LENISE PINHEIRO
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Marco Antônio Braz encena quarta versão de 'O Beijo no Asfalto'

Diretor carioca tem projeto de montar uma programação itinerária pelo Brasil para apresentar todas as 17 peças do dramaturgo

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

05 de setembro de 2015 | 06h00

No Novo Testamento da Bíblia Sagrada, o apóstolo Paulo recomendava aos fiéis que se cumprimentassem com um ‘beijo de paz’: “Saudai-vos uns aos outros com um ósculo santo”. Fosse nos lábios ou no rosto, pouco importava, a saudação servia como forma de reconhecimento entre irmãos de fé. 

Ainda assim, tudo dependia mais do sujeito e de sua intenção, como o exemplo da prostituta que surpreendeu a todos beijando os pés do Cristo, ou a máxima traição impetrada por um de seus discípulos que entregou o filho de deus ao castigo da crucificação.

Hoje, a realidade do Brasil está aí, desatando beijos para todos os lados e, diferentemente dos escritos bíblicos, está cada vez mais fácil identificar saudações de paz de beijos de Judas. “Esse espetáculo já é um clássico do teatro brasileiro. Com o agravante de, nos dias de hoje, ser de uma desgraçada atualidade. A sombra preconceituosa do caráter brasileiro está refletida ali. É Nelson apontando o dedo na cara do público e afirmando: ‘preconceituosos, racistas, homofóbicos!’”, inicia o diretor Marco Antonio Braz que estreia neste sábado a montagem de O Beijo no Asfalto, no Teatro Augusta. 

É a quarta vez que o diretor carioca remonta a história de Arandir, agora vivido por Cal Titanero. Na peça, o rapaz testemunha um atropelamento ao sair de casa. O homem que agoniza no asfalto faz um pedido: um beijo. Comovido, Arandir satisfaz o desejo do moribundo às vistas de todos na rua. Mais que as outras três encenações, Braz assume o que traz distinto nesta. “O que trago, e espero que isto não seja um problema, sou eu mesmo. Esta montagem já foi pensada dentro dos parâmetros de encenar o teatro do autor: encenações simples, essenciais, teatrais e clássicas, e que possam viajar com economia e praticidade”, explica. “Essa é a ambição: ser simples e clássico, o que é extremamente difícil.” 

Para Braz, que já montou, entre outras peças, Boca de Ouro, Dorotéia, Viúva, Porém Honesta e Perdoa-me por Me Traíres e já recebeu ofensas como “Viúva de Nelson”, a dramaturgia do Anjo Pornográfico serve como uma luz eterna. “É no palco que debatemos nossos grandes conflitos, mistérios e tabus, com toda a liberdade. Tenho convicção que todo o teatro de Nelson Rodrigues nos faz enxergar a alma humana com sua imensa luz, mas também com sua gigantesca sombra. Por isso, o teatro rodriguiano é já um clássico contemporâneo e miseravelmente atual”, completa. 

A trama do Beijo ganha corpo quando o repórter Amado Ribeiro (Marcos Breda) e a polícia passam a acusar Arandir de atos homossexuais. Selma, a esposa de Arandir, descobre o acontecido e fica perplexa, mas não mais que o religioso Aprígio, o sogro do rapaz. Arandir foge do convívio e vai se refugiar em uma pensão. Aprígio faz uma visita ao genro e declara sua paixão secreta. Movido por ódio e ciúmes, o sogro dispara dois tiros e mata o rapaz. “Existem muitos mais Aprígios do que conseguimos enxergar, pois eles fingem ser o que não são. O sujeito é casado, vai à igreja, paga dízimo, é contra o aborto e abomina os homossexuais, mas, na calada da noite, sai com travestis, meninos e meninas”, conta. A estes, Braz deixa o convite: “Quem sabe não possa haver alguma iluminação. Por isso, venham sem medo assistir ao espetáculo! Pode servir como psicanálise para vocês”. 

Braz também anuncia sua missão de montar todas as 17 peças do dramaturgo. Antes de São Paulo, o diretor se apresentou no Rio mas assumiu certas dificuldades. “Carioca não perdoa sotaque paulista, ainda mais em Nelson Rodrigues. Se o Peter Brook montasse Nelson em Londres, eles iriam reclamar da falta do carioquês”. Por outro lado, nada o desanima. Sua relação com o dramaturgo também rompe com os padrões tradicionais. “Fidelidade rodriguiana, cheia de adultérios”, brinca.

Na próxima esquina

O Grupo de Segunda estreou em agosto último sua versão do texto de Nelson Rodrigues no Espaço Parlapatões. 

A montagem de Jair Aguiar incorpora dispositivos no palco semelhantes a tribunais. Inspirado na atmosfera da metrópole, a peça tem figurinos em tons de branco e preto a fim de criar um aspecto noir. A peça vai até 15 de outubro com Antonio Netto como Aprígio e Leão Lobo vivendo mulheres fofoqueiras.

“O público precisa conhecer a grandeza desse teatro”

Carioca da Tijuca, Marco Antônio Braz encenou seu primeiro texto de Nelson Rodrigues em 1990. Após O Beijo no Asfalto, o diretor levou ao palco Perdoa-me por Me Traíres (1994), Viúva, Porém Honesta (1995), Boca de Ouro (1997), Bonitinha, mas Ordinária (1999), Valsa N° 6, Senhora dos Afogados e Dorotéia (2002) e A Falecida (2014). 

A próxima empreitada é realizar um projeto itinerante de encenar as 17 peças do dramaturgo pelo Brasil. Segundo Braz, o objetivo é apresentar o teatro completo de Nelson Rodrigues em várias cidades. 

Durante duas semanas, o grupo ficará em cartaz com todas as peças em ordem cronológica. Depois, seguem para outras regiões. “Já começamos a ensaiar Valsa N° 6, Perdoa-me por Me Traíres e Viúva, Porém Honesta. Pretendemos estrear no primeiro semestre de 2015. Esse é um projeto de formação de público. O País precisa conhecer a grandeza de Nelson Rodrigues”

O BEIJO NO ASFALTO. Teatro Augusta. Rua Augusta, 943, Consolação, tel. 3151-4141. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 40. Até 27/9

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