LEEKYUNG KIM/Divulgação
LEEKYUNG KIM/Divulgação

História do Brasil costurada pelos inúmeros musicais é contada em nova peça

Amanda Acosta encena o espetáculo ‘Alô Alô Theatro Musical Brazileiro’, resultado de detalhada pesquisa

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2017 | 03h00

Uma das principais e mais experientes atrizes do musical brasileiro – participou de produções como My Fair Lady e Grease –, Amanda Acosta percebeu, ao longo dos anos, um crescente desconhecimento de parte do público em relação à história do gênero no Brasil. Longe de desaprovar a montagem de produções ao estilo Broadway, ela notou que fatos importantes estavam relegados ao esquecimento. “A primeira revista brasileira, As Surpresas do Sr. José da Piedade, de Justiniano de Figueiredo Novaes, foi encenada em 1859. Outras revistas foram escritas por Arthur Azevedo e outros dramaturgos até 1890”, conta Amanda que, decidida a recuperar essa importante fatia da arte nacional, encena o espetáculo Alô Alô Theatro Musical Brazileiro, em cartaz no Teatro Morumbi Shopping sempre às terças-feiras, até o dia 30 de maio.

Trata-se de uma importante e divertida viagem pela produção do gênero, desde 1892 até 2016 – são 13 canções que, unidas, percorrem todo esse período. “Começamos com O Mugunzá, canção de um espetáculo do teatro de revista, o Tim-Tim por Tim-Tim, de Souza Bastos, porque foi mais fácil encontrar partituras”, conta Amanda. É bom lembrar que o teatro de revista, gênero de origem francesa trazido ao Brasil pelos portugueses no século 19, caiu no gosto do público nacional, especialmente pelos temas picarescos e por promover as famosas vedetes, belas mulheres que exibiam pernas estonteantes. “São espetáculos de grande importância histórica, pois reproduziam e brincavam com fatos daqueles momentos”, lembra.

Em sua apresentação, Amanda faz breves relatos entre as canções, apresentando curiosidades sobre cada música e a peça em que está inserida. Para marcar a evolução do tempo, a atriz mostra pequenas alterações no figurino para pontuar a mudança dessas fases. “Também uso diferentes sotaques, desde o português, que marcou as apresentações nacionais até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), até a fase já abrasileirada, quando o ‘R’ era mais acentuado.”

Alô Alô Theatro Musical Brazileiro nasceu, na verdade, há um ano, quando Amanda aceitou o convite do ator e diretor Kleber Montanheiro para abrir o projeto Cabaré Solo, na Cia da Revista, um espaço para atores-cantores apresentarem canções de musicais. A dupla logo percebeu que o trabalho podia ser aprimorado e Montanheiro, um dos principais conhecedores do gênero, trouxe importantes contribuições – como sugerir o título do espetáculo, cuja grafia revela a longevidade do musical no Brasil e promove uma brincadeira entre o novo e o antigo, além de homenagear Luís Antônio Martinez Corrêa (1950-1987), grande diretor, autor dos espetáculos Theatro Musical Brasileiro I e II.

Acompanhada no palco por Demian Pinto (piano e arranjos) e Daniel Baraúna (percussão), Amanda Acosta comanda o passeio que deixa a plateia maravilhada. “Notei que as pessoas têm prestado mais atenção nas letras que o habitual”, conta ela, observando ainda descobertas. “A maioria das pessoas acreditava que No Rancho Fundo era uma criação de Chitãozinho e Xororó, sem saber que é de autoria de Ary Barroso e Lamartine Babo, que a criaram para a revista É do Outro Mundo, de J. Carlos, em 1930.” Amanda fala com naturalidade de nomes e datas, resultado de sua detalhada pesquisa.

Assim, o espetáculo mostra o declínio do teatro de revista, nos anos 1950 e 60, e ascensão das canções de protesto, como Zambi no Açoite (Edu Lobo), do musical Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal (1965), e Basta Um Dia, de Chico Buarque, integrante do musical Gota d’Água, que Chico escreveu com Paulo Pontes, em 1975. A última canção apresentada é A Análise da Água, de Ricardo Severo, pinçada do musical Um Dez Cem Mil Inimigos do Povo, adaptação de 2016 de Cassio Pires para a peça de Henrik Ibsen Um Inimigo do Povo.

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