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Livro traça painel do teatro brasileiro dos últimos 40 anos

Flavio Marinho reúne programas de peças em 'Teatro é o Melhor Programa'

Daniel Schenker, Especial para o Estado/Rio

18 de abril de 2016 | 04h00

Durante a infância, Flavio Marinho esperava ansiosamente os pais chegarem do teatro. Queria saber como tinha sido a apresentação e folhear os programas dos espetáculos. Quando passou a frequentar teatro, Flavio, não por acaso, decidiu guardar os programas. No decorrer do tempo, formou uma vasta coleção, que acabou originando um feito tão inusitado quanto importante: um livro sobre décadas da história do teatro brasileiro, devidamente evocadas por meio dos programas das montagens encenadas entre 1973 e 2014. Teatro É O Melhor Programa será lançado nesta segunda, 18, a partir das 19h, no restaurante La Fiorentina, tradicional reduto da classe artística, no bairro do Leme, no Rio. 

“Comecei a assistir furiosamente a teatro em 1969. Mas assumi coluna diária de teatro no jornal Tribuna da Imprensa em 1973”, recorda Flavio, justificando a escolha do ano inicial. Como repórter e crítico, atuou nos jornais Última Hora e O Globo. No final dos anos 1980, trocou a imprensa pela prática teatral, acumulando as funções de dramaturgo, diretor e produtor. Há alguns anos, quando estava arrumando a coleção de programas, teve a ideia do livro. “Levei o projeto para editoras consagradas, mas afirmaram que só seria viável se arranjasse patrocínio. Alex Giostri, que vinha publicando as minhas peças em sua editora, perguntou se eu tinha um projeto novo. Eu falei sobre esse livro e ele se apaixonou pela proposta”, relata. 

Flavio trabalhou no livro durante dois anos. O programa de cada encenação recebeu um verbete que “deve fornecer ao leitor uma noção exata do que foi o espetáculo”. Flavio menciona dados concretos – os espaços onde as montagens ocorreram, as datas das estreias, os atores envolvidos –, disseca o conteúdo dos programas e insere uma rápida abordagem crítica dos espetáculos. Realça os variados profissionais, muitas vezes esquecidos, que integram a máquina teatral – produtores, patrocinadores, assessores de imprensa, fotógrafos, programadores visuais. São 507 verbetes distribuídos ao longo de 400 páginas. “O livro é o meu painel do teatro”, sintetiza.

De início haveria mais espetáculos. Flavio, porém, se viu obrigado a fazer cortes. “O livro ficaria enorme e bem caro. Alex disse que seria difícil de manusear. Então, suprimi encenações das quais não tinha memória afetiva. Privilegiei as mais significativas artisticamente. Mas o critério principal foi o programa. Por isso, aqueles dotados de informações mais detalhadas deram naturalmente vazão a verbetes maiores. Encenações emblemáticas, mas destituídas de programas, não foram incluídas – sempre que possível, contudo, ganharam referência em algum lugar do livro”, explica.

Flavio também se preocupou com a diversidade. Contemplou espetáculos de naturezas distintas, da experimentação ao teatro de mercado. Procurou escapar da previsibilidade na estruturação do livro ao buscar certo contraste na ordenação das montagens. Apesar de não surgirem dispostos em sequência cronológica, os programas revelam características específicas de cada período. “Nos anos 1970, pareciam livros ou revistas. No princípio dos anos 1980, se tornaram menos fartos, mas preservando, em parte, o estilo dos programas da década anterior, a exemplo dos de Doce Deleite e Besame Mucho”, analisa Flavio, citando os espetáculos assinados, respectivamente, por Alcione Araújo – para os esquetes de Mauro Rasi, José Márcio Penido, Vicente Pereira e o próprio Araújo, interpretadas por Marília Pêra e Marco Nanini – e Aderbal Freire-Filho (na época, Aderbal Júnior) – para o texto de Mário Prata.

Na segunda metade dos anos 1980, despontou o formato de programa/cartaz, como se fosse uma grande folha de jornal, mais complicado de ler. Nos anos 1990, nasceu a moda de programas priorizando fotos. A impressão que dava era de catálogo de artes plásticas. Nos anos 2000, os programas, mesmo resumidos, voltaram a trazer informações mais claras”, diferencia. Mas nem todos os programas evidenciam essas transições. “Os dos espetáculos musicais e de temática política se mantiveram extensos, ainda que essa última vertente marque menos presença hoje que no passado”, observa.

Entre os programas mais completos, Flavio destaca os de Gota D’Água – a célebre encenação de Gianni Ratto, protagonizada por Bibi Ferreira, para a peça de Chico Buarque e Paulo Pontes – e A Mulher Sem Pecado – montagem de Luís Artur Nunes para o texto de Nelson Rodrigues. “O programa de Gota D’Água tinha o formato de tabloide sensacionalista. E o de A Mulher Sem Pecado oferecia um CD com a trilha do espetáculo, composta por David Tygel, além de depoimentos históricos”, diz.

A diminuição do tamanho dos programas é proporcional à perda de relevância do teatro, a julgar pela crescente redução no número de sessões semanais. “Em 1980, o Rio contava com 67 teatros. De lá para cá, 27 foram fechados. Sinto falta das longas temporadas, dos restaurantes ligados a teatro que não existem mais. Podíamos sobreviver de teatro. Agora, não dá mais”, compara. 


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