Hardy Richter
Hardy Richter

Ismael Ivo ganhou os palcos do mundo com coragem e talento

Bailarino e coreógrafo morto nesta quinta-feira, 8, aos 66 anos, vítima da covid-19, foi um dos grandes nomes da dança brasileira

Fernanda Perniciotti, Especial para o Estadão

09 de abril de 2021 | 17h04

“No Brasil, vivemos em constante estado de reinvenção. Tenho o espírito antropófago que não utiliza informações sedimentadas, porque me mantenho em uma transformação permanente. Com toda a minha experiência, para todo o sempre, sou Macunaíma”, dizia, em 2011, Ismael Ivo, um dos grandes nomes da dança brasileira, que morreu na quinta, 8, aos 66 anos, por complicações decorrentes de uma infecção por covid-19. Em sua homenagem, o governo de São Paulo anunciou o lançamento da SP Escola de Dança Ismael Ivo, que terá cursos a partir de 2022.

Chamado pela crítica na Alemanha como o Nijinsky negro, Ivo nasceu no bairro de Vila Ema, na zona leste de São Paulo. A arte chega em sua vida a partir das aulas com Ruth Rachou, bailarina, professora e coreógrafa, pioneira da dança moderna no Brasil, passando também por Renée Gumiel e Klauss Vianna. Foi no Teatro de Dança Galpão que Ivo inicia os primeiros passos profissionais, porém, os grandes saltos de sua história aconteceram na Bahia, em Salvador. Primeiro, em 1979, momento em que venceu o Concurso Nacional de Dança. E, depois, o passo decisivo, quando teve sua vida transformada por Alvin Ailey, coreógrafo e diretor afro-americano, que o viu dançar Rito do Corpo em Lua, nas Oficinas Nacionais de Dança Contemporânea, coordenadas por Dulce Aquino, na UFBA, em 1983. 

“Ele me chamava de madrinha, porque dizia que foram as Oficinas que projetaram sua carreira. A figura dele, fisicamente, era muito forte. O que mais recordo do Ismael é a atenção diante do mundo. Dava a sensação de ele estar sempre atento, vivo, percebendo e captando as oportunidades. Precisa ter coragem para fazer tudo isso, não é só talento. Ismael tinha coragem de se expor ao mundo”, conta Dulce Aquino, com a voz embargada. 

A paixão de Ailey pela figura de Ivo foi à primeira vista, e logo veio um convite para que estudasse em sua escola e participasse da companhia júnior, em Nova York. Já em 1984, ele recebeu uma crítica no jornal The New York Times, em que o destaque foi direcionado à “intensidade” de sua atuação no palco. Não se pode esquecer a força que, entre os anos 1980 e 1990, poderia ter um gigante negro (1,83m) no centro de um palco pouco povoado pelo que se chamava, à ocasião e hoje já se sabe, erroneamente, de “minorias étnicas”, em uma sociedade marcada pelo racismo.

Ainda no fim dos anos 1980, uma mudança de Nova York para a Áustria trouxe outra novidade: sucesso como diretor de festivais e teatros. Ao lado do produtor e diretor Karl Regensburger, criou o ImPulsTanz, considerado por anos o maior festival da Europa, o que lhe rendeu o prêmio Golden Cross of Merit of Vienna, uma das maiores honrarias da cidade austríaca. Dirigiu ainda o Teatro Nacional Alemão de Weimar e foi o mais longínquo dos diretores da Bienal de Dança de Veneza, tendo mantido o cargo por sete anos consecutivos. Foi lá que, em uma parceria entre a Bienal de Veneza, o Sesc São Paulo e a SP Escola de Teatro, Ivo desenvolveu o projeto Biblioteca do Corpo, em que selecionava jovens artistas brasileiros para um intercâmbio internacional. 

Ismael Ivo teve uma longa lista de colaborações, mas foi com a brasileira Marcia Haydée, conhecida como a grande musa do Ballet Stuttgart, que ele estabeleceu uma parceria mais duradoura, com criações em dupla e também solos para a bailarina. 

Além de ter sido o primeiro diretor negro do Balé da Cidade de São Paulo, a volta de Ivo ao Brasil foi marcada pela atuação em projetos sociais e ações como o Programa de Qualificação em Artes, voltado a grupos jovens dos municípios paulistas. Em 2020, porém, integrantes do Balé da Cidade encaminharam denúncias de assédio moral contra ele, que foi demitido pouco tempo após as acusações. 

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