LENISE PINHEIRO
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Lavínia Pannunzio dirige 'A Serpente', sobre triângulo amoroso com irmãs

Última peça de Nelson Rodrigues é adeus vulgar do autor em cartaz no Teatro Artur Azevedo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 06h00

Há muito tempo, a atriz Lis Reis desejava encarnar a desiludida e mortal Lígia, irmã de Guida em A Serpente, peça curta escrita por Nelson Rodrigues em 1978.

Quando estrelou Camaradagem, sob direção de Eduardo Tolentino, com o Grupo Tapa, uma chance já havia se perdido. O diretor montara o texto rodriguiano em 1999, mas, mesmo assim, aconselhou a atriz a insistir na personagem-fetiche. “Acho que o fato de eu não ter irmã, mas cinco irmãos, me fez desejar interpretar essa jovem que faz um pacto de amor e morte com a irmã”, explica a atriz em cartaz no Teatro Artur Azevedo.

O convite para que Lavínia Pannunzio dirigisse a montagem veio a calhar para a também atriz que está em cartaz com Boca de Ouro, do mesmo autor. O espetáculo dirigido pelo mineiro Gabriel Villela teve temporada celebrada em São Paulo – a peça tem duas indicações para o Prêmio Shell –, mas, estranhamente, parece não ter agradado aos cariocas com a versão da gafieira, o berço do bicheiro conhecido como Drácula de Madureira, interpretado por Malvino Salvador. “A obra de Nelson sempre requer dedicação e um mergulho sem igual”, aponta Lavínia. “Quando soube que se tratava da sua última peça, topei sem medo. De alguma forma, em todas as suas obras, as personagens estão em uma trilha buscando o amor, mesmo que jamais encontrem, diante de tantos obstáculos, como a própria morte.”

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Em A Serpente, o ninho dessa família está a arder de desejos não satisfeitos. O pacto entre Lígia e Guida (Patricia Gordo) trata de aproximá-las cada vez mais da morte, o que leva a diretora a ambientar as ações diante de uma mesa fúnebre, que serve como sala de jantar e velório. “Elas já trazem consigo a viuvez e diante de um matrimônio infeliz flertam com a possibilidade de sanar todo o desejo com o suicídio”, afirma a diretora. 

Nessa tragédia carioca, as irmãs se casaram no mesmo dia, mas Lígia conserva-se no desespero de não ter consumado o ato. Enquanto isso, o marido tem encontros regulares com a Negra das Ventas Triunfais, com quem exerce sua sexualidade livremente. O convite de Guida para que a irmã tenha relações com o cunhado acende a discussão familiar de ira e prazer. “São duas garotas que tiveram seus casamentos arranjados pelo pai e que vivem em um ambiente vigiado”, diz a diretora. A forma como Rodrigues assinala as insatisfações das personagem ecoa na casa e na montagem. “Guida tem um relacionamento silencioso e o sexo não lhe rende mais que alguns gemidos. No dia em que Lígia passa a ter conhecimento do sexo, ela grita, e grita mais alto que os gemidos da irmã. Essa descoberta muda a dinâmica de parceria entre elas.” 

Para Lis, a peça consegue denunciar o moralismo das relações e a desilusão do matrimônio. “Mesmo sendo acusado de ser conservador e reacionário, Nelson nos ajuda a deslocar o pensamento e a refletir sobre temas obscuros.” A diretora acrescenta que o texto vai na contramão de retratar apenas o sofrimento de mulheres que não foram amadas como desejavam, mas denuncia o formato opressor no qual estão inseridas. “É muito além de uma briguinha entre irmãs pela exclusividade de um homem. Elas se tornam vítimas quando a relação não oferece igualdade nos papéis de marido e mulher.”

A temporada gratuita do espetáculo se estende até maio, quando a peça passa a circular pelos teatros municipais, como o Cacilda Becker e o Alfredo Mesquita.

Texto carrega 'superstição' que já frustrou montagens

Em 1941, Nelson Rodrigues escreveu sua primeira peça sobre uma mulher oprimida pelo ciúme do marido. Em A Mulher Sem Pecado, Lídia é vigiada por Olegário que tenta de todo modo descobrir sua suposta infidelidade, o que inclui fingir uma paralisia. 

Ao encerrar sua obra dramatúrgica com A Serpente (1978), o autor completa um ciclo ao narrar a liberdade sexual de Décio, marido de Lígia, enquanto a mulher nem sequer foi deflorada na lua de mel. A peça escrita em um ato e que estreou em 1980 também carrega uma superstição na classe teatral que já frustrou algumas montagens. Se levar em conta a dificuldade atual dos produtores para levantar um espetáculo, a maldição de A Serpente vai ganhar coro. 

A SERPENTE. Teatro Artur Azevedo. Av. Paes de Barros, 955. Telefone: 2605-8007. 6ª e sáb., 21h.  Dom., 19h. Grátis. Até 22/4. 

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