JOÃO MARIA
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Lavínia Pannunzio faz 'Elizabeth Costello', profetisa do Nobel J. M. Coetzee

Escritora de renome, criada pelo autor sul-africano em seus romances, debate o perigo das ideias religiosas, a filosofia e a justiça dos animais

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 14h56

A surpresa que a atriz Lavínia Pannunzio teve, em 2016, com o espetáculo (A)polônia, foi apenas o início de uma viagem pela obra do Nobel de literatura e escritor J. M. Coetzee. Nesta quarta, 22, ela estreia no Teatro da USP, o solo Elizabeth Costello, a partir do romance do sul-africano. 

A ocasião da descoberta era a terceira edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), em 2016, e o diretor polonês Krzysztof Warlikowski encenava em (A)polônia uma saga de guerra baseada em textos clássicos, como fragmentos de Alceste, de Eurípedes, e Oresteia, de Ésquilo. “Era uma história sobre culpa, vingança e o desenvolvimento dos mitos na atualidade”, conta a atriz. No conjunto de textos contemporâneos que alimentavam a cena de Warlikowski estavam os pensamentos de Coetzee sobre o horror do Holocausto. “Vi que o diretor polonês já tinha montado peças com textos do Coetzee. Foi uma viagem sem fim, porque não conseguia mais largar seus livros”, diz a atriz. 

John Maxwell Coetzee é nascido na Cidade do Cabo, em 1940, e escreveu Elizabeth Costello no mesmo ano que foi contemplado no Nobel de literatura, 2003. A personagem é uma consagrada romancista inventada pelo escritor e que figura em outras de suas obras, como uma nascente, por onde fluem ideias do campo da filosofia, religião, literatura e, por que não, ativismo pelos direitos dos animais, objeto de debate em A Vida dos Animais (1999). “É importante para Elizabeth porque ela se envolve com essa causa em sua vida diária”, explica a atriz.

É o que o público verá. Uma personagem que, após uma carreira dedicada à escrita, já não consegue mais trabalhar como escritora e decide se recolher em uma região no interior da Espanha degradada. “Ela passa a cuidar dos gatos que vivem nas redondezas.” Esse carinho por felinos tem fundamento filosófico, conta Lavínia. “Há um entendimento histórico que vai dar na cultura cristã e em outros mitos sobre como os animais eram tratados.”

Em cada capítulo da obra, Costello expõe ideias a si mesma. Em Realismo, ela narra a viagem aos EUA com o filho para receber um prêmio. Em O Romance na África, ela descreve o futuro do gênero literário. Há também O Problema do Mal, sobre o Exército de Hitler e o assassinato de pessoas, cuja motivação é de assombro, ressalta a atriz. “Ela diz que os nazistas chegaram a visitar espaços de matadouros de animais para que se ‘inspirassem’ em aparatos de matança a seres humanos.”

De posse de uma obra “que renderia muitos outros espetáculos”, Lavínia conta que chegou a procurar dramaturgos para criar uma adaptação da obra, mas o encaminhamento dado pelos profissionais não lhe agradou. “A grande maioria queria iniciar algo, uma história a partir das próprias palavras e tendo a personagem como inspiração. Eu queria, desde o início, que apenas as palavras de Coetzee estivessem em cena.”

Insatisfeita, a solução foi considerar a natureza promíscua do teatro, ou seja, buscar parceiros fora das funções restritas: a direção e a adaptação são do ator Leonardo Ventura, com quem Lavínia trabalhou em Boca de Ouro (2017). “Quando organizamos os assuntos que seriam tratados, percebemos que faltou um espaço, um lugar para que Elizabeth estivesse diante do público”, conta Ventura. 

A imagem da escritora vivendo rodeada de gatos em uma casa no interior da Espanha preencheu a imaginação da dupla e forneceu à peça um espaço mais concreto. Sem condições de escrever, ela grava fitas com suas ideias. “Nas palavras de Coetzee, uma secretária do invisível”, diz a atriz. 

No entanto, a narração de Coetzee não se deixa dominar. “Sua escrita se rompe o tempo todo, seja por outro narrador que invade a situação, seja pelas mudanças repentinas na história”, aponta Ventura. E as transformações atingem episódios de delírio e imaginação. Em um dos capítulos, Elizabeth está diante de um portal e compreende que deve atravessá-lo. A condição é que ela faça uma declaração de fé para uma banca de juízes. “Aqui, Elizabeth tem oportunidade de criticar as raízes do cristianismo e sua influência conflituosa e de dominância no mundo”, aponta o diretor. 

Em um espetáculo com pouco mais de uma hora e com texto aprovado pelo autor, a peça já vem sendo divulgada tempos antes de sua estreia, lembra Lavínia. “Desde 2016, sempre dou de presente algum livro do Coetzee para amigos e familiares. A grande maioria não imaginava como eu ia fazer teatro com eles. Não deixa de ser uma formação de público.”

ELIZABETH COSTELLO. TEATRO DA USP. R. MARIA ANTÔNIA, 294. TEL.: 3123-5222. 4, 5ª, 6ª, SÁB., 21H, DOM., 18H. R$ 30 / R$ 15. ESTREIA 4ª (22). ATÉ 16/2

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