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Maria Della Costa: maravilhosa como atriz e mulher

Havia nela a simpatia de quem não estava preocupada em ser outro símbolo sensual; a artista morreu no sábado, 24

Jefferson Del Rios , Especial para O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2015 | 03h00

“Eu queria ser tão maravilhosa”. A frase pronunciada por Maria Della Costa há 50 anos ainda ecoa na memória de quem a assistiu em Depois da Queda, de Arthur Miller, com direção de Flávio Rangel (1964). Encarnando uma personagem visível e sabidamente inspirada em Marilyn Monroe, com quem Miller foi casado, Maria conseguiu realizar o desejo de Maggie, seu papel: foi maravilhosa como atriz e mulher. A encenação iluminou dentro do possível o aziago ano do golpe militar – um dos seus atores, Juca de Oliveira, passara semanas estrategicamente escondido na Bolívia em companhia de Gianfrancesco Guarnieri. Flávio Rangel seria preso no ano seguinte. 

No texto, Paulo Autran, como Quentin, o alter ego de Miller, recorda os dramas conjugais e traumas causados pelo macarthismo, a histeria anticomunista gerada nos Estados Unidos e que chegaria ao Brasil. Analisando a peça e o espetáculo, Décio de Almeida Prado, crítico de O Estado de S. Paulo, salientava que se Quentin é consciência e subjetividade, Maria Della Costa, no esplendor dos seus 38 anos, “pura animalidade, pura inconsciência”. Só este desempenho bastaria para colocá-la na primeira linha das atrizes brasileira – livre das fúteis comparações de beleza e talento entre ela e Tônia Carrero e Cacilda Becker (conversa que não faz justiça a Glauce Rocha, Cleyde Yaconis, Nydia Licia, Margarida Rey, Vanda Lacerda e outras de suas contemporâneas). 

A gaúcha descendente de italianos (que manteria sempre um particular tipo de sonoridade na fala) vinha porém de outras atuações marcantes desde a estreia. Havia nela elegância majestosa ao lado da naturalidade, o modo de ser intimamente simples, a simpatia de quem não estava preocupada em ser outro símbolo sensual. Anos mais tarde, residindo em Paraty, onde teve um hotel, andava pela cidade de bermuda e chinelo de dedo irradiando a mesma simpatia e os traços ainda visíveis da beleza.

Quando se afastou da profissão (excetuando ocasionais trabalhos na TV e a peça Típico Romântico, de Otavio Frias Filho, Maria Della Costa era mais que uma lenda feminina e artística construída em desempenhos fortes em O Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, O Canto da Cotovia, de Jean Anouih, A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, Gimba, de Gianfrancesco Guanieri, e Homens de Papel, de Plinio Marcos (a simples enumeração destes dramaturgos atesta seus recursos cênicos). 

Maria foi também uma contínua animadora cultural desde os primórdios do que se considera o início do moderno teatro brasileiro nos anos 40: Os Comediantes, Teatro do Estudante do Brasil (Rio), o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. Com o marido Sandro Polloni, um dos grandes iluminadores do País, fundou o Teatro Popular de Arte (TPA), no Rio de Janeiro, que depois levaria seu nome. 

Há um sutil componente ideológico na sigla TPA e o repertorio, no geral, foi coerente com um teatro politizado, não sectário e de alto nível literário e formal. O projeto conquistou plateias numerosas e fiéis e teve o reconhecimento no exterior quando excursionou a Portugal e Argentina (no seu início, Maria estudou no Conservatório Nacional de Lisboa onde seria homenageada em 1957). Paralelamente à sala da rua Paim esteve aberta para tensas e arriscadas assembleias teatrais quando o cerco da censura e as prisões aumentaram. Desta Gentile Maria Marchioro – consagrada como Maria Della Costa, é justo e necessário usar a redundância: foi uma bela vida. 

Enterro. O enterro da atriz Maria Della Costa está previsto para as 11h desta segunda-feira, 26, no Cemitério Municipal de Paraty, na Costa Verde do Rio de Janeiro. O velório é realizado na Câmara Municipal, no Centro Histórico, desde a noite de domingo, 25. Ele é aberto a quem quiser prestar as últimas homenagens à atriz, umas das maiores do teatro brasileiro.

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