Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Lázaro Ramos interpreta Martin Luther King na peça 'O Topo da Montanha'

Ator prepara livro sobre etnia e sua primeira direção no cinema

Entrevista com

Lázaro Ramos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2016 | 05h00

Lázaro Ramos vive um momento singular - como ator, ele volta nesta sexta-feira, 8, em cartaz com a peça O Topo da Montanha, em que vive Martin Luther King e divide o palco com a mulher Taís Araújo no papel da camareira que confronta o grande líder no último dia de sua vida. Lázaro também retoma a escrita de um livro cujo original começou a escrever em 2007 e que trata de identidade, racismo e sua percepção sobre os debates étnicos no Brasil. Finalmente, prepara o roteiro de um filme que pretende ser muito popular, mas sem fazer concessões - está no primeiro tratamento. Sobre os assuntos, Lázaro conversou com o Estado.

Como é voltar à essa peça que tanto tocou o público? 

Sabia que ia ter comunicação, mas não sabia se as pessoas estavam interessadas nessa mensagem. O cenário, a música, o trabalho com o texto, tudo era feito em função de a gente ser ouvido. A volta vai ser mais tranquila. Estreei com a responsabilidade de produzir, dirigir e atuar. Hoje faço com mais tranquilidade. Aceito, por exemplo, momentos de humor que, antes, me deixavam na dúvida se o público não entenderia como desrespeito ao King, o que eu não queria que acontecesse. Tínhamos um compromisso com esse personagem de apresentá-lo respeitosamente para aqueles que não o conheciam. Fizemos em Campinas, há alguns dias, e a comunicação com o público foi muito forte.

Você se sente mais perto do Luther King?

Não sei se mais perto dele ou se mais perto das palavras dele. É diferente: não é estar mais próximo do mito ou do herói, mas mais próximo da proposta da autora. As palavras de Luther King sempre me tocaram, mas a dramaturgia dela não tem um estilo único (começa com comédia e termina em um drama), o que a torna muito sofisticada e complexa. Até como intérprete é preciso entender aos poucos. De uma maneira jornal, parece ser a última noite na vida de Martin Luther King, mas, a cada encenação, vejo novas possibilidades. É, sim, a última noite de um homem que se vê diante da morte, também é a história de uma mulher que veio do povo que encontra um líder e contesta algumas de suas ideias, é sobre coragem para falar aquele discurso e, principalmente, usar o amor como arma e não o confronto, o radicalismo. É também sobre fé.

E como foi o saldo positivo?

As pessoas se sentem mais próximas do assunto. Era um valor que queríamos compartilhar. Esperávamos por essa reação, mas não tínhamos certeza. Vivemos em uma época marcada por muito radicalismo, por demonstrações de violência e, enquanto isso, nós estamos em cena falando de amor e afeto. Parece estar na contramão do que acontece. Mas é justamente isso, as pessoas querem um momento de acolhimento. Parece às vezes uma cerimônia religiosa. E, no final, quando vêm falar com a gente, as pessoas choram, falam sobre sua emoção e eu ouço, como um reverendo (risos). Mas é muito gratificante.

A peça faz parte de algum projeto maior?

Faz parte de um processo de compreensão. Fui criado em duas matrizes teatrais. Comecei minha carreira no bando de teatro grupo Olodum, popular e político, que falava de moradia, preconceito. Depois, fiz espetáculo com João Falcão, que tem uma ludicidade, uma proposta de beleza e jogo teatral, que me influenciou muito. A peça agora faz parte de um processo de aceitação e de que não preciso ser apenas um ator de comédia ou de drama. Durante um tempo, isso foi um conflito para mim, pois não sabia se me vendia como o Foguinho da novela ou o ator que fez Madame Satã e Cidade Baixa. Hoje, essa peça e as outras atividades que faço fazem parte de um processo de amadurecimento - apesar de querer debater assuntos sociais e políticos importantes, minha função como artista também pode incluir uma carpintaria de sedução. Mister Braun é assim: fala de autoestima mas tem uma beleza plástica deslumbrante; é bem humorado mas trata de assuntos políticos. Tudo faz parte de um processo que chega no Luther King e nos meus próximos livros. Ah, tenho direito de encantar também, apesar de falar de assuntos que tocam em feridas...

E como estão os livros?

O infantil está pronto e vou lançá-lo pela editora Pallas, que também editou o anterior, O Caderno de Rimas de João. Deverá se chamar O Coelho que Queria Mais. E o para adulto é um trabalho que propus para a Objetiva em 2007. Cheguei a assinar o contrato, mas o original acabou não vingando. Quando houve a fusão da editora com a Companhia das Letras, o projeto foi recuperado e agora deverá ser lançado, em 2017. Decidi reescrever tudo, pois mudei de opinião sobre vários assuntos, e também descobri detalhes sobre minha origem e minha família. Não sei ao certo porque o original ficou parado tanto tempo, mas existe uma voz oficial que conta a história da humanidade. Assim, nesse processo pessoal de encontrar meu lugar na sociedade, percebi que o livro, no qual falo de onde veio, traz como assunto algo tão específico que não foi compreendido pelas pessoas que inicialmente leram. Revelo, por exemplo, que minha família vem de uma ilha pequenininha, com apenas 200 habitantes que só se atravessa de canoa. É algo muito específico e não oficial. Ao reler, percebi que há uma frase repetida três vezes. É a seguinte: “Quero que você, leitor, saiba que essa é uma história livre e prisioneira de onde sou”. Parece até um aviso. Só não sei se vou manter o título original, Seu Lugar é Onde Você Sonhar Estar.

Você gosta de escrever, não?

Sempre gostei, mas tenho muita vergonha. Não sei como vai ser a recepção. Eu me sinto mais exposto escrevendo que atuando. Tenho uma pasta com muitos escritos, mas que mantenho guardada. Não pareço, trabalho com humor, mas sou uma pessoa muito angustiada e medrosa. Meus primeiros textos são muito vomitados, sinceros demais. 

E o filme que você vem preparando há alguns anos?

Trabalho há três anos, no momento, terminamos o primeiro tratamento. Quero fazer um filme popular - assim, vejo longas similares, como Intocáveis, que toca muito as pessoas. Parei agora a escrita e estou na pesquisa de longas assim. Trabalho com dois roteiristas e peço opinião para vários amigos.

O TOPO DA MONTANHA

Teatro Faap 

Rua Alagoas, 903. Tel.: 3662-7233. 6ª, 21h30. Sáb., 21h. Dom., 18h. R$ 70 / R$ 90. Até 4/9

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