seu sadismo. O ator, que à época da estreia buscou amparo em figuras populares como Ademar de Barros e Chacrinha para sua composição, descobre novas fontes. Antropofagicamente, se alimenta da sordidez dos poderosos de todos os tempos para nos devolver um Abelardo de inigualável cinismo. Zé Celso está em cena com uma versão anárquica de Dona Poloquinha, defensora dos valores da família e da tradição, e Elcio Nogueira Seixas se destaca por trazer contornos mais fortes ao personagem do investidor americano. 

Chega a ser assombrosa a acurácia de Oswald em apontar fenômenos e sintomas da convulsão que toma o Brasil. Como se os últimos dois anos somassem novos e insuspeitados sentidos à paisagem descrita pelo modernista. O que poderia ser lido, em outro contexto, como réstia de esperança dissolve-se diante do público. Tudo que está em cena parece um espelho distorcido desse momento de fim das ilusões, de apagamento do mito do país do futuro. 

O que está a ruir é o poderoso mito fundador que o Brasil sustentava por séculos. Amparado por ampla historiografia, esse discurso de redenção sugeria que as precariedades seriam, um dia, superadas. Alcançaríamos, por fim, um grande lugar no mundo. Havia a natureza pródiga, a terra farta, o povo amistoso. Éramos o gigante deitado em berço esplêndido. Darcy Ribeiro vislumbrava uma “nova Roma”. Quem ousaria tal vaticínio hoje? Chegamos a um estado em que a fábula edulcorada se desfez. O Rei da Vela nos coloca diante de uma encruzilhada de onde não se vê caminho nem sentido. 

O REI DA VELA

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400.

Sáb. 19h. Dom. 18h. R$ 50. Até 19/11.

 

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