Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

'Hello, Dolly!' é um dos favoritos ao Oscar do Teatro

A convite do 'Estado', diretor e produtor faz suas apostas ao prêmio das artes cênicas americanas

Claudio Botelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

10 de junho de 2017 | 16h00

NOVA YORK - “O Prêmio Tony é o Oscar do Teatro.” Esta é geralmente a definição mais usada para explicar a importância do prêmio aos melhores do teatro na Broadway. O fato é que, numa cidade como Nova York, que respira teatro 365 dias por ano, o tratamento dado a este “patrimônio cultural” é estratégico para a pujança do turismo, da economia, do comércio em geral. E a aproximação da entrega do Tony faz com que a cidade se enfeite de referências ao mesmo, e que todas as peças em cartaz exibam em seus anúncios trunfos como “9 indicações ao Tony”, ou “Tony de Melhor Ator, Melhor Atriz, Ator Coadjuvante...”. O Tony toma conta da cidade. E hoje, 11, é o dia da entrega do Tony Awards 2017.

Musicais são, sem dúvida, as grandes estrelas da Broadway. Embora os espetáculos sem música tenham enorme visibilidade, são os musicais que geralmente ficam anos em cartaz, que atraem turistas em geral. Esta pode ser considerada desde já uma temporada especial, porque em cartaz estão (ou estiveram) estrelas de renome mundial, o que torna tudo ainda mais esfuziante. Disparada nas apostas de melhor atriz está Bette Midler, que estrela o clássico dos clássicos, Hello, Dolly!. Ingressos? Só para outubro ou com cambistas, que podem lhe cobrar até mil dólares por um lugar na plateia. Você pode pagar? Pague, porque vale a pena. Tenho visto musicais extraordinários nos últimos anos, e vi estrelas de todas as grandezas em cena. Mas nunca vi nada tão exuberante e em estado de graça quanto Bette Midler em Hello, Dolly!.

O musical em si é aquela espécie de joia raríssima, onde tudo é perfeito: o texto adaptado de uma comédia de Thorton Wilder (um dos pais do moderno teatro americano), as músicas de Jerry Herman, o mais melodioso e emocional criador de canções que a Broadway nos deu desde Irving Berlin; e esta remontagem tem a assinatura de Jerry Zacks (indicado a diretor de remontagem de musical), um dos poucos capazes de recriar uma obra dos anos 1960 como Dolly com o requinte de não fazer uma só concessão a qualquer modernidade gratuita e, mesmo assim, entregar ao espectador o brilho do original como se o show tivesse sido criado ontem. 

Não bastasse, há ainda no elenco David Hyde Pierce (indicado a ator de musical), que é um show à parte como o solteirão ranzinza a quem o personagem de Bette Midler precisa ‘amolecer’; Gavin Creel e Kate Baldwin (indicados coadjuvantes em musical) são encantadores em seus papéis; e não só o restante do elenco dança e canta como se estivesse explodindo de felicidade (quem não estaria?), como o espetáculo tem cenários e figurinos de Santo Loquasto, um dos mais conceituados nomes da história do teatro e cinema americanos. Aposto que Hello, Dolly! não sai da premiação de hoje com menos de 5 estatuetas.

Já entre os musicais inéditos, não há nada capaz de barrar Dear Evan Hansen. É talvez o mais simples dos musicais em cartaz, a história é melancólica (um jovem sofre de grave ansiedade e entra em colapso ao saber da morte de um colega de sala), a música é de alta qualidade (embora os arranjos abusem das guitarras ‘folk’ que, na minha opinião, já cansaram os ouvidos de quem costuma acompanhar os musicais com mais frequência) e a direção é da vertente mais valorizada no teatro nova-iorquino no momento: pouco efeito/muita verdade. 

Na mesma linha de O Despertar da Primavera, Fun Home e Next To Normal, esse novo musical é emocional, fala de gente como a gente, fala de juventude e conflitos muito próximos de uma plateia jovem, angustiada com o estigma hamletiano tão caro ao pós adolescente de hoje: “sou ou não sou?” No papel central, Ben Platt certamente será o vencedor na categoria de ator de musical. Ele não é nada parcimonioso ao interpretar o desacerto total de seu personagem - é “o desacerto” em cena. Brilhante!

Como é uma temporada cheia de estrelas, não se pode esquecer ainda as interpretações de Dany de Vito (meu favorito entre os coadjuvantes) em O Preço; Sally Field, em À Margem da Vida; Kate Blanchett, em The Present; Laura Linney, em Pequenas Raposas. Tanto Patti LuPone quanto Christine Ebersole estão indicadas peço novo musical War Paint, que fala sobre a famosa rivalidade entre Helena Rubinstein e Elizabeth Arden, mas o espetáculo teve más críticas, é superficial e acho muito difícil que uma delas tire de Bette Midler o prêmio de melhor atriz.

Já para melhor musical inédito, minha aposta é Dear Evan Hansen. O outro espetáculo que poderia balançar os votos seria Natasha, Pierre & The Great Comet of 1812, inspiradíssima adaptação musical moderna de Guerra e Paz, de Tolstoi, mas no momento tem um quê de déjà-vu pois sua temporada off-Broadway foi há pouquíssimo tempo e, ao contrário do que se possa imaginar, era melhor “off” que “on”.

Kevin Kline dá um grande show na versão de 'Present Laughter'

Um outro acontecimento na Broadway no momento é a remontagem de Present Laughter, comédia de 1943 do inglês Noël Coward (1899-1973), com elenco liderado por ninguém menos que Kevin Kline. 

Jamais encenada no Brasil, esta peça, assim como quase toda a obra de Coward, pertence ao rol de obras conhecidas como “alta comédia”, ou seja, peças nas quais as situações cômicas são geralmente muito mais do que simplesmente ‘piadas’, mas fruto de uma trama sofisticadamente urdida, com personagens geralmente da alta classe que, expostos ao ridículo de maneira sutil pelo autor, onde o enredo passa longe do apelo popularesco e acessível da comédia de costumes. 

Mas o que interessa aqui é ver Kevin Kline dando um show de interpretação em duas horas e meia de espetáculo. Kline é Deus em cena; tanto na parte de entrega do texto extremamente dúbio do personagem, como era de se esperar, mas também mostrando dotes de um comediante físico que não é o que se espera dele normalmente. 

Pois Kevin Kline cai no chão, tropeça, rola do sofá, pisa em falso, abusa de gags e maneirismos inesperados numa peça com as características descritas acima, mas tudo com uma classe e uma verdade que nos faz pensar numa mistura de Paulo Autran com Lúcio Mauro, Raul Cortez com Jorge Dória, Edwin Luisi com Agildo Ribeiro. Kevin Kline é minha aposta para o Tony de Melhor Ator de peça não musical para o Tony de logo mais.

PRINCIPAIS INDICADOS

Melhor peça de teatro

'A Doll's House, Part 2' 

'Indecent'

'Oslo'

'Sweat' 

 Melhor musical 

'Come From Away' 

'Dear Evan Hansen'

'Groundhog Day The Musical' 

'Natasha, Pierre & The Great Comet of 1812'

Melhor revival de peça 

'August Wilson’s Jitney'

'Lillian Hellman's The Little Foxes'

'Present Laughter'

'Six Degrees of Separation'

Melhor revival de musical

'Falsettos'

'Hello, Dolly!'

'Miss Saigon'

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