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Grupo teatral une Foucault e Goya para falar de loucura

‘O Quadro de Todos Nós Juntos’ veste a máscara da animalidade e encontra no seio familiar um atestado do insano

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2015 | 03h00

A liberdade é inerente à criança, ao poeta e ao louco – na tentativa de deflagrar as condições históricas, morais e religiosas para o surgimento da ideia de doença mental, Michel Foucault (1926-1984) investigou, em A História da Loucura, qual o espaço delegado aos loucos e qual a função das clínicas psiquiátricas modernas na sociedade.

O tema, que já interessava Eduardo Felix, diretor do coletivo Pigmalião Escultura que Mexe, ganhou como molde essencial A Família de Carlos IV, pintura de Francisco de Goya (1746-1828). “Ele fez um complexo retrato psicológico ao pintar o rosto de cada integrante”, conta. No quadro, o rei figura fraco e inexpressivo ao redor de filhos e parentes. Posicionada ao centro, está a rainha Maria Luísa, conhecida pela possessividade, dominação e por usar pérolas para disfarçar os dentes podres.

E foi como cuspir as joias em um chiqueiro que o espetáculo O Quadro de Todos Nós Juntos foi concebido. No lugar de figuras humanas, uma família de porcos com características antropomórficas posa para um retrato. Em meio a tantos flashs, as estruturas familiares e loucuras secretas se revelam como fotos na câmara escura da cena. “Há uma grande semelhança entre humanos e porcos”, aponta. “Seja na maneira de dormir, nos sons produzidos ou nas características da pele.”

Fundado em 2007, o coletivo mineiro surgiu com o intuito de borrar as fronteiras entre o tradicional teatro de bonecos e o teatro de atores feito em Minas. “Não queremos fazer espetáculos infantis”, afirma Felix, que tem no repertório a montagem de A Filosofia na Alcova. “É uma grande crueldade o que fazemos com os bonecos. E isso atinge um nível de realidade que choca as pessoas. Sempre tem alguém abandonando a sala.”

E nessa família suína, que se mescla com atores e bonecos, aos poucos se concretizam diversos complexos. Em uma cena, uma porca com depressão pós parto, agride e protege os filhotes continuamente. Em outro momento, o filho batalha com o pai pela dominação da mãe. “Durante o processo, visitamos hospitais psiquiátricos e conhecemos diversas histórias, entre elas a da uma mãe que enforcou o bebê enquanto amamentava.”

Mais que representar, o jogo criado depende da manipulação das figuras e da coexistência com os bonecos no palco. Para tanto, o espetáculo não traz texto falado mas se expressa por meio de “palavras-gesto”, como explica o diretor. “São movimentos que comunicam ideias, seja uma posição das mãos ou como o rosto se move.” Se de um lado essa partitura física contamina o corpo inanimado dos bonecos, por outro os atores incorporam uma anatomia animal. “O objetivo é causar unidade entre ator e boneco, para que se confundam”.

E, se o espetáculo está distante das fábulas morais de Esopo, que intentavam trazer um ensinamento para os homens, a peça da Pigmalião encontra correspondência na representação dos vícios e loucuras humanas.

Mirando o próximo espetáculo, Felix quer tratar dos conceitos de massa e poder expressos na obra do escritor Elias Canetti sobre organizações populares nazistas.

No imaginário de um ser que pudesse congregar tal caráter de fuga, esperteza e discrição, o diretor já tem um nome: o rato.

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