NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Grupo Tapa estreia 'Anatol', peça criticada por erotismo, mas celebrada por Freud

A primeira peça do austríaco Arthur Schnitzler retrata as aventuras de um Dom Juan moderno

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2018 | 06h00

Em 1905, o livro A Ciranda circulava às escondidas por Viena. A obra censurada de Arthur Schnitzler causava desconforto por retratar a intimidade sexual de homens e mulheres de modo clandestino – fora da bênção sagrada do casamento. Com estrutura semelhante, e erotismo mais sutil, o Grupo Tapa estreia nesta sexta, 3, Anatol, do autor austríaco no Teatro João Caetano. 

Schnitzler foi médico e exerceu a mesma função de seu pai até se dedicar integralmente à atividade literária. Anatol (1892) é seu primeiro texto teatral, organizado em sete cenas – seis na montagem do Tapa – e narra as aventuras românticas do personagem-título, um jovem burguês na Viena do século 19. “São episódios de sua vida e de mulheres de todas as classes sociais com quem se relacionou em um momento histórico de intensa atividade artística e intelectual na capital”, conta.

Como um Dom Juan moderno, a montagem o coloca em situações cômicas, mas também melancólicas. “Não há nada dramático para Anatol. Ele se revela em contato com essas mulheres”, diz Tolentino. Nesse ritmo, o personagem vai mostrando aspectos de sua moral sexual bastante elástica em relações tão modernas quanto os aplicativos de relacionamento atuais, como o Tinder. “Essas tecnologias facilitam o encontro e despertam relações pautadas pelo desprendimento amoroso”, lembra o diretor.

O público não verá apenas um personagem hétero, branco e rico que satisfaz seus desejos ao se relacionar com diferentes mulheres. A liberdade sexual que permeia o comportamento de Anatol acompanha, em diferentes medidas, o estilo de vida das amantes. Do centro da narrativa, ele passa a figurar como uma lente para o público que observa uma legião feminina bem diversa. “Elas também mostram como ele pode ser patético em sua pretensão de macho e conquistador”, afirma Tolentino. “E todas muito atuais. São mulheres que estão por aí, como a atriz Catherine Deneuve e tantas outras.”

Contemporâneo do psicanalista Freud, a relação de mútua admiração entre eles não esconde segredos. Freud já teria dito que por muito tempo evitou ser apresentado ao escritor por acreditar que Schnitzler era seu duplo. Em uma carta a ele, Freud descreve: “Creio que a sua natureza é a de um profundo investigador da alma, tão honestamente imparcial e intrépido como nenhum outro jamais foi”.

Tamanha conexão pode ser explicada, em parte, pela transformação social que vinha sendo gestada naquela virada do século 18 para o 19. “A era vitoriana foi responsável por punir e reprimir o desejo sexual, tratando-o como pecado. Com o tempo, artistas e intelectuais passam a repensar modos de contornar o que se entendia como histeria, assunto muito debatido por Freud.” Esse tipo de sofrimento psíquico cheio de equívocos que atormentava as mulheres começa a ser estudado. Schnitzler resgata o tema na peça com Anatol, realizando hipnose em uma mulher, uma das formas de tratamento na época. “No início, achamos que não havia tanta conexão com os tempos de hoje, mas até a hipnose retornou”, diz o diretor. Apesar do recorte histórico da peça, Tolentino afirma que montar Anatol importa como exercício de compreensão do tempo presente e de como as relações sociais se organizam. 

Na condução do Tapa, a direção de Tolentino ao longo de quase quatro décadas conserva olhar atento à caracterização dos figurinos. Na montagem, os primeiros anos que ensaiaram o século 19 não impõem regra estética ao diretor. “Há um tratamento de época, sim, mas é voltado para algo mais atemporal. Anatol tem a suficiente fantasia de ser uma fábula, mas sem a intenção de fazer uma reconstituição histórica fiel.” 

ANATOL. Teatro João Caetano. R. Borges Lagoa, 650. Tel.: 5573-3774. 6ª e sáb., 21h, dom., 19h. R$ 20 / R$ 10. Estreia 6ª (3). Até 26/8

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