Patrícia Lino
Patrícia Lino

'L, o Musical' preenche lacuna de representatividade na ficção brasileira

Para a atriz Elisa Lucinda, o amor lésbico é um 'tema em que a ficção brasileira ainda está defasada'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 06h00

Uma famosa autora de novelas, Ester Rios, festeja o sucesso de seu primeiro folhetim, que retrata o amor entre três mulheres. Ela compartilha a alegria com seis amigas, ao mesmo tempo em que se lembra, nostálgica, de Rute, o grande amor de sua vida. “Eis um tema em que a ficção brasileira ainda está defasada ao apresentar uma representatividade falha da vida lésbica e gay”, comenta a atriz e escritora Elisa Lucinda, que vive Ester em L, o Musical, que estreia no sábado, dia 6, no CCBB, depois de arrancar aplausos no Rio e em Brasília.

Escrito e dirigido por Sérgio Maggio, o espetáculo evoca um clássico alemão dos anos 1980, As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, sobre o amor entre duas mulheres que Rainer Werner Fassbinder escreveu para o palco e o cinema – no Brasil, foi encenada por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah. Uma referência afetiva, comenta o encenador, que ambicionou criar uma dramaturgia mobilizadora.

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Maggio, de fato, foi além ao acrescentar um detalhe precioso: todas as intérpretes são negras, mas nem por isso há a necessidade de a peça propor a discussão do preconceito racial. “Os corpos de Elisa e Ellen (Oléria, que vive Rute) no palco trazem em si um poderoso discurso político mobilizador.” Esse ‘pretagonismo’, como batizou Elisa, “abala o racismo estrutural, que naturalizou a não presença de atrizes negras no centro do palco em personagens vitais para a trama”, esclarece Maggio.

De fato, Elisa se preocupa com essa visibilidade embaçada sobre os negros. Segundo ela, o preconceito cega e atribui qualidades erradas a esses personagens. “Propomos, aqui, uma libertação aos hipócritas. A dramaturgia toca em pontos fortes sem ser panfletária – apenas pregando a alegria. Como atriz, enfrento um desafio ao representar, pela primeira vez, uma lésbica, um papel especialmente escrito para mim.”

Mesmo assim, garante, não há protagonismo entre ela e as demais atrizes (Renata Celidonio, Gabriela Correa, Tainá Baldez e Luiza Guimarães, além de Ellen). “Todos os papéis são importantes, pois trazem anseios diversos dessas mulheres”, conta ela, que se inspirou em uma amiga capixaba para criar sua personagem.

Como se trata de um musical, a escolha das canções teve de ser criteriosa e, para isso, Maggio pesquisou em grupos virtuais de mulheres lésbicas. Na primeira fornada, surgiram 90 temas. Em seguida, com o auxílio de Ellen Oléria e a supervisão de Luís Filipe de Lima (também diretor musical), a lista finalizou com 22 músicas de artistas diversas, como Simone, Adriana Calcanhotto, Márcia Castro, Cássia Eller, Mart’nália, Isabella Taviani, Maria Gadú, Leci Brandão, Sandra de Sá, Angela Ro Ro, Marina Lima, Maria Bethânia, entre outras cantoras que se declararam publicamente lésbicas ou bissexuais, ou que têm uma identificação afetiva com esse público.

A conexão com o público foi imediata, a se julgar pela reação das plateias de Brasília (onde o musical foi visto por mais de 4,5 mil espectadores) e Rio. “É uma história que quer ser ouvida”, atesta Lucinda. 

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