JF DIORIO/ESTADÃO
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‘Lembro Todo Dia de Você’ traz uma poderosa junção de música e texto para tratar da aids

Musical discute os preconceitos contra o HIV

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2017 | 04h00

Thiago é um rapaz que vive uma série de dilemas – quando a mãe descobre sua homossexualidade, desponta uma crise familiar graças à “doença” do rapaz. A situação se agrava com Thiago se envolvendo com outro homem, que lhe transmite o vírus do HIV, e piora quando ele contamina o namorado, Júlio, que, revoltado, se afasta. “A cada dia, faço uma nova descoberta sobre a vida de Thiago”, conta o ator Davi Tápias, protagonista de Lembro Todo Dia de Você, musical inédito do Núcleo Experimental que estreia quinta-feira, dia 18, no Centro Cultural Banco do Brasil. “É uma história sobre o abandono e suas consequências.”

De fato, na jornada de autoconhecimento de Thiago em direção a questões decisivas de sua vida – como o abandono paterno, a descoberta da sexualidade, relacionamentos, amizades e o estigma enfrentado diariamente por pessoas com HIV –, Tápias oferece uma comovente interpretação, marcada por sustos, descobertas, tristeza mas também alegria. A realidade, enfim, que ainda ronda especialmente os jovens infectados pelo vírus.

É justamente esse detalhe de infelicidade, porém, que transforma o musical em um espetáculo único. “Nos últimos anos, houve muitos avanços científicos que amparam a saúde de quem vive com HIV, mas os preconceitos, estereótipos e convenções que rodeiam o tema ainda criam um ambiente hostil para os portadores do vírus”, comenta Zé Henrique de Paula, que dirige a montagem, além de também colaborar com o texto e de atuar.

Lembro Todo Dia de Você nasceu a partir da habitual inquietude artística de Zé Henrique e da diretora musical Fernanda Maia, com quem divide o comando do Núcleo Experimental. As primeiras ideias surgiram em 2015, quando o grupo trabalhava em Urinal, um dos mais criativos musicais brasileiros dos últimos tempos. “Naquela época, tínhamos em mente fazer um musical totalmente inédito, com libreto e músicas originais”, conta Zé Henrique. “Foi quando Fernanda trouxe uma ideia.”

A diretora conheceu detalhes da rotina de Rafa Miranda, pianista e assistente musical em Urinal. Soropositivo, ele revelou os problemas sociais que enfrentava. “Não me interessavam as estatísticas, mas as histórias de pessoas como Rafa”, conta Fernanda que, estimulada, iniciou uma parceria com Rafa, em que ele entregava letras para ela musicar. Ao mesmo tempo, Fernanda alinhavava o que depois se tornaria a história de Thiago.

O impulso definitivo veio quando o Núcleo foi contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, em 2016. “Com essa segurança, pudemos trabalhar na elaboração do roteiro e também das canções”, conta Zé Henrique, que iniciou o trabalho de costura da trama quando a dupla já criara um punhado de canções. Nessa fase, foram feitas pesquisas de campo com jovens portadores de HIV e instituições de amparo a esse grupo. Os sentimentos relatados eram muito próximos da vivência de Rafa, o que reforçou no grupo a necessidade de falar sobre as questões que atingem os soropositivos, assim como a dificuldade de dividi-las com outras pessoas.

“A falta de informação, a solidão, as inseguranças, as frustrações e o sentimento de culpa me deixavam submerso no medo. O Zé e a Fernanda me acolheram e me deram suporte, criando uma rede de segurança onde eu pudesse compartilhar meus sentimentos e sair do silêncio”, diz Rafa.

Com material tão poderoso em mãos, os criadores selecionaram então um elenco à altura. Além do talentoso Davi Tápias, que também atua em O Senhor das Moscas, outra produção do Núcleo, em cartaz no Teatro do Sesi, os intérpretes descobriram uma realidade pouco conhecida. “Minhas informações eram muito erradas”, reconhece Fabio Augusto Barreto que, entre outros papéis, vive um drag queen. “O pior é que nos confrontamos diariamente com essa ignorância, o que só gera preconceito”, completa Anna Toledo, também dramaturga (autora do encantador musical Vingança) e que vive a mãe de Thiago.

Os ensaios, portanto, foram um aprendizado. “Aos poucos, perdemos o receio de dizer as palavras certas”, atesta Bruna Guerin, intérprete de Maristela, grande amiga de Thiago. “O importante é não vitimizar os personagens”, observa Gabriel Malo, que vive Julio. O resultado frutificou dentro do grupo: “Vi uma identificação pessoal na dramaturgia”, conta Fabio Redkowicz. E também fora: “Depois de uma leitura, um rapaz, emocionado, me disse que passou pelas mesmas dificuldades de Thiago”, conta Tápias.

LEMBRO TODO DIA DE VOCÊ

Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651. 6ª, sáb. e 2ª, 20h. Dom., 19h. R$ 20. Até 26/6 

Soropositivo inspira outra peça em cartaz

Soropositividade é também o tema da peça Desmesura, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Livremente inspirado na vida do dramaturgo argentino Copi, o texto acompanha seus delírios finais, antes da morte.

E, por meio de sua história, a peça oferece novos contornos para a discussão de gênero.

Um assunto cada vez mais atual – segundo pesquisa da organização não governamental Transgender Europe (TGEU), rede europeia que apoia os direitos da população trans, o Brasil é o país onde mais se matam travestis e transexuais. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes. Os números alarmantes serão lembrados nesta quarta-feira, 17, quando é comemorado o Dia Internacional de Combate à Homofobia. E a aids também preocupa, com números crescentes no Brasil.

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