Roberto Setton/Divulgação
Roberto Setton/Divulgação

Humor negro para vidas solitárias e sem rumo na peça 'Animais na Pista'

Montagem em que drama realista e comédia absurda estão em linhas cruzadas ou paralelas põe o amor em beco sem saída

Jefferson Del Rios , Especial para O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2015 | 03h00

A explosiva interpretação de Sabrina Greve põe às claras o caos emocional e a fragmentação dos diálogos que caracterizam Animais na Pista. Sua fúria e os elaborados pequenos gestos de Marta Nowill são o flash de uma geração sem rumo. 

O texto de Michelle Ferreira apresenta um universo fechado e pouco decifrável. A personagem de Sabrina, por ter verossimilhança maior, e a atriz ter força, oferece ao espectador alguma luz em abismos mentais. 

Em cena estão três pessoas descontroladas e um narrador ambíguo, das ideias à definição sexual. O quarteto é movido por impulsos ora histéricos, ora absurdos e engraçados, mas também sombrios. Humor negro para vidas sem rumo. Não há geografia precisa, um país ou cidade. Apenas o limbo mental em uma casa ou necrotério. O território da decadência. Gente que não sabe onde chegar nem para onde voltar. A autora domina com maestria os estilhaços verbais: frases curtas ou truncadas, xingamentos pesados, insinuações de desejo e morte que, também, podem não ser nada disso. Quase todo labirinto psíquico é um quebra-cabeça.

Alienados no sentido filosófico e social, eles querem sofregamente afeto, prazer imediato e alguma verdade, enquanto batem no muro da solidão. São duas mulheres na disputa por um homem quase abstrato. Mutilado em um acidente, o centro da discórdia pode ser macho predador, conquistador inseguro ou, enfim, visita inoportuna em pose vazia. Tanto faz, e já se ouviu muito esta conversa.

Peça e espetáculo em dado momento ficam reiterativos (não seria mau alguns cortes), mas Animais na Pista supera a mesmice porque Michelle Ferreira tem energia verbal, o elenco é convincente e a diretora Isabel Teixeira criou um espetáculo em que drama realista e comédia absurda (quem são eles mesmo?) estão em linhas cruzadas ou paralelas. Nada porém é gratuito numa provocação para o espectador perceber verdades, suas e dos outros. Questões ideológicas precisas estão fora dos acontecimentos. 

Os tipos humanos, embora vagos, são bem delineados ainda que de origens não explicadas (profissão, família, qualquer passado). Neste aspecto, a dramaturgia reflete o paradoxo da falsa comunicação exatamente pelo excesso de comunicação virtual (do amor à morte, tudo se resolve pavlovianamente em mensagens por celular). Michelle Ferreira faz arte a partir de um desafio atual à neurociência e aos estudos comportamentais. Se Isabel Teixeira conseguiu o melhor de Sabrina Greve, Marta Nowill, os papéis masculinos, por estranho que pareça, são fugidios ou menos nítidos, mas já que é assim, Gustavo Vaz e Lucas Brandão realizam bem a proposta. Além da direção-representação sólida, a montagem tem uma “imponência arruinada”, por assim dizer, graças à direção de arte e figurinos de Karlla Girotto, iluminação de Roberto Setton e a trilha sonora na hora certa de Aline Meyer. Assim, deste enredo que joga com o real e o falso, o cinismo e o obscuro (como o vago episódio de animais na pista), nasce um teatro que, sem ironia, pode ser definido com um clichê: experimental e instigante.

ANIMAIS NA PISTA

Centro Cultural São Paulo. Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. 6ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 20. Até 1º/3.

Tudo o que sabemos sobre:
Teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.