Kathryn D Studios
Kathryn D Studios

Histórias curtas de John Cage movem Paul Lazar em dueto virtual com Bebe Miller

O espetáculo realizado em formato especial para o festival teve ensaios com quatro câmeras durante um mês antes de ser filmado

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 05h00

Atingidos em cheio pela pandemia, não só os teatros ficaram vazios em 2020. Muitos festivais de artes cênicas no Brasil tiveram suas atividades interrompidas, uns no susto, outros pela duração da quarentena. 

Realizado sempre a partir de agosto, nos últimos anos, o Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília sentiu a ameaça da covid-19, mas não perdeu 2020 de vista: a edição da mostra vai reunir espetáculos em diferentes formatos entre os dias 1º e 11 de dezembro.

Uma reformulação que exigiu atenção de todos, artistas e festivais, para que a ausência do palco não fosse tão sentida, reflete o ator e roteirista Paul Lazar, que estreia o espetáculo Cage Shuffle: Um Dueto Digital, no dia 6, transmitido no site e no canal no YouTube do Cena Contemporânea. “Documentar uma peça em vídeo se tornou uma necessidade tão artisticamente sofisticada quanto qualquer outro elemento”, explica ao Estadão, por e-mail. “Um grande desafio é que o processo de captura em vídeo seria bastante primitivo e, portanto, a peça se perderia na tradução.”

O ‘dueto virtual’, com a bailarina e coreógrafa Bebe Miller é inspirado em histórias curtas do compositor, pioneiro na música eletroacústica e inventor de instrumentos não convencionais. Morto em 1992, John Cage deixou um legado especial para a dança, o teatro e a performance que redefiniu o corpo na cena, em episódios que desafiam o tempo de todos: da obra e do espectador. 



Há 19 anos, uma igreja na Alemanha iniciou a apresentação ininterrupta de órgão mais longa do mundo, com a canção As Slow as Possible (Tão Lentamente Quanto Possível), de Cage. Em setembro deste ano, o instrumento teve sua primeira troca de nota em sete anos - a anterior foi em 2013. A meta é chegar, fazendo som, em 2640. 

Chamado de “músico-poeta-pintor” por Augusto de Campos, Cage era combativo, mas também acompanhado da sorte, defende Lazar. “Ele denunciou Beethoven, evitou a psicanálise e foi um especialista em cogumelos”, lembra. “Mas era um estranho que teve sorte, um homem branco ‘bem-educado’. Então ele podia se mover facilmente, mesmo que não estivesse apegado a valores convencionais.”

O caos que atraía Cage tinha propósito. Devolver ao mundo um ponto de vista sobre a enorme existência. Em Cage Shuflle, as histórias narradas no espetáculo denunciam a normalidade diária. “Falam sobre o absurdo da chamada vida normal”, aponta Lazar. “Ele considerava essa conduta de vida convencional muito estranha.”

Na trajetória de Cage, antes de compor a chamada ‘música aleatória’, o artista perseguiu pistas nos estudos do budismo e da filosofia indiana. É de 1952 a famosa - e curiosa - composição de 4’33, executada por grandes orquestras em teatros de todo o mundo. Para se ter uma ideia da “poesia silenciosa” de Cage, vale a busca de concertos de 4’33 na internet. “Acredito que ele sentiu que o mundo natural tinha muito a ensinar”, intui Lazar. “Mesmo que as pessoas estivessem ignorando as lições da natureza.”

Com Bebe em cena, Lazar não deixa de romper barreiras porque foge ao óbvio, ao literal. “No dueto há uma relação adorável, surpreendente e não forçada entre o movimento e as histórias”, conta ele. O espetáculo realizado em formato especial para o festival teve ensaios com quatro câmeras durante um mês antes de ser filmado, uma recusa ao modelo de transmissão ao vivo feito durante a pandemia. “A performance na era da covid-19 ainda pode ter um pouco da energia crua de corpos vivos, coexistindo, mas a captura de vídeo tem que ser rigorosa e sofisticada ou a performance será perdida.” 


 

Programação

Entre os destaques do Cena Contemporânea, o grupo mexicano Lagartijas Tiradas al Sol estreia um espetáculo que traz no título um papo sobre a forma de se fazer teatro na pandemia. Cada vez que alguém diz isso não é teatro, se apaga uma estrela abre o festival com transmissão no site do Cena e no canal do YouTube. Outro grupo frequentador da mostra, que retorna ao festival, o espanhol Agrupación Señor Serrano lança ideias sobre imigração na Europa no espetáculo Birdie, a partir do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

Na programação, o Cena também traz espetáculos ao vivo. Hibridity (Hibridismo), da companhia de dança Cocoodance, cria uma fusão de movimentos do muay thai e passos do balé romântico. O espetáculo será transmitido da cidade de Bonn, na Alemanha, no dia 5, às 17h (horário de Brasília).

Entre as produções nacionais, os Clowns de Shakespeare refletem sobre o impacto da pandemia no fazer teatral e na América Latina em Clã_Destin@, uma peça virtual para seis pessoas por sessão.


 

3 perguntas para Paul Lazar, ator e roteirista


‘Cage Suffle’ fez temporadas antes de chegar na pandemia. Como a quarentena transformou a reedição do espetáculo?

Tive que descobrir como traduzir a energia ao vivo para uma audiência isolada, que olha para a tela do computador.


Como as ideias de Cage se fundem ao movimento do dueto? 

O movimento e as ideias de Cage são camadas separadas que não se relacionam necessariamente. Ele estava mais interessado em permitir que os elementos apenas coexistissem.

 

 

 Poderia dar um exemplo?

Quando compôs para Merce Cunningham (coreógrafo), eles esperavam o espetáculo para reunir música e dança. Os bailarinos nunca tinha ouvido a música e eram instruídos a não dançar conforme o som.

 


 

DESTAQUES

  • 1º e 11/12: Cada vez que alguém diz isso não é teatro se apaga uma estrela é o título da nova produção do grupo Lagartijas Tiradas al Sol, sobre a angústia dos artistas na pandemia.
  •  2/12: O grupo Agrupación Señor Serrano se inspira no filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, para criar Birdie, sobre imigração na Europa.
  •  4/12: A companhia francesa Chute Libre traz L’Harmonie du désordre (Anarquia - A Harmonia da Desordem), inspirado nos passos do hip hop.
  •  5/12: O Grupo Cocoodance transmite ao vivo espetáculo Hibridity (Hibridismo) e cria uma fusão de movimentos do muay thai e passos de balé.
  •  5 e 7/12: Em uma viagem pela cidade, o grupo Os Clowns de Shakespeare lançam um pensamento sobre o impacto da pandemia para o teatro na peça online Clã_Destin@, com apenas seis pessoas por sessão.
  •  11/12: A Companhia dos Atores apresenta parte da criação da nova peça Julius Caesar, que deve estrear em 2021

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.