GUSTAVO CAMPOS
GUSTAVO CAMPOS

'Grupo Galpão: Tempos de Viver e de Contar' mostra a trajetória de um grupo inquieto

Livro relata os quase 40 anos da companhia consagrada por espetáculos inovadores, encenados na rua e no palco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 15h00


Há quase 40 anos na estrada, o grupo de teatro Galpão conquistou um invejável padrão de qualidade graças a uma combinação infalível: um elenco afiado, capaz de interpretar, cantar e tocar instrumentos sem perder o fio da meada do personagem, aliado a uma experiência consolidada de atuar na rua e uma inspirada direção de arte.

A trajetória dessa vitoriosa carreira pode ser acompanhada no livro Grupo Galpão: Tempos de Viver e de Contar, lançado agora pelas Edições Sesc SP.

Com organização de Eduardo Moreira, fundador e diretor artístico do grupo, e com um ensaio assinado pelo crítico teatral Valmir Santos, o livro será oficialmente lançado nesta quinta, 15, em uma conversa online entre Moreira e Inês Peixoto, atriz, diretora, dramaturga, a partir das 19h, no YouTube do Sesc Pinheiros.

O Galpão surgiu em 1982, quando cinco atores (Moreira, Teuda Bara, Wanda Fernandes, Antônio Edson e o argentino Fernando Linares) decidiram se juntar e formar uma companhia, depois de participar de uma oficina com o Teatro Livre de Munique. “A cerimônia inaugural do grupo aconteceu com um brinde de cerveja e cachaça num bar no centro de Belo Horizonte, na esquina das ruas Guajajaras e Goiás”, escreve Moreira, no livro.



O momento político não era inspirador (ainda sob a ditadura militar), os artistas tentavam se organizar e o Galpão surpreendeu ao ir para a rua apresentar E a Noiva Não Quer Casar, com o elenco andando sobre pernas de pau e conciliando a encenação com números circenses. O grupo apresentava ali suas credenciais que, aprimoradas ao longo dos anos, se tornariam sua principal identidade.

A partir dali, o Galpão iniciou um processo de evolução, revelando, no entender de Moreira, sua capacidade de atuar nos mais diferentes registros de interpretação, visitando gêneros opostos à tipologia do teatro popular de rua, como o teatro expressionista de Nelson Rodrigues ou a interpretação realista das peças de Chekhov. Ao mesmo tempo que soube manter o frescor de teatro de rua e ganhar um padrão de qualidade, o Galpão surpreendia, a cada novo espetáculo, com mais uma aposta estética.

Um dos pontos mais altos dessa trajetória aconteceu em 1992 com a estreia de Romeu e Julieta. A direção foi de Gabriel Villela, que se aproximou do grupo por estar interessado em desenvolver uma experiência de teatro de rua. Do encontro, nasceu um espetáculo que se tornou marco do teatro contemporâneo brasileiro ao fazer uma leitura popular da tragédia dos jovens amantes de Shakespeare segundo a tradição do circo-teatro, buscando ainda outras referências, como Guimarães Rosa.



A mistura de recursos circenses, cancioneiro popular mineiro unido a músicas de serenata, técnicas de teatro de rua e figurinos criados à base de flores de papel e plástico encantaram públicos de diversas cidades brasileiras, e o espetáculo chegou a ser apresentado na reinauguração do Globe Theatre, em Londres, em 1999.

Logo, outros diretores se juntaram ao Galpão – assim, após o visual barroco de Villela, vieram Paulo José, que fomentou uma preocupação com a palavra mais trabalhada ao se inspirar em Bertolt Brecht (Um Homem É Um Homem, de 2005), e Paulo de Moraes, que aproximou o grupo de uma experiência mais urbana (Pequenos Milagres, 2007). “Um grupo que se debruça regularmente sobre os clássicos de forma popular e com espetáculos de grande empatia com o público”, observa Moreira.

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