PRISCILA PRADE
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Luis Miranda e Mateus Solano embarcam num trem fantasma em 'O Mistério de Irma Vap'

Comédia dirigida por Jorge Farjalla resgata clássicos do cinema e comenta problemas do Brasil atual

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2019 | 03h00

Quando Charles Ludlam estreou o espetáculo O Mistério de Irma Vap, em 1984, ele nunca imaginou que aquela peça-paródia de filme de terror, com seu texto caótico e recheado de cenas de travestismo e drag, ganharia projeção mundial, deixando para trás o teatro de vanguarda da época. Ao desbravar o universo de estilo camp do autor norte-americano, o diretor Jorge Farjalla encena a terceira versão do espetáculo no País, que estreia no próximo dia 12, no Teatro Porto Seguro, em São Paulo. 

Grande sucesso nos palcos brasileiros, sua trama original leva o público a um casarão da Inglaterra repleto de estranhas figuras. Lady Enid é a nova mulher de Lord Edgar. Feliz com a relação, ela teme a presença sobrenatural da primeira mulher de seu marido – justamente, a falecida Irma Vap, cuja imagem fica exposta num quadro na sala. Na casa, ainda há uma governanta e outros moradores igualmente esquisitos. Na direção de Farjalla, o casarão dá espaço para outro ambiente. “Imaginei essa história como um grande parque de diversões, e que todos moravam em um trem fantasma”, afirma. 

E o trem está lá. O pequeno vagão transporta Lady Enid até o palco e circula por portas e rampas. Às vezes, é preciso abaixar a cabeça, como constatou a reportagem ao experimentar um passeio no brinquedo durante o ensaio. A novidade na alteração do cenário tradicional não é o carro-chefe da produção, justifica o diretor. 

Farjalla nega ter assistido às duas produções brasileiras do texto – a primeira com Marco Nanini e Ney Latorraca, e a mais recente com Marcelo Médici e Cássio Scapin (leia abaixo). Antes de concretizar a ideia, ele perguntou para algumas pessoas que assistiram aos outros espetáculos o que era mais evidente neles. “Todo mundo lembrava das trocas de roupas”, conta Farjalla. No texto de Ludlam, a história pede dois atores do mesmo sexo para interpretar diferentes personagens identificados, à primeira vista, pelo figurino. Nas duas montagens brasileiras, essa troca de personagem ocorria de modo mais discreto – não diante dos olhos da plateia. 

Talvez por isso, na encenação defendida por Farjalla, a troca de figurino não é o principal deleite. “Assim como todo mundo monta Nelson Rodrigues, cada um de um jeito, não vejo motivos pelos quais não deveria mudar Irma Vap.”

O resultado é um Luis Miranda que sai do papel do anfitrião e vai para a governanta, diante dos olhos da plateia. “Penso que é uma forma de fazer uma homenagem ao teatro, abrindo o bastidor, algo que está no imaginário do público”, diz o ator. 

O mesmo se dá com Mateus Solano. Com a ajuda de quatro monstrinhos-contrarregras (Fagundes Emanuel, Greco Trevisan, Kauan Scaldelai e Thomas Marcondes), o vestido de Enid é tirado para que o ator vista o casaco e os adereços do porqueiro Nicodemos Underwood. “É como se eu e o Luis fôssemos títeres manipulados através de cordas, como fantoches. Isso reforça o jogo proposto por Farjalla”, explica Solano. 

De fato, na primeira cena da peça, a dupla surge no palco, sem figurino e encarando a todos, para, em seguida, abrir os trabalho: “Merda!”.

De olho no passado, o diretor fez uma incursão aos clássicos do cinema que inspiram o texto de Ludlam. O filme Rebecca (1940), de Hitchcock, narra a vida de uma moça humilde que se casa com um lorde inglês e vive atormentada pela falecida mulher. “Ele fez uma grande homenagem às divas, e ao drag, que resgata a força e a beleza dessas mulheres.” 

Com os bastidores abertos e sem a pretensão de inventar ilusões, a história dinâmica desse trem mal-assombrado não deixa de oferecer um ponto de vista bem-humorado a respeito de questões sociais urgentes e políticas sobre o País. “Um ator negro e um branco juntos em cena já é uma coisa a se considerar. É o duplo”, aponta Miranda. “É a chance de celebrar”, completa Solano. Na primeira cena, o porqueiro Nicodemus teme ser despedido pelo patrão e afirma à governanta que “desemprego é liberdade demais para mim”, prato cheio para que a dupla se sirva da polêmica que se arrasta sobre reforma da Previdência. 

Em outro momento, a estética precária da peça aponta para os desentendimentos em torno da Lei Rouanet e o fim do Ministério da Cultura. “O teatro está rouco”, afirma Miranda. “É um momento sofrido para os artistas no Brasil. Mas o que não vai mudar é que estamos unidos.”

Ode às divas do cinema, vividas por grandes intérpretes

Peça inspirada em filme de Hitchcock colocou o teatro do País no ‘Guinness’ com montagem de sucesso de Nanini e Latorraca 

Desde criança, Charles Ludlam mostrava certa inquietação por coisas que pareciam muito reais e certinhas. Sua brincadeira preferida era a de inventar, seja com marionetes, criando histórias, ou de se fantasiar de seu pai. O teatro, então, surge como esteio para suas ideias repletas de humor. Em 1965, ainda na universidade, o jovem surge à frente do grupo Theatre of the Ridiculous, que se mistura com o gênero do Teatro do Absurdo, no conceito referenciado pelo crítico Martin Esslin

Ao longo da carreira, Ludlam empunha o gênero como possibilidade de praticar o crossdressing – o transformismo, no qual homens se vestem com roupas convencionalmente usadas por mulheres. Foi assim que nasceu a drag Camille, persona feminina criada pelo autor de O Mistério de Irma Vap.

O autor, que já começa brincando com a palavra vampira, escondida no título da peça, passou como um furação ao reunir elementos da cultura pop e do humor, em um espetáculo experimental que, mais tarde, ganharia o mundo. 

No Brasil, a estreia foi com Marco Nanini e Ney Latorraca, em 1986. A produção fez temporada no Teatro Casa Grande, no Rio, e foi mais do que bem-recebida, cumprindo onze temporadas, além de percorrer diversas cidades do País. O fenômeno acabou posicionando a produção no Guiness World Book of Records como o espetáculo teatral que se manteve mais tempo em cartaz, com o mesmo elenco, no planeta em todos os tempos.

Em 2008, foi a vez de Cássio Scapin e Marcelo Médici encarnarem as oito esquisitices do casarão. “Quando assisti à peça com Marco Nanini e Ney Latorraca, nunca imaginei que um dia faria o espetáculo”, lembra Médici. “O que me seduziu no projeto foi a

portunidade de ser dirigido por Marília Pêra, gênio insubstituível no teatro brasileiro.” Diante da nova produção, o ator celebra a peça e passa o bastão. “O texto é um clássico, e agora estará nas mãos dos talentosos Luis Miranda e Mateus Solano!”(COLABOROU ADRIANA DEL RÉ)

O MISTÉRIO DE IRMA VAP. Teatro Porto Seguro. Al Barão de Piracicaba, 740, tel.: 3226-7300. 6ª, 21h; sáb., 18h e 19h; dom., 16h e 19h. R$ 150 / R$ 40. Até 16/6.

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