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Instalação leva público a passeio interativo no Sesc Avenida Paulista

‘frequência_ausente’ cria ficção que investiga sumiço de um ator

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2019 | 03h00

O desaparecimento de um ator bem no dia de sua estreia é o ponto de partida de uma experiência multimídia chamada frequência_ausente.doc, instalação interativa em cartaz no Sesc Avenida Paulista

A narrativa criada pela ExCompanhia une ficção e realidade com o uso de dispositivos multimídia em uma dramaturgia site specific, termo relacionado às obras concebidas de acordo com o ambiente e suas estruturas, nesse caso, os diversos andares do prédio que abriga a unidade do Sesc.

Na história, o público fica sabendo que há um ano, um ator desapareceu no mesmo dia em que iria estrear um monólogo, naquele mesmo espaço. Em cada andar, existem locais, objetos e uma exposição que reúnem e revelam os rastros de sua passagem por ali, e também de seu sumiço, por razões ainda não solucionadas, explica Bernardo Galegale, da ExCompanhia. “Logo ao chegar, o público tem acesso ao celular desse ator, com informações preciosas sobre seu desaparecimento.”

De posse do celular, a pessoa deve seguir as instruções dadas e tentar reconstituir os últimos momentos do intérprete ausente. Nos arquivos do objeto estão armazenados imagens, vídeos, áudios e até a lista de convidados da estreia que nunca aconteceu. “Estamos tentando resgatar a memória de um sujeito a partir dessas informações contidas em seu celular”, explica Galegale. “O hábito de criar e gerar memória é algo comum na vida de qualquer um que possua um celular. Nesse caso as fotos, vídeos e outros formatos servem como rastro digital.”

Também é possível acessar informações por meio do QR Code espalhado pelo prédio da unidade. “A ideia é que a pessoa não fique apenas focada no celular, mas que aproveite para construir uma experiência tanto digital quanto ligada ao espaço”, conta Galegale. Por isso, é preciso ficar atento à ambiência do Sesc e qualquer detalhe pode servir como pista, desde bilhetes escritos à mão, livros deixados pelo edifício, imagens nas TV’s institucionais e registros das câmeras de segurança. 

Existe ainda um aspecto poético sobre a obra, acrescenta o integrante do grupo, sobre a condição do artista e de seu espaço na sociedade. “Estamos falando de um ator que desapareceu, quando deveria estar lá para seu público. Trata-se de uma vocação interligada, do artista e de seu público, que compartilham a existência de uma obra”, justifica. Para ele, essa itinerância que é feita individualmente, acentua uma sensação experimentada pelo ator, expressa em seus arquivos e rastros. “A solidão vivenciada por ele é transferida aos participantes, que são também o personagem central da instalação, fazendo com que seja possível se colocarem no ‘lugar do outro’.

Esse tipo de itinerância concebida na obra já foi experimentada na versão anterior do grupo Frequência Ausente 19Hz, que tinha como protagonista o espaço público. “Nesse projeto, queríamos utilizar monumentos e pontos históricos da cidade como geradores de memória, acessível ao público”, conta Galegale. Na nova forma, a memória do indivíduo e do espaço são friccionados, sustentando a oportunidade de interação do público.

Seguindo a mesma investigação, o grupo também lançou em 2017 O Enigma Voynich, um aplicativo disponível para celular com dramaturgia em áudio 3D organizado por episódios. Na história, o audioespectador acompanha, em primeira pessoa, a história de José, e o segredo do Manuscrito Voynich, um documento misterioso com mais de 600 anos.

FREQUÊNCIA_AUSENTE.DOC. Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119. Tel.: 3170-0800. 5ª, 6ª, sáb., 14h às 17h. Sessões a cada 10 minutos. Grátis. Até 16/3.

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