Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Grupo Tapa encena ‘Brincando com Fogo’, de Strindberg

Peça dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo é sobre o amor que não teme más escolhas

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2020 | 07h00

Quando encenou O Torniquete, melodrama siciliano de Pirandello - e uma das joias do Grupo Tapa - o diretor Eduardo Tolentino de Araújo apostou na simplicidade natural ao teatro: a poucos metros da plateia, uma mulher fingia normalidade com o marido para disfarçar o adultério. Tudo às vistas de três janelas, no pátio da casa, ambientado na sede da companhia.

Com tanta intimidade exposta, capaz de ampliar a respiração dos atores, o teatro íntimo pensado por August Strindberg surgia em um encontro inesperado, dada as distâncias entre a Itália e a Suécia. O Tapa estreou na sexta-feira, 10, Brincando com Fogo, no Teatro da Aliança Francesa. “O Torniquete fala das relações amorosas banhadas pelo mediterrâneo, é mais passional. Já a peça de Strindberg é afetada pela clima seco báltico, outro caminho para se encontrar a subjetividade das personagens.”

É uma trilha repisada pelo diretor tempo o bastante para estar em sua quinta incursão pela obra do autor sueco. Foram O Pária (2007), na TV Cultura, e nos palcos, Camaradagem (2006), Credores (2011), Senhorita Julia (2013), sem contar uma leitura encenada de A Mais Forte. “Em quase todas essas obras, Strindberg traz para o centro das histórias figuras da burguesia boêmia, artistas como escritores, pintores e atores, diferentemente da burguesia convencional nas peças de Ibsen, por exemplo.”

Ao reunir sensibilidade artística, o tédio burguês e noites inteiras na companhia do álcool, Strindberg deflagra a alma de personagens tão próximas de sua própria convivência, alter egos de si e da sociedade em que vivia. “Ele arriscou ao levar para suas criações e hábitos, sem aparências”, diz o diretor. Ousadia que serviu de farol para os escritos debochados de Nelson Rodrigues. E da mesma forma que o nosso dramaturgo nacional, Strindberg também foi considerado misógino. “Mas são dele as personagens femininas mais complexas”, diz o diretor.

Um exemplo é Kerstin (Camila Czerkes), esposa de um pintor (Daniel Volpi) que vive com a rica família. Entre o tédio e a falta de talento, o pintor recebe o amigo Axel (Bruno Barchesi) e sua mulher (Luana Fioli), prima da família. Para apimentar a relação, o pintor e Kerstin preparam um jogo de sedução, imaginando que poderiam sair sem grandes implicações. A peça tem participação especial de Oswaldo Mendes e Mara Faustino. 

Ao contrário de O Torniquete, que se apoia no melodrama e cujo adultério da personagem se torna motivo de especulação pelo marido, na peça de Strindberg o desejo ardente de Kerstin por Axel ganha contornos senão amadurecidos, bastante honestos. É o que Tolentino quer dizer quando chama de moderna a escrita de Strindberg. “Suas personagens não estão debatendo questões morais ou limites que foram ultrapassados. Em O Torniquete, de Pirandello, o homem seria capaz de atirar em sua mulher. Com Strindberg, ele atiraria na própria cabeça.”

Durante o ensaio, acompanhado pelo Estado, a clareza dos sentimentos desse quadrângulo amoroso não estão encobertos no cenário repleto de poltronas, telas cruas e quadros pintados. Em certo momento, Axel diz para a amada: “Não vamos brigar pela culpa, vamos ser originais. Vamos conversar com calma”. Dividida pelo desejo de acompanhar o novo amor e ter de abandonar família e filhos, ela retruca: “Mas a paixão não é calma”. 

Kerstin ganha contornos perturbadores ante o desinteresse pela rotina ordinária. Em uma cena ela passa a desejar que epidemias e moléstias mortais atinjam seu filho e familiares, como solução que a desperte de uma vida entorpecida. Na outra ponta, existe um desejo, sem medo de amarras. “Os julgamentos dão espaço para as escolhas, ela não poderá ter tudo e precisa decidir”, conta Tolentino. 

Ambiguidade parecida - e ao sabor do questionamento - é a de Maggie, interpretada por Bárbara Paz em Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams, montada pelo Tapa em 2016. Na ocasião de um debate sobre a peça, Tolentino recorda de uma espectadora que questionou a atualidade da solitária personagem de Bárbara. “Não existem mais mulheres assim”, a espectadora teria afirmado. Para Tolentino, o contexto da peça de Williams segue afetado pelo ritmo do mundo. “A peça era situada na década de 1950, em um latifúndio de monocultura de algodão nos EUA, com forte herança escravagista”, explica. “Não deu muito tempo desde nossa estreia e hoje estamos em governo que veste azul e rosa.”

Em Brincando com Fogo, o diretor também encontra ecos libertários, por se tratar de uma peça do fim do século 19 e de personagens que discutem livremente as direções tomadas pelo coração. “Isso recobre suas peças com uma aura de sonho, de um ambiente onírico, muitas vezes embaralhado, não realista.”

Ao perseguir tantas pistas, Tolentino aponta que o autor sueco carrega forte influência do existencialismo que alimentaria as figuras femininas de Ingmar Bergman, por exemplo, e que têm como fonte o filósofo dinamarquês Kierkegaard. “Há um inferno particular para todos eles, como na peça Entre Quatro Paredes, de Sartre, outro existencialista.” 

Já na dramaturgia brasileira, o diretor também encontra herdeiros. “Plínio Marcos talvez seja o mais existencialista entre os autores nacionais. Não vejo diferenças entre Navalha na Carne e Entre Quatro Paredes.”

QUEM É

AUGUST STRINDBERG

Nascido em Estocolmo no ano de 1849, autor e romancista é considerado pai do teatro moderno, escreveu ‘Senhorita Júlia’, e está entre escritores escandinavos como Ibsen e Kierkegaard. Morreu em 1912.

SERVIÇO:

BRINCANDO COM FOGO. TEATRO DA ALIANÇA FRANCESA. R. GENERAL JARDIM, 182. TEL.: 3572-2379. 5ª, 6ª, SÁB. 20H30, DOM., 19H. R$ 60 / R$ 30. ESTREIA HOJE, 10. ATÉ 16/2 

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