Fabio Motta|Estadão
Fabio Motta|Estadão

Marcelo Gomes se inspira em Manaus para criar coreografia no Theatro Municipal do Rio

Ele é o principal bailarino do American Ballet Theatre

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Junho 2016 | 03h00

Marcelo Gomes nasceu em Manaus, mas mudou-se com a família para o Rio aos 5 anos. Na capital fluminense, aprendeu a arte que o levaria a ser famoso pelo mundo. Bailarino principal do American Ballet Theatre (ABT), onde dança há 19 anos, ele retorna a duas de suas origens - familiar e artística - para coreografar uma obra inspirada em sua terra natal para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

O balé de Gomes é a terceira parte da chamada Trilogia Amazônica, que estreará em 3 de agosto, dois dias antes do início dos Jogos Olímpicos na cidade. Foi do diretor artístico do Theatro Municipal, o maestro André Cardoso, a ideia de usar composições de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) em uma criação que reverenciasse o Brasil. Ana Botafogo e Cecilia Kerche, diretoras do Ballet do Theatro Municipal e primeiras-bailarinas da companhia, escolheram os três coreógrafos brasileiros para a empreitada: Luiz Fernando Bongiovanni, Daniela Cardim e Marcelo Gomes.

Cada um é responsável por um ato da trilogia, que será apresentada com orquestra. Bongiovanni - que foi bailarino na Europa e, hoje, é um dos nomes mais respeitados da dança contemporânea no País - ficou com Erosão, que Villa-Lobos compôs em 1950, sobre a origem do Rio Amazonas. Daniela, que já foi bailarina do Theatro Municipal e atualmente mora e trabalha em Londres, coreografou Uirapuru, de 1917, obra sobre o pássaro que tem sua própria lenda. Já Gomes recebeu como missão Amazonas (1917) e Alvorada na Floresta Tropical (1953). “Tem tudo a ver com o Marcelo, com essa brasilidade. Acho que ele também está gostando de resgatar tudo isso. Porque, na realidade, ele é brasileiro, mas saiu muito criança daqui. Fez essa carreira linda e hoje vive nos Estados Unidos. Mas ele nunca perdeu as raízes”, afirma Ana Botafogo.

Gomes passou duas semanas em abril trabalhando com a companhia no Rio. Segundo ele, seu balé é livremente inspirado no boi-bumbá e no Festival Folclórico de Parintins, palco da disputa entre os bois Garantido e Caprichoso. “Eu escutava meu irmão falar que ele ainda se lembrava que as pessoas colocavam fantasias e ficavam correndo no quintal em Manaus. Eu não vi, porque saí de lá com 5 anos. Só entendi essa tradição quando já era adolescente. Com 20 e poucos anos, me dei conta de como isso realmente tem um peso para a Amazônia. É incrível ter dois times e essa rivalidade entre eles. É como se fossem times de futebol, escolas de samba. E isso é muito perto da alma e da vida das pessoas no Amazonas”, diz Marcelo. “Quando surgiu a oportunidade de me conectar mais ainda com minha raiz, tive de fazer um balé sobre o boi. Para mim, não havia outra coisa sobre a qual eu gostaria de falar com essa oportunidade.”

Desenvolver uma dança para obras do vanguardista Villa-Lobos foi um dos principais desafios. Gomes começa seu processo de criação a partir da música. Foi assim em AfterEffect, balé que fez especialmente para o ABT no ano passado, marcando sua grande estreia como coreógrafo. Desta vez, no entanto, ele não escolheu a trilha. “Tenho de me familiarizar com a música primeiro e depois contar a história”, explica. “Não foi fácil. Acho que Villa-Lobos tinha um motivo pelo qual fez a música dessa forma. O respeito que tenho pelo compositor se transformou em coragem para eu decifrar a intenção dele.”

