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Marcelo Gomes estreia sua primeira criação no American Ballet Theatre

Bailarino brasileiro está há 18 anos na companhia

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

28 Outubro 2015 | 03h00

WASHINGTON - Marcelo Gomes é uma estrela da dança. Aclamado pela crítica, o bailarino principal do American Ballet Theatre (ABT) – importante companhia dos EUA e uma das mais prestigiadas do mundo – já foi chamado de o “Cary Grant do mundo do balé” e elogiado por ser um “pacote completo”: bom bailarino, ator e partner. Mas toda a glória que o amazonense de 36 anos conquistou ao longo de sua trajetória não é capaz de tranquilizá-lo sobre o que se seguirá de sua nova empreitada. Nesta quarta-feira, 28, estreia no David H. Koch Theater, no Lincoln Center, em Nova York, AfterEffect, primeiro balé criado pelo brasileiro especialmente para a companhia na qual dança há 18 anos.

No programa dessa temporada, o nome dele está ao lado de figuras consagradas, como Frederick Ashton, George Balanchine, Twyla Tharp e Alexei Ratmansky. “Sinto que agora é minha hora de fazer essa coreografia. Mas, ao mesmo tempo, dá muito medo. É difícil explicar para as pessoas que é só o meu começo e que estou colocando os meus pés na piscina, testando a água”, disse Gomes, em conversa com o Estado. “Tenho um pouquinho de receio de compararem minha carreira como bailarino com a de coreógrafo. E não sei se ainda estão no mesmo nível. Mas acho que você tem de começar em algum lugar e ver o que vai acontecer porque, senão, nunca vai saber.”

Coreografar não é algo natural para qualquer bailarino. Uma das maiores lendas da dança, Mikhail Baryshnikov, certa vez, afirmou que a ele não havia sido dado esse dom. Assim, a transição de uma carreira para outra é sempre um recomeço, uma nova construção, mesmo para artistas como Marcelo Gomes. Há cerca de cinco anos, o brasileiro já vinha desenvolvendo pequenos balés. “Acho que meu diretor acredita em mim. Ele me deu essa confiança, essa segurança de eu poder mostrar o que tenho como coreógrafo. Ele já viu outras coreografias minhas e nunca havia pedido para eu fazer algo tão grande assim com o ABT”, afirma. “Acho que o Kevin (McKenzie) esperou um pouco para ver se eu realmente conseguiria criar um trabalho de 35 minutos, com 23 pessoas, com um vocabulário rico.”

Apesar da credibilidade que Gomes conquistou em cima do palco, ele ainda tem de passar pela avaliação dos críticos americanos, capazes de projetar ou fechar um espetáculo. “Como coreógrafo, você tem mais liberdade de empurrar os limites de como trazer bailarinos para dentro e fora do palco. Mas você tem de fazer algo que as pessoas queiram assistir. Também tem um grande olhar da crítica aqui de Nova York. A lista dos coreógrafos que as pessoas gostam é muito limitada e é muito difícil entrar nela”, afirma. “Você tem de se perguntar: ‘Por que estou fazendo isso tudo?’. Se é para mim, para a arte, para os bailarinos, para a produção. Mas, no fim, tenho de fazer algo que me inspira, um balé que eu gostaria de ver se eu estivesse na plateia. Acho que essa seria a meta final.”

Inspiração. AfterEffect tem cenário da pintora e escritora francesa Françoise Gilot, de 93 anos, musa de Pablo Picasso e mãe de dois filhos do artista espanhol. Já os figurinos ficaram a cargo de Reid Bartelme e Harriet Jung, uma jovem dupla habituada a trabalhar com companhias de dança e que já havia criado peças para outros balés de Gomes.

Como trilha, o brasileiro escolheu Souvenir de Florence, composto por Tchaikovski. É a partir da música que ele começa seu processo de criação. Vai para o estúdio, liga sua câmera GoPro e começa a dançar movimentos que vêm à mente. E isso é o que ele chama de seu dom, escutar a música e enxergar passos. No entanto, o que sai do improviso nem sempre fica até o fim. “Raramente entro no estúdio pensando que Deus vai me dar a luz da coreografia (risos). Eu tento fazer um plano.”

