Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos estreiam peça sobre perseguição a gays em Uganda

'O Jornal' narra a vida de três irmãos que após a morte do pai precisam segui com a vida, os sonhos e os desejos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Não é fácil descrever o efeito que o periódico Rolling Stone causou em Uganda quando, em 2010, divulgou nomes, endereços e fotos de 100 cidadãos considerados LGBTs. Sob o título ‘Enforque-os!’, a região de Kampala se tornou palco de agressões e assassinatos. Em 2006, o tabloide Red Pepper já havia feito o mesmo. 

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Em O Jornal, texto do britânico Chris Urch, que estreia no Sesc Santo Amaro, esse debate deixa as redações jornalísticas, ou os protestos nas ruas, para adentrar a vida de uma família e os púlpitos de uma igreja. Com direção de Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas, o espetáculo retrata a jornada de três irmãos que, com a morte do pai, precisam seguir a vida, os sonhos e o futuro.

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Enquanto Joe (André Luiz Miranda) quer se tornar pastor, os mais novos Dembe (Danilo Ferreira) e Wummie (Indira Nascimento) estudam medicina. Dembe se apaixona por Sam (Marcos Guian), um rapaz irlandês, e precisa enfrentar as consequências de seu amor num país que trata tais casos com castração química. 

“Há relatos de pais que entregaram seus filhos para serem presos e penalizados”, conta Mascarenhas. Ramos afirma que a peça é um alerta ao comentar a lei da época que ainda previa a prisão por conspiração de pessoas não LGBT. “Em Uganda, existia essa lei, portanto, não podíamos deixar esse texto passar.” Ele compara a montagem a O Topo da Montanha, peça que estrelou ao lado da mulher Taís Araújo sobre o último dia de vida do pastor e ativista Martin Luther King. “É um texto que consegue, com uma carpintaria sofisticada, falar de assuntos delicados. A peça fala do teatro do mundo, que acolhe, provoca e entretém. Além de oferecer uma alternativa a essas questões, não se trata apenas de uma denúncia.” 

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Para Mascarenhas, a montagem flerta com o gênero trágico, uma vez que, apesar das reviravoltas, os personagens não conseguem fugir de seus destinos. “É a história de jovens que estão amadurecendo, já que não têm mais os pais por perto. Os sonhos e desejos entram em conflito com a fé. Eles foram criados em uma religião e a falta de respostas passa a embaralhar suas jornadas. Nesse momento, é preciso descobrir uma nova forma de existir.” 

A despeito da gravidade dos crimes e da distância geográfica, Ramos afirma que Brasil e Uganda andam bem próximos. “Vemos muitas expressões de intolerância com a comunidade gay, aqui. Precisamos entender que não é preciso chegar na barbárie para compreender que é possível conviver com as diferentes condições sexuais.” 

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A montagem, que estreou no Rio no ano passado e ficou quatro meses em cartaz – número surpreendente para a média da cidade, na qual as produções não enchem a casa por mais de um mês –, movimentou a cidade e o Brasil quando os diretores decidiram abrir inscrições para selecionar o elenco de seis atores. O número de 5 mil interessados surpreendeu a dupla. “Conseguimos uma parceria com o departamento de pesquisa de elenco da Rede Globo para conhecer esses artistas”, diz Mascarenhas. 

Do todo, foram escolhidos 700 e depois 7o. Por dois meses, os diretores realizaram uma oficina, de segunda a sexta, para enfim chegar no sexteto, completo por Heloísa Jorge e Marcella Gobatti. “Foi um processo lindo e revelou que ainda temos muitos talentos a serem mostrados. Fazer isso com a Globo foi interessante por revelar a construção de um projeto teatral possível com o apoio da emissora”, conta Ramos.

Para a dupla que colhe o sucesso da série Mister Brau – em abril, chega a 4ª temporada –, a parceria construída entre Mascarenhas e o casal Ramos-Araújo ainda vai dar muitos frutos, conta Mascarenhas. “Desde que a série começou em 2015, nos tornamos uma família. Eles são muito afetuosos. Estar à frente de Mister Brau fez deles grandes agregadores e amigos. Não é raro passarmos férias juntos”, afirma Mascarenhas. Isso quer dizer que ter a dupla de diretores no palco não deve demorar. “Posso dizer que temos vontade, agora é preciso encontrar um texto que responda a esse desejo.”

O JORNAL. Sesc Santo Amaro. R. Amador Bueno, 505. Tel.: 5541-4000. 6ª, 21h, sáb., 20h, dom., 19h. R$ 30. Até 15/4.

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