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'Infância, Tiros e Plumas' põe em um voo traumas, desejos de vingança e injustiças

Espetáculo de Jô Bilac está em cartaz no Rio de Janeiro

Daniel Schenker - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2015 | 18h55

RIO - O início do processo de Infância, Tiros e Plumas foi doloroso. Não por causa de eventuais desavenças entre os integrantes da companhia OmondÉ, conduzida por Inez Viana, mas porque os atores trouxeram à tona vivências pessoais - muitas delas, dramáticas - ligadas à infâncias. A natureza biográfica serviu de ponto de partida para o dramaturgo Jô Bilac conceber um texto ficcional, escrito ao longo do período de ensaios, sobre três crianças que seguem para a Disney na primeira classe de um avião: Júnior, que viaja com os pais, Marín e Henrique, personagens que atravessam divórcio litigioso; Suzanita, garota mimada que voa ao lado de seu segurança Argos, que, devido ao medo de avião, se excede na bebida e externa violência; e Juanito, menino sequestrado e feito de mula pelos traficantes Pitil e Fernando. “Não estamos preparados para lidar nem conosco, quanto mais com uma criança. Por isso, todo mundo tem alguma história difícil na vida”, afirma Inez acerca do foco temático do espetáculo em cartaz no Sesc Ginástico, no Rio.

Sugerido pela OmondÉ, o universo da infância (ou, pelo menos, da juventude) é familiar a Jô Bilac, a julgar pelo premiado texto Conselho de Classe, ambientado numa escola marcada pela perda de valores éticos, pela relação arruinada entre professores e alunos. Mas as questões que Jô procura destacar em Infância, Tiros e Plumas não estão circunscritas a uma fase específica da vida. Realçam, isto sim, as prioridades do ser humano, principalmente num momento dominado pelo individualismo como o atual. “A primeira classe do avião simboliza o espaço em que todos desejam estar. É o lugar de privilégio, em que as pessoas se sentem especiais. Às vezes, nós nos esquecemos de que somos de carne e osso, de que nos encontramos no mesmo avião”, observa Jô.


Apesar de se debruçar sobre a realidade, o autor imprime uma atmosfera comicamente carregada que pode remeter à obra do cineasta Pedro Almodóvar. “Existe um pouco de Almodóvar, mas identifico mais um clima de Relatos Selvagens (2014), no que se refere à intolerância presente nos personagens”, opina Inez, mencionando o filme de Damián Szifrón composto por histórias curtas e independentes, tomadas por figuras desmedidas. No entanto, Jô Bilac evitou uma abordagem maniqueísta. Seus personagens possuem caráter duvidoso, mas não foram construídos como vilões. “Existe uma busca sincera de cada um pelo que acredita que seja bom. Ao contrário dos contos infantis, hoje se sabe que não há Messias nem demônio”, frisa Jô.

Sem previsão para desembarcar em São Paulo, Infância, Tiros e Plumas é a segunda parceria entre Jô Bilac e a OmondÉ. A primeira se deu com a montagem de Os Mamutes, texto do começo da carreira de Jô. “Quando o grupo decidiu encenar, atualizei as referências. Inseri a internet”, justifica Jô. Já essa peça foi pensada para a companhia. Vale lembrar que o autor criou outros textos durante os ensaios. “Escrevi Conselho de Classe e Beije Minha Lápide dessa forma”, conta. No decorrer do processo, os atores - Carolina Pismel, Debora Lamm, Iano Salomão, Jefferson Schroeder, Juliane Bodini, Junior Dantas, Leonardo Bricio, Luis Antonio Fortes e Zé Wendell - transitaram por todos os personagens. Coube a cada um escolher qual gostaria de interpretar.

Além das peças de Jô Bilac, a OmondÉ montou As Conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna, e Nem Mesmo Todo o Oceano, transposição cênica do livro de Alcione Araújo. Segundo Inez Viana, a encenação de textos brasileiros não é uma bandeira do grupo, e sim uma coincidência. “Queremos fazer Tudo Vai Bem Quando Termina Bem, de Shakespeare, mas não conseguimos patrocínio. Nem para A Vida É Sonho, de Calderón de la Barca”, revela Inez, que planeja levar para o palco um romance de Nelson Rodrigues, A Mentira, e apresentar todos os espetáculos do repertório do grupo em julho, quando a OmondÉ completa cinco anos de trajetória. Como diretora, Inez Viana vem investindo numa cena limpa, despojada, preenchida por poucos, mas expressivos, objetos, a exemplo dos painéis de As Conchambranças de Quaderna. “Normalmente, eu parto do palco nu. Insiro elementos de acordo com a necessidade”, confirma Inez, que, como atriz, atuou (e dirigiu, em parceria com Rita Clemente e Vinicius Arneiro) num texto de Jô Bilac, Fluxorama.

Do elenco de Infância, Tiros e Plumas, Leonardo Bricio e Debora Lamm foram influenciados pelos anos de formação no Tablado, de Maria Clara Machado. “Eu me sinto de lá até hoje”, garante Debora. Leonardo, também. E traça elos entre o Tablado e a OmondÉ, no que diz respeito à experiência de pertencer a uma companhia. “Nesse grupo, estou realizando o meu sonho tabladiano. As pessoas são diferentes umas das outras, mas nós resolvemos tudo bastante bem”, sublinha.

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