Em AfterEffect, Gomes retorna a um tema frequente em seus trabalhos: a perda e como as pessoas reagem a ela. “Me inspira muito como as pessoas lidam com as suas vidas depois de uma tragédia. Esse balé é emocional para mim, porque morando em Nova York, tantos anos depois do 11 de Setembro, é incrível ver como sempre nesta mesma data todos se unem. Eu quis fazer um balé dedicado a essas pessoas que perderam alguém e continuaram lidando com o ‘after effect’ dessas tragédias.”

A vida, a morte e o amor também permeiam as obras daquele que o brasileiro tem como maior referência, o coreógrafo checo Jirí Kylián. “Para mim, ele é o máximo. Como esse homem é pura poesia. As coisas que ele fala no estúdio são incríveis. Você entende perfeitamente o que ele quer.”

No ano passado, Gomes dançou Nuages, um pas de deux feito por Kylián. Como o checo não anda mais de avião, por causa da claustrofobia, o bailarino precisou viajar até a Holanda para ensaiar. “Criei coragem no fim do ensaio de ir até ele e falar: ‘Mr. Kylián, estou agora fazendo minha própria coreografia e você me inspira muitíssimo. Tudo o que você fez até agora eu já vi. Você tem algum conselho para um novato como eu?' E ele falou para eu começar a ter minhas próprias ideias, não só ver o que ele tem feito, o que ele já fez. Mas ter as minhas ideias e continuar com isso, porque é daí que você aprende. Tão simples e tão real que achei incrível. Foi um tapa nas costas que eu realmente estava precisando.”

Bailarino. Nessa mesma temporada, que integra as comemorações de 75 anos do ABT, Gomes também estreia no papel de Morte, no balé The Green Table, a obra mais importante do alemão Kurt Jooss. Administrar os ensaios como bailarino e coreógrafo foi outro grande desafio. “Eu levava quase uma hora depois do meu ensaio de AfterEffect para parar de pensar naquilo que eu estava montando. Eu começava meu ensaio de Morte e não conseguia estar mentalmente ali. Ao mesmo tempo, tenho de fazer aula e ir para a academia. É muito difícil.”

Mesmo trilhando um novo caminho, o brasileiro ainda tem muitas ambições como bailarino. Deseja, por exemplo, dançar obras de coreógrafos com os quais nunca trabalhou. Outro sonho é levar para o Brasil, pela primeira vez, a versão de O Lago dos Cisnes do coreógrafo inglês Matthew Bourne (que aparece no fim do filme Billy Elliot).

O público brasileiro, aliás, terá a oportunidade de ver Marcelo Gomes no palco ainda neste ano. Em dezembro, ele estará na montagem de O Quebra-Nozes, da Cisne Negro Cia. de Dança, que será apresentada no Teatro Alfa, em São Paulo.

 

Bailarina sensação, Misty Copeland é o grande destaque

Nos papéis principais de de After Effect estão James Whiteside e Misty Copeland, que fez história em junho ao se tornar a primeira afro-americana a ser promovida a bailarina principal em 75 anos de American Ballet Theatre (ABT). Misty, de 33 anos, é presença constante em coreografias de Marcelo Gomes. Foi com ela, aliás, que o brasileiro começou a estudar movimentos e a desenvolver seus primeiros trabalhos, há cerca de cinco anos.

Para Misty, Gomes criou recentemente a coreografia de um comercial para uma marca de roupas esportivas (cujo vídeo se transformou em viral na internet) e um solo - feito em cerca de três dias, segundo o brasileiro - que a bailarina dançou neste mês, acompanhada pelo violoncelista Yo-Yo Ma, no The Late Show, apresentado por Stephen Colbert. "Ela é o tipo de artista que realmente vê o que você está dando e torna aquilo uma coisa melhor. E é como eu trabalho como coreógrafo. É muito inspirador."

Gomes conta que Misty teve um começo difícil no ABT e que vê-la atingir o posto mais elevado dentro da companhia o deixou muito feliz. "Ela realmente pegou a vida dela nas próprias mãos, não esperou que qualquer companhia falasse: ‘Você é uma boa bailarina’. Ela escreveu o livro (a autobiografia best-seller Life in Motion: An Unlikely Ballerina), fez o documentário (A Ballerina's Tale, em cartaz em cinemas americanos). Isso tudo abriu os olhos das pessoas. E ela continua a trabalhar e a se tornar uma artista melhor a cada dia. E é incrível ver isso ocorrer com uma pessoa."

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