José Luiz Pederneiras
José Luiz Pederneiras

Grupo Corpo estreia espetáculo com trilha sonora da Palavra Cantada

Coreógrafo Rodrigo Pederneiras criou ‘primavera’ a partir de troca de mensagens informais com Paulo Tatit

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 05h00

Foi durante uma conversa informal pelo WhatsApp, em um tedioso domingo de dezembro, que o coreógrafo Rodrigo Pederneiras e o músico Paulo Tatit, da dupla Palavra Cantada, iludiram a desesperança que marcava aqueles dias pandêmicos e vislumbraram um trabalho de alto poder criativo. Começaram trocando ideias até que, dezenas de mensagens trocadas depois, nasceu primavera (com minúscula mesmo), primeiro trabalho original do Grupo Corpo desde o início da pandemia e com trilha sonora do Palavra. O espetáculo tem estreia nacional nesta quarta, 27, no Teatro Alfa, com curta temporada – até domingo, 31.

Trata-se do primeiro trabalho conjunto de duas grandes marcas da cultura nacional – enquanto o Corpo, do qual Pederneiras é coreógrafo e fundador (ao lado do irmão Paulo), é uma das mais importantes companhias de dança contemporânea do Brasil, Tatit forma, com Sandra Peres, a dupla Palavra Cantada, responsável, há 27 anos, pela criação musical de indiscutível qualidade para o público infantil – o trabalho, porém, não é dirigido às crianças.

Assim, primavera é o resultado de uma leitura coreográfica que Rodrigo e sua companhia fizeram de 14 canções criadas e gravadas por Tatit e Peres, entre 1999 e 2017, e que foram adaptadas por eles. Um trabalho que exigiu perdas e acréscimos, favorecendo a linguagem corporal sem que a música perdesse sua originalidade. “Com a supressão da letra, da voz cantada e de boa parte das linhas melódicas, fomos inserindo linhas de piano, violão, contrabaixo e alguns vocalises”, explica Tatit. “A base instrumental é bem aberta e o resultado ficou muito sofisticado.”

Foi um processo que começou com concessões para combater a letargia. “Naquela época, final do ano passado, estávamos presos nas nossas casas, sem poder ensaiar, reunir o grupo, programar um espetáculo, projetar uma temporada, com os bailarinos fazendo aulas remotas”, relembra Pederneiras. Até aquele momento, e nos 18 meses anteriores, o grupo se agarrou a gravações de balés e à participação em eventos em plataformas digitais.

A partir daquela conversa entre Pederneiras e Tatit, um plano do Corpo que já se rascunhava (criar peças curtas, com novas coreografias, para a internet) ganhou novo impulso. “Foram quatro horas de mensagens pra cá e pra lá”, diverte-se Tatit. “E surgiu a ideia de selecionarmos e adaptarmos os playbacks da Palavra Cantada. Enviamos, Sandra e eu, dezenas de playbacks dos nossos 27 anos de carreira. Rodrigo selecionou 14 deles e começamos a trabalhar.”

Um dos principais pontos do trabalho foi transformar as canções de forma que não remetessem diretamente ao universo infantil, mas sem perder sua originalidade – assim, saíram as vozes, as melodias foram retrabalhadas e entraram novos instrumentos. Segundo Pederneiras, o projeto inicial, que previa peças curtas e independentes, foi sendo modificado até ganhar uma unidade. O coreógrafo se lembra de um antigo trabalho do Corpo, Prelúdios, de 1985, que são peças soltas, mas costuradas pela dança e pelas canções românticas de Chopin. 

Em seus 36 minutos de duração, primavera é marcada por uma variedade de estilos musicais, partindo de um jazz light até chegar à percussão afro. “Construímos um balé completamente diferente, singular, com a música de alta qualidade da Palavra Cantada”, define Pederneiras. “Diferente também porque é, como uma primavera, uma antecipação de dias melhores. Conjuramos assim um futuro mais ameno e, por que não?, mais feliz.”

De fato, o Corpo é uma companhia essencialmente brasileira, que reflete em suas criações a pluralidade e complexidade do País. Fundado em 1975, em Belo Horizonte, o grupo tem uma trajetória marcada por uma criatividade que, moldada com precisão e rigor, garante uma excelência técnica para mesclar o popular e o erudito.

É o que se observa nesse novo trabalho, que traz uma nova leitura de canções da Palavra Cantada como Pé com Pé, Bolinha de Sabão, Passeio do Bebê e Meu Lugar. A concepção cenográfica, a cargo de Paulo Pederneiras, começou quando o trabalho ainda era pensado para a internet, com peças curtas. “Quando vimos que havia ali um arco, um conceito, um espetáculo inteiro, eu já estava testando o uso de câmeras e decidi tirar partido dessa ideia”, explica Paulo. “No espetáculo, posicionamos duas câmeras minúsculas à frente do palco, operadas da coxia, trabalhamos as projeções dos bailarinos em tempo real, projetadas numa tela de tule preto, atrás da cena.” É a primeira vez que a companhia utiliza esse recurso em uma de suas coreografias.

