Javier Drolas se divide entre Buenos Aires e peça de Felipe Hirsch

Ator portenho integra o elenco de 'A Tragédia Latino-Americana'

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2016 | 03h00

Do lado de fora do Sesc Consolação, uma pilha de carros amontoados no trânsito espremiam suas buzinas, em plena sexta-feira, no horário de pico. Do lado de dentro, isolada pelas portas de vidro que dão acesso ao Teatro Anchieta, a tranquilidade do ator portenho Javier Drolas gritava sua indiferença face a desordem e caos diários de São Paulo. 

Dali a poucas horas ele subiria no palco para anunciar “Algo horrible, caballeros. O vazio e o medo”. La Poesía LatinoAmericana seria recitada para retalhar a alma dos nascidos sob o sol do terceiro mundo, em versos como: “Pobres e fracos, são os nossos poetas, Quem melhor para dramatizar essa contingência. Pobres e fracos, nem europeus, nem americanos, pateticamente cultos e pateticamente orgulhosos”. 

O texto do escritor chileno Roberto Bolaño é um de uma grande lista que inspira o espetáculo A Tragédia Latino-Americana. Antes de sua estreia, no dia 4 de abril, o ator já percorria mensalmente o trecho São Paulo-Buenos Aires, e vice-versa para os ensaios que chegavam a durar cerca de 15 horas.

Apesar da intensa rotina, Drolas preserva, aos 44 anos completados na última segunda, a calma e o ânimo característicos de quem mantém tudo sob controle. Bem, nem sempre foi assim. Formado em artes plásticas, ele confessa que um dia se cansou da profissão. “Comecei fazendo desenhos para projetos e cheguei a trabalhar como designer de joias.” O teatro veio mais tarde, aos 28, 29 anos, quando ele passou por um espaço cultural que oferecia cursos de artes cênicas – a estreia profissional foi em O Balcão, de Jean Genet.

A carreira no cinema correu em paralelo na Argentina, até que numa grande ‘medianera’ foi aberta uma pequenina janela que dava vista para o Brasil. Em 2001, o filme Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado. O longa explorava os desencontros do amor na metrópole portenha, protagonizado por Javier, no papel de um webdesigner e Pilar López de Ayala, como uma jovem vitrinista. 

Mas ainda não era hora de pisar nos palcos brasileiros. No mesmo ano em que a MTV chegou ao fim, o diretor de A Tragédia Latino-Americana fez uma escolha equivocada. Com o elenco de A Menina Sem Qualidades completo, Hirsch mudou de ideia e precisou substituir o ator que interpretava o personagem de Tristán, o professor de espanhol, que então foi dado a Drolas. “Foi um ótimo casamento entre eu e o Felipe. No início das gravações, ele passava algumas orientações sobre deslocamentos de câmera, mas depois a gente quase não conversava, exceto quando ele aconselhava: não faça isso, ou faça isso mais”, diz o ator sobre cenas que contracenou com Bianca Comparato. 

O que Drolas não sabia era que boa parte do elenco com o qual dividiu o set na série seguiria para a equipe de A Tragédia Latino Americana, entre eles os atores Georgette Fadel e Danilo Grangheia e a codiretora Isabel Teixeira. Ao longo da construção da montagem, ele se juntou a nomes como Caco Ciocler, Guilherme Weber, Magali Biff e a atriz chilena Manuela Martelli. “Tem gente de todo lugar. Acho que os atores são como cores e se espera de nós uma variedade de tons e temperaturas. Na América Latina o espanhol é uma textura que rodeia o Brasil.” 

Para ele, estar rodeado não é nenhum problema. Ainda mais transitando por São Paulo. “Gosto muito do centro da cidade, dessas partes meio sórdidas como as estações de trem”. Se pudesse escolher um lugar específico na capital, Drolas diria a Rua Santa Efigênia ou quem sabe a 25 de Março. “São muitas lojas, pessoas comprando e vendedores gritando. Há algo que me atrai.” Quanto ao risco de assaltos, ele não teme. “É igual em Buenos Aires.” E é para lá que ele vai retornar. No fim de cada maratona de apresentações, o ator embarca na segunda-feira para a capital portenha. 

Em maio, Drolas começa a gravação de um filme que retrata a vida de Gilda (1961-1996), uma famosa cantora de cumbia que morreu em um trágico acidente de trânsito. “Fico indo e voltando, é cansativo”, revela Drolas. Mas não deixa de acrescenta que há um bom motivo para voltar para casa. Há 1 ano e nove meses nasceu sua primeira filha”. Tenho muita saudades dela. É a parte mais dura de tudo isso”, completa o pai. Então amanhã será um dia feliz. Boa viagem.

A TRAGÉDIA LATINO-AMERICANA. Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. 5ª,6ª, sáb., 19h30; Dom., 18h. Até 17/4. R$ 12 / R$ 40.

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