Lia Soares e Suzana Latini|Divulgação
Lia Soares e Suzana Latini|Divulgação

Leonardo Fernandes encarna animal em ‘Cachorro Enterrado Vivo’

Peça que estreou em Belo Horizonte se inspira em história verídica e quase teve a estreia cancelada por ativistas

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2016 | 05h00

Às vésperas de estrear em Belo Horizonte, o primeiro monólogo de Leonardo Fernandes quase foi cancelado. Ativistas dos direitos dos animais procuraram a direção do Palácio das Artes, porque Cachorro Enterrado Vivo parecia sugerir que um animal de verdade iria ser enterrado em cena. Mas ninguém vai ser enterrado, nem mesmo o ator mineiro que estreia, neste sábado, 6, o espetáculo na SP Escola de Teatro. “Nós os convidamos para assistir a um ensaio e os ativistas viram que não haveria nenhum cachorro, muito menos sendo enterrado”, recorda o ator.

O título da montagem já veio pronto, de uma manchete de jornal que descrevia o crime praticado. No texto de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Marcelo do Vale, a montagem traz três personagens envolvidos na situação. “Aconteceu em Santos”, lembra a dramaturga. “Um homem queria mesmo enterrar o cachorro vivo. O animal não estava doente, mas eram evidentes os sinais de maus-tratos.” 

Na peça, o vigia de um terreno recebe a proposta de um homem para cavar uma cova e enterrar seu cachorro. Após negociarem um preço, para surpresa do vigia, o dono retorna com o cão vivo. “Ele quer justificar o ato horrível por conta do desaparecimento de sua mulher, por quem o animal sofre desde que ela sumiu”, conta ainda. 

Em uma das falas, o cão cita as constantes mordidas que dava na mão do dono. A agressão desperta no homem o desejo de dar um fim nele. “Ele vai todos os dias ao necrotério, pois não tem mais certeza de que ela esteja viva. Ele está desesperado e sua relação com o cachorro toma essas vias mais brutais.”

Daniela ressalta que a peça retrata o instinto do homem e a subjetividade dos animais. “Busquei falar sobre essa ferocidade que existe nos animais e no ser humano, e como isso se transforma em ações”, reflete a dramaturga.

Em comparação com um texto tradicional, o desafio do ator foi como encarnar o animal, explica Fernandes. “Optei por humanizá-lo ao máximo”, diz também. “É a parte mais difícil, porque se trata de como nós enxergamos o animal.” 

Boa parte do processo de criação da peça foi voltada para um intenso treinamento físico. “Hoje em dia, não costumo ensaiar as falas, nem cenas. Procuro manter um ritmo na preparação corporal, desde semanas antes da estreia até o fim da temporada”, acrescenta o ator. 

Um vídeo publicado na página do espetáculo, mostra como é essa dura rotina de cão. Com os olhos vendados, joelhos e mãos apoiados no chão, Fernandes precisa corresponder aos chamados da preparadora e bailarina Eliatrice Gischewski. “O objetivo é treinar minha audição e disposição física para responder aos sinais dados”, explica Fernandes. “E saio bastante esgotado”, completa.

Para ele, a situação do cachorro enterrado o inspirou a buscar as emoções do animal e mimetizar seu desespero. Tendo o olfato como um dos principais sentidos dos cães, o ator procurou criar um ritmo para o personagem. “Suas falas são atravessadas pela respiração. É uma maneira de trazer para o meu corpo o drama do animal e seu sofrimento.”

CACHORRO ENTERRADO VIVO. SP Escola de Teatro. Praça Roosevelt, 210, tel. 3775-8600. Sáb., dom. 

e 2ª, 21h. R$ 30. Até 26/9. Estreia hoje (6).

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