Guto Muniz/Estadão
Guto Muniz/Estadão

Livros lançados pelo Galpão são testemunho da humanidade profunda do grupo

Em princípio, os diários foram pensados como procedimento de ensaios, mas sua escrita passou a ser prática frequente

Gabriel Villela, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2015 | 03h00

Quando, no começo de 1992, nos reunimos - eu, os atores do Galpão e o poeta e arquiteto Cacá Brandão- no adro da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, para dar o pontapé inicial na montagem de rua de Romeu e Julieta de Shakespeare, sabíamos que faríamos uma parceria que nos transformaria para sempre.

Exatamente por ter consciência da importância histórica daquilo que começávamos, ficou acordado entre nós que o processo de montagem da peça deveria ser contado num diário de bordo. Nele, seria relatado o dia a dia dos ensaios, sem ocultar dúvidas, questionamentos, conflitos ou dificuldades. A função da redação do diário ficou a cargo do nosso dramaturgo, Cacá Brandão.

O que, em princípio, foi pensado como procedimento de ensaio, passou a ser prática frequente no trabalho do grupo. Isso se deveu especialmente ao trabalho desenvolvido por Eduardo Moreira que, além de fundador do grupo, é seu diretor artístico. A preocupação pelo registro e transmissão de uma experiência artística única, que alia pesquisa, busca de linguagem e um teatro de profunda comunhão com o público, passou a ser mais uma marca de inovação do Galpão.

Inovação que é um presente para estudantes e amantes do teatro, que agora contam com um testemunho profundamente humano desse empreendimento de mais de 30 anos, de um grupo que tem em seus espetáculos uma marca essencialmente brasileira, ao mesmo tempo que profundamente ancestral e radical como experiência coletiva, que é próprio da natureza do teatro.

Mais do que o relato de uma prática teatral marcada pela inquietação e a busca incessante por um teatro que alia festa, risco e rito, os livros são testemunhos de profunda humanidade de um coletivo que marcou e vem marcando o teatro brasileiro há mais de três décadas. Nesses dez diários está relatada a saga obsessiva de 21 anos de trabalho do Galpão. O primeiro livro (Romeu e Julieta) foi escrito em 1992 e o último (Os Gigantes da Montanha) é de 2013.

Tenho o orgulho de abrir e fechar os pontos dessa saga, com três peças que marcaram minha trajetória artística. Nesse percurso, o Galpão, um grupo de obstinados atores, promove também outros encontros luminosos, com artistas do porte de Paulo José, Cacá Carvalho, Paulo de Moraes, Yara de Novaes. Além, é claro, das experiências como direções internas do grupo, executadas por Eduardo Moreira e Julio Maciel.

Para mim, são muito emocionantes os relatos de nossa experiência de ensaios na cidade de Morro Vermelho, onde montamos o cenário de Romeu e Julieta na pracinha de terra batida e fizemos ensaios ao ar livre, acompanhados pelos olhares extasiados de crianças, velhos e alguns homens e mulheres, em sua grande maioria, trabalhadores rurais. Com a interferência direta daquelas pessoas ligadas à terra, inseridos numa Minas profunda, foi moldado o barro que construiu a poesia e a singeleza de nosso “Romeu lua e estrela Julia”.

Houve, também, nosso doce reencontro de artistas curtidos pelo tempo, passados mais de 21 anos depois de Romeu e Julieta, com a montagem de Os Gigantes da Montanha. O espaço do Galpão se transformava numa usina de sonhos. Embalados pelas palavras escritas por Pirandello para o personagem do mago Cotrone, nos entregamos a um exercício teatral de pura liberdade, em que todos eram convidados a se liberar desse mundo regido pelo senso pragmático, entregar-se ao delírio da imaginação. Ali, naquele espaço e tempo suspensos pela magia do teatro, vivemos uma epifania teatral.

Epifania tem sido, por sinal, a marca do teatro do Galpão. Um teatro que vai para onde seja possível fazê-lo. Um teatro que se espraiou pelas ruas dos quatro cantos do País e do mundo, em busca do deleite e do encontro com o público. Seja na Praça da Sé, no Kennedy Center, ou em tantos lugares, lá está o Galpão carregando seus sonhos e arrastando com eles uma multidão de pessoas, nessa festa popular chamada teatro.

E agora, com o lançamento desses diários, o público é gentilmente convidado a entrar na cozinha dessa usina de sonhos. Mineiramente, eles nos convidam para dentro de sua casa. Para tomar um café e comer um pão de queijo. Bom proveito a todos!

Gabriel Villela é diretor, cenógrafo e figurinista. Encenou espetáculos do Galpão

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