Sammi Landweer
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Lia Rodrigues recebe o prêmio francês Personalidade Coreográfica do Ano

Brasileira recebeu o prêmio ao lado do indiano Akram Khan em meio à pandemia

Fernanda Perniciotti, Especial para o Estado

30 de junho de 2020 | 05h00

Em meio à pandemia, a associação francesa de críticos (Association de la Critique de Tréâtre, Musique et Danse) decidiu atribuir um dos seus prêmios mais cobiçados, o da Personalidade Coreográfica do Ano, para a brasileira Lia Rodrigues e o indiano Akram Khan. “O engajamento deles, um no dever da memória, outro no drama das favelas brasileiras, ilustra o quão sensível a arte coreográfica é ao escutar os murmúrios do mundo” – esses foram os critérios anunciados.

A Cia de Danças Lia Rodrigues está fazendo 30 anos, e vale destacar que o ato de nomear uma companhia fundada em 1990, usando a palavra dança no plural, já indicava alguma coisa importante a ser observada. A necessidade de estampar esse plural no seu nome nos ajuda a entender porque, em 2003, Lia passa a trabalhar no conjunto de favelas conhecido por Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e a companhia, nesse ambiente, agrega outros modos de se fazer dança. Em entrevista ao Estadão, por telefone, ela explica: “Eu não consigo separar o que a gente vive no cotidiano de lá do que vai para cena. Não me sinto obrigada a falar ‘sobre os problemas da Maré’. A criação é um lugar de liberdade e está implicada nos assuntos do nosso dia a dia, e é assim que as obras se organizam”. 

Em parceria com a Redes da Maré, instituição que desenvolve um trabalho de construção de cidadania, Lia Rodrigues criou, em 2007, o Centro de Artes da Maré, que se tornou sede da cia, mas nunca existiu apenas como um espaço para seus ensaios. Foi onde nasceu e funciona a Escola Livre de Dança do Centro de Artes, que, atualmente, educa 300 alunos entre 8 e 80 anos. Em sintonia permanente com as necessidades da Maré, e não somente as demandas artísticas, o chão de dança desse espaço está coberto por alimentos. “Temos um Centro de Artes que, hoje, integra a campanha ‘Maré diz não ao Coronavírus’, e se tornou o maior local de distribuição de cestas básicas na Maré. O espaço serve à população. Para nós, a capacidade de se organizar assim, em um momento de pandemia, também é criação”, conta Lia. 

2019 foi um ano e tanto para a companhia. Seu último trabalho, Fúria (2019), depois da estreia na Maré, circulou pelo Brasil e vários países da Europa, e vem tendo uma carreira de muito sucesso. A força de Fúria foi justamente trazer as camadas de precariedade do ambiente do complexo de favelas, no qual muitos dos direitos básicos são negados aos cidadãos que lá habitam, com uma potência de criação e de poesia desses corpos. Não por acaso, são esses os “murmúrios do mundo” que são anunciados como o critério da sua premiação. Um rumor contínuo, que vai pactuando as formulações coreográficas de Lia Rodrigues. Na época da estreia de Fúria, Lia afirmou que a obra é autoantropofágica, porque une nela todas as suas outras criações. Sendo assim, pode-se entender que esse prêmio de Personalidade Coreográfica do Ano se estende como um reconhecimento da sua trajetória artística. 

“Sinto que meu trabalho é reconhecido como artista e ‘artivista’. A gente ativa a arte no campo estético, mas no campo social e político também”, explica ela, sobre o modo como recebeu a notícia sobre o prêmio – um reconhecimento que se liga à possibilidade de sobrevivência da cia e dos projetos do Centro de Artes, na Maré. “No Brasil, as artes não têm o apoio que necessitam. Em alguns momentos, essa falta já foi menor, ou pior, mas nunca existiu uma política específica. Meu trabalho, hoje, é reconhecido em alguns países da Europa, nos quais existe uma rede de coprodução e de valorização das artes vivas de uma maneira significativa. O prêmio fortalece essa posição e ajuda nesse reconhecimento.” 

Lia Rodrigues é associada ao Teatro 104 e ao Theatre National de Chaillot, em Paris, e a Fondation d’Entreprise Hermès apoia a Escola Livre de Dança desde a sua criação, em 2011. A escola, que conta com a parceria do Centre National de la Danse, de Paris, também participa do projeto Next Generation, da Fundação Prince Claus, voltado aos que desenvolvem trabalhos notáveis com jovens entre 15 e 30 anos. Parcerias que permitem que, mesmo diante da suspensão de toda a agenda, seja possível manter os projetos do Centro de Artes e os salários da companhia em dia. 

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