Mayra Azzi
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‘Lobo’, fábula de terror, paixão e morte

Espetáculo de Carolina Bianchi, que estreia nesta quinta, 24, reflete sobre o embate entre civilização e instinto

Igor Giannasi, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 21h19

Em Lobo, a atriz, performer, diretora e dramaturga Carolina Bianchi propõe um embate em o instinto e a civilização por meio de coreografias e práticas performáticas em uma fábula de terror episódica que mescla paixão, morte e erotismo. Carolina divide a cena com 15 artistas homens – atores, bailarinos e músicos –, selecionados a partir de uma residência realizada pela autora no ano passado.

No espetáculo, que estreia nesta quinta-feira, 24, no Teatro de Contêiner, na região central de São Paulo, a figura do lobo representa uma reflexão sobre a própria criação, nos mais diversos níveis. “O lobo para mim é o outro, é aquilo que não é o homem, é o fracasso da civilização, talvez. O lobo para mim é o pré-racional, aquilo que estava antes de a gente começar a formular uma frase e a dizer coisas dessa forma de dar limites a elas, o que é e o que não é”, define a diretora.  

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A primeira versão de Lobo foi gestada durante a participação de Carolina, que fez já integrou a Cia. dos Outros, em uma residência de dramaturgia em Buenos Aires, a Panorama Sur, no ano passado. O projeto encerra uma trilogia desenvolvida pela performer, interessada em estudar a questão da sexualidade de uma perspectiva “enquanto prática da cena” e as potencialidades dos corpos. “Isso significava não tratar exatamente a representação do sexo na cena, mas de criar esses dispositivos para que eu pudesse construir atmosferas.”

Esse ciclo teve início em 2015, com Mata-me de prazer, em parceria com o músico Lucas Vasconcellos, na qual Carolina interpretava uma palestrante que narrava a história de um país fictício onde seus habitantes passavam a fazer sexo durante o horário de expediente do trabalho. Em seguida, em 2017, veio Quiero hacer el amor ( experiência sexual #1), em que ela e outras dez mulheres transavam com a arquitetura de edifícios da cidade. “Essa experiencia vem da possibilidade de transformar a energia daquele espaço e se possível das pessoas”, comenta.

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Após a vivência portenha, Carolina realizou, no ano passado, uma residência na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, com 30 participantes, para definir o elenco de Lobo. Os escolhidos foram Alysson Mendes, Antonio Miano, Chico Lima, Felipe Marcondes, Gabriel Bodstein, Giuli Lacorte, Gustavo Saulle, João Victor Cavalcanti, José Artur Campos, Kelner Macêdo, Maico Silveira, Murillo Basso, Rafael Limongelli, Tomás Decina e Tomás de Souza.

Os performers ficam sem roupa durante toda a apresentação. “A possibilidade de estar nu é a possibilidade de se livrar um pouco da civilização”, observa a assistente de direção da montagem, Debora Rebecchi. A equipe técnica é majoritariamente feminina e compõe o coletivo Cara de Cavalo.

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Carolina ressalta o fato de uma mulher estar à frente de uma obra autoral e dirigindo um elenco masculino. “Eu não estou em guerra com os homens e estou em guerra com os homens. É um trabalho também de contradição”, diz ela. “Tem essa dinâmica também. O meu amor pelos homens, o meu pavor pelos homens. E o meu pavor do homem enquanto espécie e aí eu me incluo nisso, não estou de fora disso.”

Evitando os moldes do teatro tradicional, para compor essa fábula de terror a autora buscou referências desde pinturas barrocas, passando por canções italianas, a filmes do gênero, como A Marca da Pantera (1982) e obras do provocador diretor polonês Andrzej Zulawski (Cosmos, O diabo, Possessão). “Para mim, o terror tem algo de sexual envolvido. Isso o que a gente desconhece e tem medo. O sexo também tem esse mistério. A libido é uma coisa que pode ser terrível, extremamente assustadora”, diz Carolina.

SERVIÇO:

Lobo

Teatro de Contêiner - Rua dos Gusmões 43, Santa Ifigênia, São Paulo, telefone: (11) 97632-7852

De 24 de maio a 15 de junho

Quintas e sextas-feiras, 21 horas

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)

Classificação: 18 anos

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