Leo Aversa
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Louise Cardoso estrela monólogo baseado em livro de Olivia Byington

Atriz de 'O Que É Que Ele Tem' fala ao 'Estado' sobre a necessidade de se conviver com as diferenças

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 03h00

Comediante nata, a atriz Louise Cardoso já cuidava de sua nova produção (uma peça francesa, que unia humor e drama) quando foi instigada pelo dramaturgo e diretor Flávio Marinho: “Você já leu esse livro?”, perguntou ele, mostrando uma edição de O Que É Que Ele Tem (Objetiva), da cantora e compositora Olivia Byington. Diante da negativa de Louise, Marinho arrematou: “Pois leia – você vai querer fazer um monólogo a partir desse texto”. Fã ardorosa do convívio com os colegas em cena e sem nenhuma experiência em trabalhar sozinha no palco, a atriz não levou a sério até folhear as primeiras páginas. “Fiquei muito tocada e me convenci de que tinha de falar sobre isso”, conta ela que, depois de uma temporada de sucesso no Rio, agora apresenta, no Teatro Eva Herz, O Que É Que Ele Tem.

A peça é um condensado das 184 páginas da obra de Olivia, que narra ali como sua vida mudou radicalmente com o nascimento do filho João, em 1981. “Ela estava com apenas 22 anos e, como mãe de primeira viagem, fez muitos planos para aquela criança”, explica Louise. João, no entanto, nasceu com uma síndrome raríssima, de Apert, causada por uma mutação genética que gera acrocefalia (desenvolvimento do crânio anormal) e sindactilia (pés e mãos fundidos total ou parcialmente). “Como o cérebro é pressionado, sua cabeça tem um formato diferente, além dos dedos estarem todos unidos.”

Assim, João foi uma criança que, desde o nascimento, tomava remédios todos os dias e se submetia regularmente a cirurgias que abriam seu crânio, rotina a que se somavam a erros médicos e viagens para tratamento em outros países. Olivia precisou interromper sua carreira para cuidar do menino mas, além da exigências que nasceram dessa situação, ela teve de travar outra batalha, essa de fácil diagnóstico, mas de complicada medicação: a luta pela inclusão de seu filho em um mundo que não está preparado para conviver com a diferença.

“É uma história de muitas vitórias. Olivia não se faz de coitada em momento algum. Ela vai à luta, enfrenta os problemas com absoluta leveza, coragem e muita determinação”, nota Louise, que inicia a peça com as luzes ainda acesas. “Cumprimento as pessoas e digo que vou contar a história do meu filho João, que é uma pessoa muito especial.” Aos poucos, as luzes se apagam enquanto a personagem narra a trajetória do garoto. Impossível conter a emoção, mas, novamente, nada de deixar florescer sentimentos piedosos. Afinal, o próprio João, em sua alegria de viver, inibe tais reações. “É um rapaz apegado à existência – a maioria das pessoas não tem nem a metade dos problemas do João, mas, mesmo assim, ele é um guerreiro.”

Para isso, foi também determinante o carinho recebido da família, o primeiro grupo a tratá-lo sem restrições. No prefácio do livro de Olívia, um de seus irmãos, o ator e escritor Gregório Duvivier, expõe tal sentimento: “Em alguns sentidos, era um super-herói: João pulava da cama às seis da manhã pra remar, sabia de cor todas as linhas de ônibus e seus trajetos, comia mais que todos nós juntos e não engordava. Nunca ouvi, lá em casa, a palavra deficiência. Ouvíamos muito a palavra diferença, foneticamente tão parecida, mas semanticamente tão distante. Foi na rua que percebi que meu irmão era ‘deficiente’”. 

Tal material, portanto, exigiu um cuidado especial de Louise e do diretor do monólogo, Fernando Philbert. Desde o início, a intenção era valorizar a intimidade do relato. Para isso, convidaram a escritora Renata Mizrahi para assumir a missão de transformar o material em teatro. Sempre fiel ao livro de origem, a peça procura aproximar ainda mais o espectador da história que é contada em cena. Mas, para se chegar até lá, foi preciso um detalhado trabalho de lapidação.

“A primeira versão da Renata tinha 58 páginas, quase caí para trás”, diverte-se a atriz. “Duraria cerca de três horas e ainda teria de ter intervalo.” Aos poucos, o texto foi sendo trabalhado até chegar à versão atual, que deixa Louise cerca de uma hora em cena. E, por ser Olivia uma musicista, a trilha sonora tornou-se um elemento natural do espetáculo, que traz canções conhecidas de seu repertório, como Lady Jane e Anjo Vadio, e que chegam a assumir o protagonismo em determinados momentos da montagem. “Olivia está presente também dessa forma”, observa Louise.

Ao criar seu personagem, a atriz evitou representar a escritora. “Segui o conselho de Fernando: ‘Seja todas as mães em cena’.” E assim é. Mas Louise ficou surpresa quando, depois da estreia no Rio, recebeu um telefonema do diretor Daniel Filho, marido de Olívia. “Ele disse: ‘Você é a Olivia! Até nos gestos!’. Gostei, não sei explicar, mas juro que não foi intencional.”

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