Laura del Rey/Divulgação
Laura del Rey/Divulgação

'Jacqueline' aborda trajetória trágica da violoncelista Jacqueline Du Pré

Dramaturgia da peça busca assemelhar-se à música

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

14 Dezembro 2016 | 04h00

A vida de Jacqueline Du Pré se presta naturalmente ao teatro. Não são precisos muitos adendos ou doses de ficção para que a história da violoncelista tome a forma de drama. Musicista prodígio, era dona de um talento assombroso. Ao lado do maestro Daniel Barenboim, formou o mais famoso e celebrado casal da música nos anos 1970. Rodou o mundo, tocou nas maiores salas de concerto, recebeu o reconhecimento dos grandes mestres. Tudo, entretanto, ruiu quando tinha 28 anos: ao receber o diagnóstico de uma esclerose múltipla, retirou-se dos palcos e perdeu, gradativamente, todos os movimentos do corpo.

Rafael Gomes, autor e diretor de Jacqueline, atualmente em cartaz no Sesc Consolação, não foi o primeiro a perceber o potencial dramático dessa biografia. No início dos anos 1980, ainda antes da morte da artista, que ocorreu em 1987, o inglês Tom Kempinski criou Dueto para Um, na qual a violoncelista aparecia em fictícios encontros com um psicanalista. A obra passou pelo West End londrino e pela Broadway. Chegou ao cinema com Julie Andrews. Aqui, mais recentemente, mereceu montagem em 2010, com Bel Kowarick no papel de protagonista.

Mas o caminho escolhido por Gomes difere desse já percorrido. Não se apoia estritamente no sofrimento de Du Pré – ou na suposição de qual seria esse sofrimento. Antes, olha para a estreita relação que ela mantinha com sua irmã, apresentada como seu duplo. A abordagem é fértil para a montagem. Noção que atravessa a literatura, a fantástica e assustadora experiência de se ver refletido em outro já foi explorada por escritores de muitas épocas e estilos: podemos pensar em reverberações do duplo em Oscar Wilde, Dostoievski, Edgar Allan Poe, Ricardo Piglia e, o exemplo mais famoso, em Robert Louis Stevenson com O Médico e o Monstro.

Na peça, Jacqueline (Natália Lage) e Hilary (Arieta Corrêa) Du Pré surgem como esses seres complementares. Aproximaram-se pela devoção à música – Hilary era flautista – e, sobretudo, pela compreensão da agudeza de seu vínculo e dos reflexos dessa indissociação. O estupor de uma poderia ser contrabalançado pelo equilíbrio da outra, assim como a virtuose encontrava seu contraponto na simplicidade. Nesse sentido, o texto de Gomes cresce ao contemplar questões do feminino que ultrapassam a trajetória estrita da violoncelista, como se flagrasse um embate entre talento, desejo, angústia e maternidade.

Um encontro ocorrido após a morte de Du Pré – entre a irmã e seu marido – abre a trama. A partir daí, apartes vão sendo feitos e os episódios, apresentados sem rigidez temporal, vêm dar conta de dados biográficos – a infância, os laços conjugais, as cobranças familiares, a formação. Como não poderia deixar de ser, a música está entre os temas abordados. A frequente associação entre Jacqueline e o compositor Edward Elgar, em particular o seu Concerto para o Violoncelo, surge em diversas ocasiões ao longo da peça. Mas a dramaturgia busca, em essência, plasmar o universo musical não apenas como assunto, mas em sua construção, com uma forma que evoca movimentos e andamentos.

O cenário de André Cortez reitera o esquematismo dessa estrutura, mas também tem o mérito de justificá-lo. Um constructo de madeira quadrangular, disposto no meio do palco, transforma-se em portas, janelas, lápides, conforme é manipulado pelos intérpretes. Uma manipulação que segue o ritmo do drama, merecendo mais ou menos ímpeto de acordo com o ritmo das ações que se desenrolam.

É por um apego, talvez excessivo, a lugares-comuns que o texto esmorece. Há bordões que se repetem ao longo do espetáculo – sem um propósito claro. E um apelo sentimental na construção dos diálogos, opção que reforça uma dramaticidade já inerente à história contada. As citações e referências convocadas também parecem dizer mais ao autor do que ao espectador. Trechos de peças de Chekhov e evocações de Virginia Woolf soam, não raro, fora de lugar.

Desiguais, as interpretações trabalham ora contra, ora a favor dessas debilidades, podendo tanto amainá-las quanto torná-las mais evidentes. Natália Lage não encontra um ponto de equilíbrio para sua atuação. E mesmo no seu melhor (a atriz tem bons momentos) não é possível compreender a dor e o encanto extremos retratados. Arieta Corrêa se coloca com mais propriedade, sabe trabalhar as gradações da personagem e alcançando, por isso, doses mais precisas para seu desamparo e sua força.

JACQUELINE

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 40 / R$ 20. Até 18/12. De 6/1 a 29/1

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