Barrington Stage Company
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Inédito na pandemia: sindicato de atores autoriza dois espetáculos, com testes

Actors' Equity, que representa 51 mil atores e diretores dos Estados Unidos, disse que deu sinal verde para dois espetáculos de verão na região de Berkshires, no oeste de Massachusetts

Michael Paulson, NYT

08 de julho de 2020 | 11h00

Pela primeira vez desde a erupção da pandemia de coronavírus, o Actors' Equity concordou em autorizar que alguns de seus membros se apresentem no palco.

O sindicato, que representa 51 mil atores e diretores de todo o país, disse que deu sinal verde para dois espetáculos de verão na região de Berkshires, no oeste de Massachusetts: uma produção ao ar livre do musical Godspell e uma produção em espaço fechado do solo Harry Clarke.

Nas últimas semanas, vários teatros com atores não sindicalizados começaram a retomar as apresentações - em alguns casos, ao ar livre, e em quase todos os casos, com distanciamento social. Um grupo de atores da Equity realizou uma performance ao ar livre no Vale do Hudson, em Nova York. E, é claro, muitos atores têm se apresentado online.

Mas Godspell e Harry Clarke, ambos programados para começar no início de agosto em Pittsfield, Massachusetts, provavelmente são as primeiras produções americanas nas quais os atores sindicalizados se apresentarão em pessoa, para um público pagante, desde que a ameaça de infecção levou a Broadway e os teatros regionais do país a fecharem as portas em meados de março. Alegando preocupações com a segurança, a Equity proibiu seus membros de realizar audições, ensaios e apresentações.



“Não estamos tentando impedir que as pessoas façam teatro, mas tentando impedir que as pessoas fiquem doentes e/ou morram”, disse Kate Shindle, presidente da Actors’ Equity. Ela caracterizou a decisão de autorizar essas duas produções como algo “muito animador, mas também algo a ser observado com muita atenção”.

“O fato de que haverá peças de teatro aprovadas pela Equity é uma coisa que eu realmente não tinha certeza de que poderia acontecer”, acrescentou.

Nas duas produções, artistas e diretores de palco farão teste periódicos para o coronavírus, e as pessoas da plateia terão de usar máscaras. A taxa de infecção no oeste de Massachusetts está baixa, e os dois teatros se dispuseram a atender aos requisitos de segurança do sindicato.

Mary McColl, diretora executiva do sindicato, disse que está conversando com cerca de 70 produtores de todo o país que estão tentando retomar as apresentações até o outono. Mas, disse ela, não há nenhuma outra aprovação no horizonte, porque, “enquanto estávamos trabalhando nos protocolos que seriam necessários, tudo começou a virar de cabeça para baixo em muitos desses estados. Não estamos controlando o vírus, muito menos os produtores”.

Godspell, um musical muito querido e encenado desde 1971, escrito por Stephen Schwartz e John-Michael Tebelak, deve ser montado pelo Berkshire Theatre Group ao longo de um mês, a partir de 6 de agosto. O musical, que foi adaptado do evangelho de Mateus e explora as parábolas bíblicas, terá um elenco de dez pessoas, liderado por Nicholas Edwards no papel de Jesus. A história se passa em 2020, durante a pandemia de coronavírus.

Kate Maguire, diretora artística e diretora executiva do Berkshire Theatre Group, disse que a produção, dirigida por Alan Filderman, seria realizada numa tenda montada em um estacionamento. Ela disse que a tenda terá cerca de 100 assentos com distanciamento social, muito menor que a capacidade de 700 assentos do palco principal.

O elenco ficará isolado numa casa e fará testes regulares de coronavírus, disse ela. E a produção, embora totalmente encenada com cenários e figurinos, não terá contato físico entre os atores - haverá até uma crucificação sem contato, disse ela.

“Nunca fizemos Godspell, mas foi o único espetáculo que pensei que poderia fazer sentido neste mundo”, disse Maguire. “Estou morrendo de vontade de ouvir  Save the People".

McColl disse que a aprovação para Godspell foi particularmente significativa porque o canto é considerado uma fonte potencial de transmissão de vírus. Ela disse que os atores ficarão distantes um do outro e cantarão um após o outro durante a produção.

Harry Clarke, solo escrito por David Cale, conta a história de um vigarista cativante, que será interpretado por Mark H. Dold, da Barrington Stage Company. A peça, programada para durar duas semanas a partir de 5 de agosto, será apresentada num teatro de 520 lugares. Para possibilitar o distanciamento social, apenas 163 pessoas poderão assistir a cada apresentação, e Dold se apresentará no fundo do palco, longe do público. A plateia será submetida a verificações de temperatura e terá de seguir as regras que estabelecem como entrar e sair do teatro, para reduzir as aglomerações.

A Barrington Stage diz que será uma experiência totalmente digital - sem entradas ou folhetos impressos. O teatro também reconfigurou seu sistema de ar condicionado para aumentar a circulação de ar fresco.

Tanto Maguire quanto Julianne Boyd, diretora artística da Barrington, disseram que não conseguiriam lidar com um verão sem apresentações ao vivo em Berkshires, uma região cuja economia depende fortemente do turismo cultural.

“Estou ciente da responsabilidade que assumimos - o Condado de Berkshire vem passando as últimas semanas bem saudável, e sei que precisamos manter as coisas assim”, disse Maguire. “Além disso, todo o meu instinto maternal está canalizado para esses atores. Mas senti que poderíamos fazer Godspell e garantir a segurança de todos”.

Boyd, que há dois meses vinha trabalhando para obter autorização, também estava determinada. Ela está planejando um cabaré ao ar livre em agosto e espera realizar várias outras performances em lugares fechados com um artista só.

“As pessoas precisam do teatro”, disse ela. “Vamos ser sinceros: a arte tem poderes de cura, e quero iniciar esse processo de cura com segurança e responsabilidade”.

Tradução de Renato Prelorentzou

 

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