Erin Baiano via The New York Times
Erin Baiano via The New York Times

‘Há a pureza que alimenta a alma’, diz Sofia Coppola sobre filme para o Balé da Cidade de NY

Diretora fala da emoção que envolve o seu novo trabalho: um filme para a gala de primavera virtual do Balé da Cidade de Nova York

Roslyn Sulcas, The New York Times

11 de maio de 2021 | 05h00

Embora goste de balé, Sofia Coppola, que completa 50 anos na sexta, 14, não se considera uma fã. Mesmo assim, quando ela recebeu um e-mail do Balé da Cidade de Nova York perguntando se ela dirigiria um filme para a gala de primavera virtual da empresa, não hesitou. “Fiquei tão emocionada”, disse ela, em uma entrevista em vídeo, na semana passada. “Foi tão legal receber uma mensagem do Balé da Cidade de Nova York.”



Sofia, cujo primeiro longa-metragem onírico, As Virgens Suicidas (1999), a consagrou como uma cineasta que poderia prender o interesse do espectador por meio de imagens e atmosfera tanto quanto pela narrativa ou pela ação, ganhou elogios e prêmios por seus filmes, incluindo um Oscar pelo roteiro original de Encontros e Desencontros (2003) e o prêmio de melhor diretora por O Estranho que Nós Amamos (2017), no Festival de Cannes.

“Estávamos um pouco apreensivos em entrar em contato com ela”, disse Justin Peck, coreógrafo residente e consultor artístico do Balé da Cidade de Nova York, na entrevista em vídeo junto com Sofia. Ele vinha discutindo com os diretores artísticos da empresa, Jonathan Stafford e Wendy Whelan, “juntando algo substancial, com uma visão real”, disse, e eles concordaram que queriam trabalhar com uma cineasta. Sofia, disse ele, era a primeira de sua lista. “Ela foi tão receptiva e ficou tão animada com a ideia, e foi afetuosa ao conversar, que se tornou um processo maravilhoso.”



O vídeo de 24 minutos (disponível no site do Balé da Cidade de Nova York e em seu canal do YouTube, até 20 de maio) inclui Solo, um novo trabalho de Peck para o primeiro bailarino Anthony Huxley, tem como trilha Adagio for Strings, de Samuel Barber, e trechos de Dances at a Gathering, de Jerome Robbins, e Duo Concertant, Liebeslieder Walzer e Divertimento Nº 15, de Balanchine.

Sofia une essas peças por meio de uma jornada poética pela casa da companhia, o teatro David H. Koch no Lincoln Center, passando de imagens em preto e branco dos dançarinos no estúdio de ensaio, nos bastidores e no enorme saguão vazio, para segmentos coloridos no auditório e no próprio palco. “Ao filmar no teatro”, disse Sofia, “senti que o espírito da dança estava lá”.

 


Na entrevista, ela e Peck contaram como trabalharam juntos, os desafios de filmar a dança e o que cada um tirou da experiência. Aqui estão alguns trechos da conversa.


 

Sofia, qual foi sua estratégia para fazer este filme?

Sofia: Tenho gostado de ir ao balé ao longo dos anos, mas nunca filmei nada com elementos da dança. E meu estilo de filmagem é bem parado, então, para fazer algo onde havia tanto movimento, tive que pensar em usar a câmera de forma diferente. O que ajudou muito foi ter acesso aos vídeos de Justin, filmados em seu telefone, de seus ensaios com Anthony. Foi interessante ver seu senso de movimento.


 

Quais são os desafios de filmar dança?

Sofia: O desafio para mim foi transmitir a sensação de ver alguém dançar ao vivo. Muitas danças são filmadas de uma forma muito plana e padronizada. Mas chegar perto, que é o emocionante no ensaio, nem sempre se traduz na gravação também. Tive de mover a câmera muito mais do que estou acostumada e tentar dar a sensação de experimentar uma apresentação ao vivo de diferentes pontos de vista. Também havia coisas técnicas. Na edição, diríamos: “Oh, isso é lindo”, e Wendy ou Jon ou Justin diriam: “Hum, o giro dele está um pouco errado” ou “Os pés não estão na cena!”. Normalmente não penso em mostrar alguém da cabeça aos pés em um quadro, mas aqui você quer mostrar a coreografia completa.


