Marília Gabriela estreia 'Casa de Bonecas - Parte 2' e defende liberdade das mulheres

Espetáculo imagina o futuro de Nora, personagem de Ibsen que inventa sua independência

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2018 | 06h00

Na semana em que a Argentina rejeitou a descriminalização do aborto, o STF no Brasil abriu-se ao debate da questão. Neste sábado, 11, a atriz e jornalista Marília Gabriela estreia Casa de Bonecas – Parte 2, no Sesc Consolação, e reconhece no momento atual a relevância de discutir temas pertinentes às mulheres. Ela vive Nora, personagem da peça de Ibsen que escolhe viver só e deixar a família e os três filhos. “Ainda vivemos em um paternalismo atrasado, no aspecto religioso e político.”

Na história original, escrita em 1879, Nora precisa ajudar o marido Torvald a saldar dívidas e falsifica a assinatura de seu pai para realizar um empréstimo. Quando o homem descobre a fraude, proíbe a mulher de cuidar dos filhos. Nora afirma que está cansada de ser tratada como um brinquedo, uma boneca. Ela lhe devolve a aliança e deixa a casa. “A peça de Ibsen abre a discussão para a construção de liberdade do ser humano”, afirma a diretora Regina Galdino. “A história ganha um caráter feminista ao colocar a liberdade em uma mulher casada e mãe.”

O texto que dá continuação à Casa de Bonecas é um exercício de imaginação proposto pelo jovem dramaturgo norte-americano Lucas Hnath. Não é com surpresa que Regina conta que, antes de escrever a peça, o autor fez uma pesquisa questionando pessoas sobre qual teria sido o destino da personagem. “A grande maioria disse que Nora teria se tornado uma prostituta.” 

Na história de Hnath, a mulher retorna à antiga casa, 15 anos depois. Nesse intervalo, Nora tornou-se uma escritora de sucesso, com obras que falam de liberdade e independência. Em uma delas, a autora descreveu memórias de sua vida de casada. O motivo do retorno de Nora é a oficialização do divórcio. “Naquela época, a mulher era considerada incapaz e precisava da autorização do marido para tudo, inclusive exercer um trabalho”, explica a diretora. 

Sua volta tem todos os tons de um debate trágico. Um deles é o encontro com a filha mais nova, que mal se lembra dela. A jovem que parece ter parado no tempo, condena a mãe pelo abandono e celebra a ideia de que a solidão ronda a vida de toda mulher livre. “O mais interessante é que nenhum personagem é bom ou ruim”, diz a atriz. “Eles não escondem suas dores ou a dificuldade de assumir as responsabilidades.”

Para a diretora, o texto não apenas imagina a vida de Nora, mas entrega uma dramaturgia com características especiais. “Existe uma musicalidade em cada fala. A construção dos diálogos lembra poesia concretista. Também há uma leve abordagem contemporânea, como algumas gírias e palavrões que ajudam a deslocar o texto da fala mais formal presente no original.”

Para Marília, a peça segue questionando os lugares destinados às mulheres. “Hoje, até estamos no corporativismo, mas na política nos falta voz pública, faltam mulheres representantes.”

Peça de Ibsen despertou levante feminista e moderno 

A peça Casa de Bonecas (1879) já teria sido bem-sucedida ao despertar a abordagem da liberdade nas mãos e no coração de uma mulher. Nora, mãe de três filhos e casada com um gerente de banco, tenta salvar o marido das dívidas falsificando a assinatura do velho pai em um empréstimo. A diretora de Casa de Bonecas – Parte 2, Regina Galdino, afirma que, nesse período, a atitude de Nora era mais que anacrônica. “Um exemplo é a Inglaterra do século 19. A mulher que se divorciava tinha uma corda amarrada em sua cintura e era levada até a praça central para ser leiloada. Quem pagasse mais, tornava-se responsável por ela.”

A diretora acrescenta que, na Noruega, país de Ibsen, a chegada do protestantismo de origem luterana reafirmava a importância do casamento e da manutenção das obrigações da mulher. “O valor da família era comparado ao celibato. Essa época também antecede profissões como enfermeira, que nem existia, e advogada.” Além disso, ao atrair a atenção e lançar Ibsen no mundo, a peça inaugura um novo momento para a cena. “Com a solução trágica, ele funda o teatro realista moderno.”

CASA DE BONECAS – PARTE 2. Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245. Tel.: 3234-3000. 5ª, 6ª, sáb., 21h. dom., 18h. R$ 40 / R$ 20. Estreia hoje, 11. Até 9/9

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