Laura Del Rey/Divulgação
Laura Del Rey/Divulgação

História de Jacqueline Du Pré, vítima de esclerose múltipla, ganha montagem

Peça explora o embate da violoncelista britânica contra o próprio corpo

Leandro Nunes , O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2016 | 04h00

Com os olhos fixos nas cordas, a mulher não pode se arriscar a encarar o maestro. Abraçada ao seu violoncelo, ela teme não saber onde seus dedos tocam, já que eles estão cada vez mais insensíveis. Perto do final do concerto, os braços da violoncelista britânica Jacqueline Du Pré (1945-1987) iriam desabar, acometidos pela esclerose múltipla. O barulho do arco de seu instrumento batendo no chão marcaria para sempre a vida de uma mulher que foi vítima do próprio talento.

A tentativa de encarar o triste fim da musicista abriu caminhos para Jacqueline, que estreia nesta sexta, 2, no Sesc Consolação. Ela está associada pela perfeição e paixão com que executava o Concerto para Violoncelo do compositor Edward Elgar. Foi em meio à agenda cheia de apresentações, e com o fim do conflito entre árabes e israelenses na Guerra dos Seis Dias, que a jovem convertida ao judaísmo casou-se com o maestro argentino Daniel Barenboim no Muro das Lamentações. Com direção de Rafael Gomes, ele explica que seu primeiro impulso foi o de não fazer uma montagem biográfica da violoncelista. “Eu tinha criado uma outra estrutura com a qual desejava refletir essa história. Não se trata de algo linear, com começo, meio e fim, nem que busque narrar sua trajetória.” Ele acrescenta que um dos focos está na relação quase simbiótica entre a prodigiosa Jackie e sua irmã, a flautista Hilary, episódio que rendeu um longa de Anand Tucker, em 1998. “Quando crianças, elas já eram conectadas pela música, embora também competissem.”

No filme, o talento da pequena Jackie caminha à frente das habilidades de Hilary. Com o tempo, a violoncelista ganha fama internacional enquanto a irmã vai morar no campo com os filhos e o marido Kiffer Finzi. Como se não bastasse ser excelente na música clássica, Jackie vai engolir a calma rotina da irmã ao desejar seu marido. 

A atriz Natália Lage, que interpreta Jacqueline, ressalta que a relação das irmãs era irresistível. “Havia uma força que as unia. Apesar dos erros e das falhas, elas se amavam muito.”

O diretor acrescenta que a força da natureza também se torna um personagem no espetáculo, em embate com a musicista. “Ela possuiu um dom que recebeu gratuitamente, desde cedo. Isso parece ter um preço, e sua carreira vai se encerrar muito precocemente. É uma grande batalha entre sua genialidade e uma doença sem cura, que revela toda a fragilidade dessa mulher.” Jacqueline abandonou os palcos aos 28 anos.

Na concepção dessa trajetória de fúria, Gomes criou uma dramaturgia que se aventura no tempo. Aliás, o tempo pode ser considerado um próprio personagem, dada as viagens ao passado e presente que se fundem. “É um artifício que organiza a história. Existem momentos que as cenas são como imagens capturadas por máquinas fotográficas de instantâneos.” 

O cenário assinado por André Cortez vem para potencializar os encontros entre os personagens, levando em conta a progressão da doença de Jacqueline. O grande quadrado negro no palco, semelhante ao estojo de instrumentos musicais, revela aberturas e compartimentos que se transformam em portais, molduras e gavetas. “É uma busca por desenvolver uma linguagem”, afirma o diretor que teve Cortez na cenografia de montagens como Um Bonde Chamado Desejo (2015) e Gota d’ Água [A SECO][A SECO](2016). 

Ao lado dessas duas peças, Jacqueline pode ser considerada a terceira parte de uma trilogia, não planejada, afirma o diretor. “É certo que se trata de três grandes mulheres que tiveram de lidar com a realidade de maneiras diversas, seja no caso da Blanche ou da Joana. A tragédia de Jacqueline é mais cruel pois vai destruindo seu corpo.” 

Todavia, Gomes explica que o desejo de montar Jacqueline veio antes das duas montagens. Em 2013, ele adaptou o longa Edukators para os palcos com Natália no elenco. A peça trazia a vida de jovens ativistas e suas tentativas de transformar o mundo. Em uma das cenas, a atriz citava o filme de Tucker durante uma conversa.

Outro elemento que não poderia faltar num espetáculo como esse é a música. A obra de Elgar, com suas alternâncias de andamento e intensidade, se impõe inspirando a forma da peça. A partitura musical influencia o palco e a movimentação dos atores. “A música é emitida de diferentes formas. Às vezes como trilha, outras vezes conectada às ações dos personagens.”

Ao lado de Natália, Arieta Corrêa interpreta Hilary, que parece narrar os duros caminhos que a irmã trilhou. “Jacqueline não tem medo de reclamar da intensa agenda que a levou para o mundo, mas também para longe de sua família”, conta Natália. Os desencontros e as brigas com o maestro Barenboim (Daniel Costa) e o romance com o cunhado (Fabricio Licursi) surgem sem máscaras ou arrependimentos. “Jacqueline sabe que sua vida está acabando. A indignação que a fez ser talentosa continua como uma forma de sobrevivência. Tudo isso com a consciência de que suas mãos não poderão mais segurar um instrumento, e que seu corpo está esteja definhando”, ressalta Natália.

JACQUELINE. Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. 

Tel.: 3234-3000. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 40 / R$ 20. Até 18/12. De 6/1 a 29/1. Estreia 

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