Elisa Mendes
Elisa Mendes

‘Insetos’ atesta vigor da Cia dos Atores, mas falta fôlego ao texto

Mesmo com mudanças, Cia. dos Atores chega aos 30 anos mantendo qualidade

Maria Eugênia Menezes, Especial para O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2018 | 06h00

Quando a realidade é absurda demais, apenas a fantasia pode fazer algum sentido. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, e A Metamorfose, de Franz Kafka, são alguns exemplos de como a literatura pode se valer de alegorias para representar situações nas quais um relato verossímil teria pouco a acrescentar. Insetos, espetáculo com o qual a carioca Cia dos Atores celebra seus 30 anos, utiliza expediente semelhante. Com o intuito de problematizar a atual crise brasileira, conta-se a história de um desequilíbrio natural que teria levado ao desaparecimento das abelhas. Tal ausência culmina com a ascensão de um ditatorial louva-a-deus ao poder e a consequente escravização de outras espécies, como baratas e formigas.

O texto é de Jô Bilac – autor profícuo da cena atual com quem a companhia já havia trabalhado em Conselho de Classe. Mas o grupo, acompanhado pelo diretor Rodrigo Portella, modificou a dramaturgia original, reforçando os laços com o contexto imediato, como a ocupação militar no Rio. A desconstrução dos textos é uma prática corrente da Cia dos Atores. Assim ocorreu em algumas de suas mais marcantes criações, como Ensaio. Hamlet, de 2004, e Gaivota – Tema para um Conto Curto, de 2006.

Em sua maneira debochada de tecer associações entre a ficção representada e a realidade, a montagem escapa de algumas armadilhas, garantindo ao espectador a prerrogativa de interpretar as metáforas conforme as próprias referências. É possível rir da tragédia nossa de cada dia: dos gafanhotos que agem como a burguesia endinheirada, enclausurando-se em espaços fora do caos urbano ou dos besouros que emprestam sua força a um aliado que não hesitará em destruí-los quando não mais se mostrarem úteis. Por esse prisma, as relações entre presas e predadores na natureza não diferem tanto assim da política.

Nos anos recentes, a formação do grupo se alterou: Drica Moraes e Enrique Diaz saíram para outros projetos, a diretora Bel Garcia morreu em decorrência de um câncer em 2015. Mesmo com as mudanças, características importantes foram conservadas. César Augusto, Marcelo Valle, Marcelo Olinto, Gustavo Gasparani e Suzana Ribeiro são egressos do núcleo original do grupo que estão no elenco da peça em cartaz até 20/8. A acertada dosagem entre o humor e o desencanto vem amparada por um não menos precioso trabalho físico. Ainda que não pretendam imitar um inseto ou outro, os atores mostram apuro em todo o gestual, pinçando apenas alguns traços característicos para suas composições. A opção não apenas amplia o efeito cômico como também abre perspectivas que podem transcender o texto escrito.

Formado por pneus velhos, o cenário ganha diferentes formas conforme a manipulação dos atores e o desenho de luz de Maneco Quinderé. A maneira de contar a história, dividida em 12 quadros, também traz bom ritmo e deixa algumas lacunas que podem ser interessantes às leituras do público.

A despeito de todas as qualidades da montagem e do alto rendimento dos atores, o espetáculo não consegue superar algumas limitações dessa fábula animal que abraçou. Fica a sensação de que há um salto que o texto não dá. A peça descortina um panorama reconhecível, mas não avança além desse território. É como se o autor nos acenasse com uma promessa que não se concretiza, como se mirasse de longe a crise que nos atravessa sem vasculhar as entranhas desse mal-estar.

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