Carga dramática. Apesar do desafio, Gomes terminou a obra em pouco tempo. “O Marcelo tem essa facilidade de criação. Em menos de uma semana, criou um balé de 20 minutos. Eu e a Ana ficamos surpresas com a rapidez com que ele fechou a história, colocou personagens. E tem uma carga dramática muito grande que ele conseguiu tirar dos nossos bailarinos”, diz Cecilia Kerche. O elenco é formado por 17 integrantes da companhia, além de sete crianças da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Entre os principais nomes estão os primeiros-bailarinos Márcia Jaqueline, Claudia Mota, Cícero Gomes e Moacir Emanoel. 

O Theatro Municipal foi o primeiro grande palco no qual o amazonense se apresentou, ainda na infância. Foi Fritz, o irmão da menina Clara no clássico O Quebra-Nozes. Ele conta que, durante o tempo em que passou no teatro, criando o balé, lembrou de como se sentia quando era criança ao lado dos profissionais que admirava. Pensou se agora é ele quem inspira os pequenos. “É muito além do que eu poderia imaginar fazer da minha vida. Nunca pensei que isso fosse acontecer e da maneira como fui recebido. Foi uma troca maravilhosa. Acho que os bailarinos têm muita fome de aprender. É muita paixão e ambição.”

Com a agenda cheia de apresentações nos Estados Unidos - onde dançará balés como O Lago dos Cisnes, Romeu e Julieta, Sylvia e Firebird -, Gomes encontrará novamente os bailarinos do Theatro Municipal em julho. Depois, retorna ao Rio em agosto para o ensaio geral e a estreia. Ainda em agosto, Gomes realizará um sonho: voltará a Manaus, desta vez para mostrar a vertente pela qual já é consagrado, a de bailarino. No Teatro Amazonas, apresentará pela primeira vez uma gala ao lado de grandes nomes da dança internacional e amigos do ABT. 

Duas primeiras-bailarinas na direção da companhia

Gerações de bailarinos brasileiros - profissionais e amadores - foram influenciados por Ana Botafogo e Cecilia Kerche, duas artistas antagônicas em cena. Ana ficou famosa pelo grande carisma e virtuosismo artístico. Com um físico prodigioso, Cecilia sempre impressionou pela qualidade e habilidade técnica. Duas primeiras-bailarinas não dividem o papel principal em uma mesma noite, não dançando. Mas fora do palco, a coisa é diferente. Desde agosto de 2015, elas compartilham a direção artística do Ballet do Theatro Municipal do Rio.

Tanto Ana quanto Cecilia ainda estão se habituando ao novo cargo. “É uma experiência enriquecedora, mas também muito perturbadora. Até um tempo atrás, eu cuidava só dos meus arabesques. Agora, tenho 70 para cuidar”, diz Cecilia. “Não era uma experiência que eu estava esperando. Mas a gente abraçou de corpo e alma. Tanto eu quanto Cecilia vivenciamos muito nossa vida só de bailarinas, de sala de aula e palco. Então, tem sido muito instigante, mas também trabalhoso”, afirma Ana.

Marcelo Gomes tem as duas artistas como referência. Durante o período em que coreografou para a companhia, conta que se emocionou ao fazer aula do lado das duas. “Elas falam: ‘Aula é aula’. Fazem tudo, saltam, fazem pirueta. Depois, colocam a roupa de diretoras e vão fazer seus trabalhos. Estou muito orgulhoso e feliz que estejam inspirando a companhia, apesar dessa grande crise que o País está passando. A troca de ideias é saudável e funciona”, diz Gomes. “Elas estão à procura de uma arte que seja realmente de alto nível, de uma companhia que continue com o nome e a tradição do Theatro Municipal e que os bailarinos permaneçam sendo incentivados e felizes.”

Antes de a Trilogia Amazônica estrear, a companhia apresentou agora em junho O Lago dos Cisnes. A obra, com coreografia de Yelena Pankova e música de Tchaikovski, substituiu La Sylphide, balé que não é remontado pelo Theatro Municipal há 18 anos e estava previsto para 2016. Segundo Ana e Cecilia, a produção teve de ser adiada por causa da crise econômica no Estado do Rio.

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