Já os figurinos foram pensados por Freusa Zechmeister de forma a ressaltar o contraste. Assim, como o palco e o fundo são marcados por cores escuras, as bailarinas usam uma vestimenta com cores fortes (amarelo, laranja, vermelho e verde), enquanto os homens utilizam um figurino notadamente mais clássico, como calças pretas, mas com um corte mais moderno, complementado por camisetas justas.

E, como primavera nasceu em um momento marcado pela austeridade por causa da pandemia, o balé criado por Rodrigo Pederneiras é um reflexo disso. “Há somente três pas-de-deux”, explica. “E só se tocam os bailarinos que são casais e vivem juntos. O restante do espetáculo se desenvolve em duos, trios, quartetos e todos mantêm distância entre si; há somente uma cena com oito bailarinos.”

Isso permite, no entender do coreógrafo, que o trabalho individual de cada bailarino seja mais facilmente observado. 

A convite do ‘Estadão’, Pederneiras, Peres e Tatit trocaram ideias

Paulo Tatit – Naquele domingo, ficamos trocando mensagens e surgiu sua ideia.

Rodrigo Pederneiras – Foi um atrevimento interferir em um trabalho grande e potente como o de vocês. E me veio à cabeça a ideia de criar um trabalho diferente para todos nós. Cenas pequenas, com pouca gente – normalmente, nosso trabalho é maior. E, de repente, surgiu uma alameda completamente nova e florida para a gente trilhar, brincar.

Tatit – No dia seguinte, eu já estava reunindo nossos playbacks, a base instrumental.

Sandra Peres – Foi a minha pós-graduação no desapego, uma circunstância em que não temos controle de nada. Olhando a coreografia, vimos que ali tem outra música em que um dos instrumentos é o corpo, o pulso, a vibração. 

Pederneiras – Foi uma interferência muito forte na música, saíram letras e melodias, entraram substituições de violão e piano. Como foi para vocês quando as letras e a voz foram suprimidas?

Sandra – Fiquei arrasada (risos), mas comecei a perceber a viagem em curso. Quando nos tiram a melodia e a voz, ficamos sem chão. Mas sempre acontecem coisas melhores do que imaginamos, mesmo que, num primeiro momento, pareça uma catástrofe.

Pederneiras – Na verdade, a música é o que proporciona tudo. Sem ela, não faço nada.

Tatit – Nem sempre a canção que a gente faz está ligada à dança. Fiquei curioso para ver como certos detalhes criariam um novo discurso, uma outra apreciação. Os significados mudam porque não tem letra, fica tudo mais abstrato. Como você escolheu as peças e alinhou nessa ordem?

Pederneiras – Foi à medida que vocês mandavam as músicas (risos). Fui tentando montar e fazer as ligações coreograficamente. Não interferi em nenhum momento, por exemplo com a ideia ou a sugestão de fundir uma canção na outra. Acabava uma, começava outra.

Sandra – Trabalhamos com criação, com o imponderável. O resultado dessa nossa parceria expressa isso com profundidade. Fomos nos nutrindo, sem dar dica do que um outro deveria fazer.

Tatit – Naquele domingo, eu estava bebendo um vinho. E você?

Pederneiras – Devia ser um vinho também! Eu já devia ter tomado algumas taças a mais para ter a cara de pau de propor o que eu propus. 

Adaptação inclui a volta de 'Gira'

Como se tornou tradicional na apresentação de novos trabalhos, o Grupo Corpo incorpora uma coreografia de seu repertório que dialogue com facilidade com o espetáculo original.

Assim, antes de primavera, o público poderá (re)descobrir Gira, apresentado em 2017 e com movimentos inspirados na umbanda, com trilha sonora especialmente criada pela banda Metá Metá.

Foi preciso fazer uma adaptação, porém, em relação ao trabalho original: como os bailarinos não deixam nunca o palco – quando não estão no “terreiro”, identificado por um retângulo iluminado, eles utilizam cadeiras colocadas em torno, sob véus negros –, as movimentações foram recalculadas para evitar ao máximo o contato e a proximidade.

O Corpo tem por tradição convidar músicos para criarem (ou adaptarem) seus trabalhos que servirão como trilha sonora para as novas coreografias. E, em Gira, houve um jeito diferente na relação com as sonoridades, graças ao encontro do som do Metá Metá e da inclusão dos ritos da umbanda. E a presença de Exu, o mais humano dos orixás, foi uma sugestão da banda, o que acabou se tornando o fio condutor poético para unir os 11 temas do espetáculo.

Mantendo o respeito às crenças (“Eu me senti obrigado a ter cuidado, porque é religião”, observou o coreógrafo Paulo Pederneiras), Gira traz uma reconstrução do glossário de gestos e movimentos pesquisados por Pederneiras em ritos de celebração tanto do candomblé quanto da umbanda. Assim, as simbologias de rituais e festas permeiam a organização da obra

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