JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

'Leão de Inverno', com Regina Duarte, retrata a disputa familiar pela sucessão de Henrique II

Peça inglesa traz diálogos afiados e atuais

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2018 | 06h00

O ano é 1183 - o rei Henrique II, da Inglaterra, convoca os três filhos e a rainha Eleanor para comemorar o Natal. O convidado especial é outro monarca, o jovem Felipe II, da França. Mais que os festejos religiosos, todos estão juntos, na verdade, em torno de um único interesse: quem será escolhido como sucessor de Henrique? “Segue-se uma disputa sem limites, em que ninguém respeita o outro ao preparar artimanhas para sair vencedor”, comenta o encenador Ulysses Cruz, diretor da montagem de O Leão no Inverno, peça que estreia no Teatro Porto Seguro, nesta sexta-feira, 18, e retrata sem piedade esse peculiar momento da monarquia inglesa.

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A montagem inicia temporada na mesma época em que a sucessão real continua em alta, com o casamento do príncipe Harry com a plebeia Meghan Markle, no sábado. “Reis e rainhas ainda fascinam as pessoas e o que torna O Leão no Inverno ainda mais espetacular é esse retrato de como agem os poderosos nos bastidores”, completa o diretor.

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Escrita em 1966 pelo americano James Goldman, a peça chegou ao cinema dois anos depois. Apesar de baseada em fatos históricos, a trama é fictícia - não houve, por exemplo, o encontro da família real para festejar o Natal em 1183. Mesmo assim, a disputa pelo poder é retratada por diálogos arrepiantes. “Em muitos momentos, essa família fracionada me fez lembrar os personagens de Nelson Rodrigues, que sabia como poucos mostrar uma intimidade conturbada”, observa Caio Paduan, que vive Ricardo, o filho mais velho, futuro “Coração de Leão”.

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Ele é o preferido da mãe, a rainha Eleanor (Regina Duarte), para ser o novo rei. Henrique (Leopoldo Pacheco), no entanto, prefere o caçula, João “Sem Terra” (Filipe Bragança), para sucedê-lo. Nessa disputa, o filho do meio, Geoffrey (Michel Waisman), sem apoio algum, oscila entre os irmãos, interessado apenas em obter as maiores vantagens, qualquer que seja o escolhido para ocupar o trono. Nesse território minado, aparecem ainda a princesa Alais (Camila dos Anjos), amante de Henrique, e rei da França, Felipe II (Sidney Santiago), com quem Ricardo manteve um suposto relacionamento na juventude.

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“Especificamente na relação entre Henrique e Eleanor, marcada por amor e ódio, percebo algo de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, peça de Edward Albee”, comenta Regina Duarte. De fato, a relação marital oscila consideravelmente. Irritado com as tentativas de a mulher tentar tirar-lhe do poder, Henrique enclausurou Eleanor em uma torre, onde ficou durante 15 anos e de onde só saía em datas festivas.

O texto é recheado de frases cortantes, que exemplificam essa relação intempestiva. Um exemplo: perguntado sobre como está a mulher, Henrique, que a trata como a nova Medusa, dispara: “Se deteriorando, espero”. A rainha não fica atrás: ao ser questionada sobre a turbulência familiar, ela responde: “Temos o dom para odiar”. Nem mesmo os irmãos se respeitam - é o que se observa quando o abobalhado João tropeça e cai, inspirando o comentário de Geoffrey: “Se você é príncipe, então há esperança para todos os macacos da África”.

“Na verdade, Henrique tem um imenso prazer em fomentar a anarquia em sua família”, acredita Leopoldo Pacheco. “Apesar de apaixonado por Eleanor, ele a deixa presa e também faz tudo para que nenhum dos filhos se case com Alais, que é sua amante.”

Tantas tramas empolgaram Ulysses Cruz quando assistiu a uma recente montagem, em Londres. O diálogos o convenceram a trazer o texto para o Brasil, mas não o conceito. “Era um espetáculo muito palaciano, bom para os ingleses. Eu queria algo mais próximo dos brasileiros.”

