João Caldas Fº
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Grupo Razões Inversas estreia ‘Heather’, uma ficção contra tempos polarizados

Texto embaralha identidades e aposta no debate ético do artista por trás da obra; peça estreia no Sesc Pinheiros, em São Paulo

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 08h00

O esforço do dramaturgo inglês Thomas Eccleshare em descrever as paisagens do livro ficcional de Heather lembra o estilo dos autores de Game of Thrones, O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Na trama da peça, que ganha temporada nesta quinta-feira, 17, no Sesc Pinheiros, há muitos mistérios a se descobrir até a última cena. 

Na verdade, a tônica de “não se deve julgar um livro pela capa” pode ajudar a plateia a percorrer a dramaturgia encenada pelo grupo Razões Inversas, na direção de Marcio Aurelio. A obra experimentou apenas duas apresentações na programação do Cultura Inglesa Festival 2019. Faltava agora entrar em temporada. 

Nesse intervalo, não apenas as obras ganham tempo para amadurecer, mas seus artistas também conseguem ajustar o olhar, que parte da história e toca a realidade. O que a atriz Laís Marques vê é o desafio. “O teatro sempre esteve interessado em embaralhar as coisas, confundir. Nesse mundo polarizado que atinge a todos nós, a peça responde oferecendo a transformação”, conta a atriz que compartilha o palco com Paulo Marcello.

E as mudanças estão lá. Dividida em três narrativas, a peça de Eccleshare pretende saborear o texto falado em diferentes instâncias, o que permite ofuscar e esconder quem está falando. Na primeira parte, uma autora conversa com o responsável pela edição de seu livro infantojuvenil. A conversa é de entusiasmo, já que a obra de estreia da autora foi devorada pelo público e eles querem mais. Trata-se da saga de Greta, uma heroína que tem como inimiga uma criatura horrenda. Suas batalhas têm dimensões épicas.

É possível prever que a última cena da peça descreve o embate entre as forças do bem e do mal, mas antes que isso ocorra, o texto questiona qualquer visão mais radical da vida, afirma a atriz. “Antes que o público tenha acesso à narrativa, o encontro entre o editor e a autora é de muito estranhamento.” 

A explicação é clara. A autora vive reclusa e deseja que as negociações pelo título ocorram exclusivamente por e-mail. “A primeira cena descreve essa conversa online entre os dois. É preciso ficar atento porque eles não são quem dizem ser. E isso cria uma reviravolta na história”, diz Laís. 

Quando a reportagem entrevistou Aurelio, na estreia de Heather, em maio, o diretor explicou que Eccleshare deseja debater um assunto antigo, sobre a natureza da criação artística e a identidade do criador. “Ele recupera um pensamento do poeta italiano Torquato Tasso, do século 16, sobre a propriedade de uma obra. Quem é o dono? O autor ou o financiador?” “Nos dias de hoje, com os incontáveis agentes envolvidos na criação, a equação não é nada simples”, afirmou.

É um debate ético com bastante apelo. Trata-se de algo que não atinge apenas os autores. Artistas da música e do cinema precisam enfrentar a crítica dos fãs por suas más condutas. Denúncias e crimes são capazes de arruinar carreiras públicas. Todos perdem. “Essa ideia de quem é o artista por trás da obra pode assustar. O que fazer? Cancelar tudo que ele criou? Há caminhos para que ele possa se redimir?”, questiona a atriz.

HEATHER

SESC PINHEIROS. RUA PAES LEME, 195. TEL.: 3095-9400. 5ª, 6ª, SÁB., 20H30. R$ 30 / R$ 15. ESTREIA HOJE, 17. ATÉ 16/11 

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