Fernando Young
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Inspirada na peça ‘O Jardim das Cerejeiras’, série em quatro episódios disseca obra de Chekhov

'Um Jardim para Chekhov' ganharia os palcos em 2021, com dramaturgia de Pedro Brício

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

21 de abril de 2021 | 05h00

Em meio a tantas opções, uma proposta diferente disputa a atenção dos que cumprem a maratona do teatro digital. O projeto A Caminho do Jardim para Chekhov, série em quatro episódios que vai ao ar entre os dias 21 e 24 pelo YouTube (com sessões às 10h, 15h, 19h e 23h), desvenda a criação do espetáculo Um Jardim para Chekhov, que ganharia os palcos em 2021. Trata-se de uma dramaturgia original de Pedro Brício inspirada na peça O Jardim das Cerejeiras, do russo Anton Chekhov (1860-1904), tendo a atriz Maria Padilha no papel principal, sob a direção de Jefferson Miranda. “A gente pensou no que seria possível realizar para manter viva a nossa pesquisa em um período em que o artista se viu carente do seu ofício”, afirma Padilha, que também responde pela produção. 

Encenado pela primeira vez em 1904, O Jardim das Cerejeiras enfoca uma decadente família da aristocracia russa prestes a vender a propriedade rural em que usufruiu de uma vida de conforto e apego às tradições. A protagonista, Liuba Andrêievna, falida e emocionalmente instável, resiste em abandonar hábitos esbanjadores e reconhecer que o dinheiro mudou para as mãos de emergentes. Em Um Jardim para Chekhov, a peça de Brício, a personagem central é Maria Alma, célebre atriz, que conheceu a glória nos palcos e se vê diante de uma crise financeira e artística. É obrigada a vender seu casarão, em Santa Teresa, e morar em um apartamento no bairro de Botafogo, ao lado da filha médica, do genro policial e de uma empregada (interpretados respectivamente por Olívia Torres, Otto Jr. e Laís Vieira).

Diante do choque de realidade, Maria Alma mergulha em um delírio e acredita que sua salvação é alavancar uma montagem de O Jardim das Cerejeiras, nem que seja no pátio do condomínio. “Chekhov trata das coisas pequenas de uma forma imensa, assim como aborda as grandes transformações sociais, então propus ao Pedro um novo texto a partir de referências desse clássico, algo que é recorrente no teatro europeu e raro no Brasil”, conta Padilha, que, em 1999, fez As Três Irmãs, do mesmo Chekhov, ao lado de Julia Lemmertz e Claudia Abreu, dirigida por Enrique Diaz. 

Os episódios de A Caminho do Jardim para Chekhov mostram que os artistas trabalham – e bastante – antes de ouvirem as palmas da plateia. É muito esforço e malhação intelectual até encontrar a unidade. São reveladas as leituras do texto, as discussões em torno dos personagens e a troca com colegas e especialistas. O primeiro vídeo, A Caminho de Chekhov, programado para o dia 21, disseca a biografia e a obra do dramaturgo com a presença de três teóricos, a diretora Celina Sodré, o historiador Francisco Vieira e o ator e tradutor Vadim Nikitin. Nos dias 22 e 23, em Sobre Flores e Sementes, a atriz Camila Amado, o delegado de polícia Orlando Zaccone, a médica Isadora Id Limongelli e a diarista Mary Pintto falam de suas experiências profissionais relacionadas ao ofício dos personagens. Por fim, em À Sombra de uma Cerejeira, no dia 24, o elenco apresenta a leitura das cenas, seguida de depoimentos dos atores Alcemar Vieira e Leonardo Medeiros, convidados para a conversa. “É tudo próximo ao que a gente faz quando ensaia e as pessoas vão entender o processo”, explica Brício. “Não tivemos a preocupação com um produto final porque o importante é a discussão, o que o público verá são nossas interações através da reprodução da tela do Zoom.” 

Maria Padilha pretende estrear Um Jardim para Chekhov assim que o elenco estiver vacinado e, principalmente, a plateia segura para voltar aos teatros. “É um trabalho que precisa de quatro meses de ensaios presenciais, então acreditamos que só será possível começar em janeiro e estrear na metade de 2022”, prevê, confiante de que a imunização possa ser totalizada até dezembro. Para a atriz, não faz sentido queimar o projeto em temporadas remotas ou sessões com a capacidade da sala reduzida. “Sou de uma geração que faz teatro para casa cheia, se o público não comparecer porque a peça não despertou interesse é outra história, mas não podemos idealizar uma lotação máxima de vinte ou trinta espectadores.” 

Para compensar a falta do calor presencial, haverá debate no dia 24, depois da exibição do vídeo das 19h. Pedro Brício salienta que essas conversas podem ser mais gratificantes que a própria apresentação. Em outubro passado, ele roteirizou e dirigiu Cara Palavra, peça online com as atrizes Andréia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella e Mariana Ximenes, em torno da obra de poetas brasileiras. “Cada noite, recebíamos uma escritora para um papo com o público, parecia um sarau. Era como se, naquela hora, a gente ouvisse os aplausos”, compara Brício.

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