 

Você assistia a musicais de cinema na sua juventude?

Sofia: Sim, assistimos a muitos musicais. Não sei se isso me influenciou nesse trabalho, mas a última parte do vídeo, o final de Divertimento Nº 15, para mim, tinha aquele tipo de glamour antigo de Hollywood que eu queria transmitir.


 

Quanto esforço você sentiu que precisaria fazer para entender cada peça da dança?

Sofia: Na verdade, eu não quis me preparar muito, porque queria abordar a dança de uma maneira nova. Mas Jon, Wendy e Justin conversaram comigo sobre a história de cada peça - quando foram feitas e o que os coreógrafos poderiam estar pensando. Também aprendi muito a respeito de Robbins com Jean-Pierre Frohlich, e o que certos gestos significavam no solo de Dances. Eu queria tentar dar a cada peça uma personalidade visual diferente, e acho que descobrimos isso juntos.


 

Vocês dois são creditados no filme por ‘conceito’. Como trabalharam tal questão juntos?

Sofia: Em nossas primeiras conversas, Justin explicou que os dançarinos estiveram fora do teatro por um ano, então, trazer o teatro de volta à vida, e a sensação dos dançarinos voltando para casa, tornou-se a ideia central. Gosto de filmes mais abstratos e poéticos, e para mim cada peça tinha sua própria essência e sentimento, então conversamos sobre isso também.

Peck: Parte da intenção era expor alguns dos funcionamentos internos do teatro que o público normalmente não veria. Queríamos mostrar seu funcionamento interno até a apresentação no palco ser totalmente executada. Simboliza o processo de um dançarino: começar no estúdio, seguir em direção ao palco e, em seguida, atuar sob as luzes. Uma das coisas que realmente adorei quando vi o material bruto do filme foi que parecia que todos esses trechos estavam acontecendo simultaneamente, em seus pequenos submundos no teatro. É uma ideia muito autêntica, a forma como a arte é aprimorada durante os ensaios e se mostra no palco.


 

Vocês também conversaram a respeito da ideia de mudar do preto e branco para o colorido?

Sofia: Não, eu apenas imaginei assim desde o início. Mas depois eu queria que o final fosse uma celebração e uma volta à vida, e esperava poder mudar para uma cor sem ser muito cafona. Adoro o contraste entre os ensaios e os bastidores, os tutus e as luzes; é como uma fantasia do que é o balé quando se é criança. Além disso, os azuis e os amarelos claros dos figurinos do Divertimento são tão bonitos, como as cores da primavera ganhando vida.

Peck: É também outra representação muito autêntica de como é trabalhar no teatro. Os bastidores são mal iluminados, os corredores são úmidos e as paredes estão descascando. Depois, há a magia que acontece quando você entra no palco e o calor das luzes foca em você.


 

Sofia, você dirigiu 'La Traviata' para a Ópera de Roma, em 2016. Houve alguma semelhança entre os dois trabalhos?

Sofia: Acho que essa experiência simplesmente me ajudou a dizer ‘sim’ a isso e não ter muito medo, porque eu já tinha feito algo que não sabia fazer. A semelhança talvez seja que ambas as experiências foram focadas na arte e na beleza. É uma boa pausa dos filmes, que são tão caros e que, muitas vezes, se transformam completamente em negócio. No teatro, há todos esses artistas que trabalham realmente pelo amor à arte. Há uma pureza aí que alimenta muito a minha alma.


 

O que vocês aprenderam com a experiência?

Sofia: Sinto que tenho novas amizades no mundo da dança! E é tão revigorante colaborar em um novo meio.

Peck: Nós sentimos o mesmo. Sofia nos mostrou que pode dançar com sua câmera.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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