Assim, ele teve a feliz ideia de transformar a trama no ensaio de uma peça sobre a realeza. Com isso, os atores não apenas vestem figurinos casuais, evitando os trajes típicos do século 12, como até carregam o roteiro, lendo algumas frases em determinadas cenas. Já a iluminação de Caetano Vilela reforça o tom operístico da disputa familiar, jogando com o claro e o escuro. 

“Também o deslocamento dos atores combina a altivez real com os gestos mais prosaicos”, observa Leonardo Bertholini, responsável pela direção de movimento. Tudo para expor as fraturas da família real. “Não a perfeição retratada pelas pinturas, mas a dura realidade do dia a dia”, diz Cruz.

Segredo de como reinar

"Conspirei e manipulei a vida toda. Não há outra maneira de ser rei, estar vivo e com 50 anos"

(Rei Henrique II)

Paixão real

"Quando conheci Henrique, ele tinha a mente igual à de Aristóteles e um corpo que era um pecado mortal. Violamos os 10 Mandamentos na mesma hora"

(Rainha Eleanor)

Sobre os filhos

"Se eu fosse estéril, estaria mais feliz hoje"

(Eleanor)

Sobre a mãe

"Você já foi adorável uma vez. Vi isso nas pinturas"

(Príncipe Ricardo para Eleanor, sobre os quadros que retratavam uma falsa perfeição)

Filosofia real

"Destruímos tudo o que tocamos. Mas qual família não tem altos e baixos?"

(Eleanor)

Filme foi mal recebido pela crítica em sua estreia

Desde sua estreia, em 1968, o filme Leão de Inverno alcançou um grande sucesso de bilheteria, arrecadando cinco vezes mais seu orçamento de US$ 4 milhões. O prestígio junto ao público, no entanto, não se repetiu entre os críticos da época, que consideraram o longa de Anthony Harvey uma cópia de A Caldeira do Diabo, exibido dez anos antes - ambos mostram familiares se engalfinhando verbalmente.

Leão de Inverno foi um dos últimos filmes criados a partir de uma fórmula antiga de produção a conquistar sucesso. Logo em seguida, longas como Bonnie & Clyde e A Primeira Noite de um Homem, com seu orçamento mais enxuto e roteiro antenado com os anseios do momento, ajudaram a derrubar a chamada velha Hollywood, formada pelos grandes estúdios, que logo abriram falência.

O filme de Harvey conquistou ainda três estatuetas na festa do Oscar: roteiro adaptado (James Goldman, também autor da peça que inspirou a versão), trilha sonora (John Barry, cujo tema de abertura tornou-se um clássico) e atriz (Katharine Hepburn, recebendo seu terceiro Oscar, em noite que dividiu o prêmio com Barbra Streisand, por Funny Girl).

Katharine, aliás, divertiu-se muito durante as filmagens, como conta em sua autobiografia Eu. Lá, relata as brincadeiras no set promovidas por Peter O’Toole, responsável pela estreia no cinema de Antony Hopkins - o veterano ator ficou assombrado com o talento do jovem em trabalhos no teatro. Outro estreante foi o jovem Timothy Dalton, exibindo aqui uma beleza estonteante.

Foi graças ao talento de Dalton e Hopkins, aliás que uma das cenas do filme se tornou célebre. É a que mostra, durante uma reunião para tramar contra o rei da Inglaterra, a paixão ainda incontida de Richard (Hopkins) pelo rei da França, Felipe II. Antes de abertamente revelado, o amor de ambos é mostrado por olhares e pequenos toques.

O cineasta Anthony Harvey, que morreu em dezembro, aos 87 anos, estreou como diretor em Dutchman, de 1966, mas foi com o filme seguinte, Leão no Inverno, que se tornou mais conhecido. Não se tratava, porém, de um iniciante - Harvey foi um exímio montador, trabalhando na montagem de longas como Papai é um Nudista (1959) e O Espião Que Saiu do Frio (1965), mas principalmente de Lolita (1962) e Dr. Fantástico (1964), ambos dirigidos por Stanley Kubrick. Reza a lenda que, cansado de discutir com Harvey, Kubrick o demitiu e o incentivou a começar dirigir, “para deixar de ser chato na sala de montagem”

O LEÃO NO INVERNO

Teatro Porto Seguro. Alameda Barão de Piracicaba, 740. Tel.: 3226-7300. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 50 / R$ 80. Até 29/7

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