José Luiz Pederneiras
José Luiz Pederneiras

Grupo Corpo estreia em São Paulo o espetáculo 'Gira'

Companhia homenageia o orixá que representa o movimento

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Agosto 2017 | 06h02

Uma celebração sobre a vida, suas possibilidades e complexidades, todas reunidas em uma figura: Exu. Gira, novo trabalho do Grupo Corpo que chega nesta sexta, 4, ao Teatro Alfa, homenageia o orixá mais próximo do homem, guardião das passagens, mensageiro responsável pela comunicação entre o plano espiritual e o mundano.

O tema não foi escolhido pelo coreógrafo Rodrigo Pederneiras ou pelo diretor artístico da companhia mineira, Paulo Pederneiras, que nenhuma intimidade tinham com religiões de matriz africana. A ideia foi proposta pela banda Metá Metá, convidada por Paulo para criar a trilha.

“Logo que recebemos o convite, pensamos no orixá Exu, pois é uma divindade ligada ao movimento, ao corpo. Sempre que possível, gostamos de exaltar as características de Exu, que foram sendo demonizadas no Brasil”, diz Juçara Marçal, integrante do Metá Metá ao lado de Kiko Dinucci e Thiago França. O trio segue o candomblé e, em seus álbuns, une elementos da cultura afro-brasileira, da música africana, do jazz e do rock.

“Foi uma loucura porque eu, com minha educação católica, não sabia nada. Nunca havia tido interesse maior a respeito. De repente, me vi com essa bomba no colo. A única coisa que podia fazer era correr atrás e tentar aprender, entender um pouco mais”, conta Rodrigo. 

O coreógrafo começou a estudar, ler livros, mas não achou a teoria suficiente. Foi então que ele e a companhia passaram a visitar terreiros de candomblé e umbanda. “Estou fascinado com a generosidade das pessoas, com a forma de acolherem qualquer um, seja da religião ou não”, revela Rodrigo.

Foi da umbanda que Rodrigo mais se aproximou e, hoje, continua a frequentá-la. “A vida está dando uma guinada maluca. Mudou meu jeito de ser”, diz. Nos terreiros, o coreógrafo encontrou o que chama de “mundo infindável”. Observou movimentos de pessoas e entidades. Absorveu as referências para, em menos de três meses, transformá-las em uma coreografia intensa e diversa. Sem cair no lugar-comum, Rodrigo criou uma peça de dança contemporânea.

“Não tem nada a ver com o que já fizemos. Não achei que eu deveria fazer referência muito mais forte ao terreiro, como funciona, como é. Gira, na verdade, é uma festa para Exu, uma homenagem. Porque Exu é o orixá mais próximo dos homens e da Terra. Exu é vida, movimento, é a própria dança”, explica Rodrigo.

Respeito. Diferentemente da coreografia, que tem a umbanda como guia, o Metá Metá partiu da cultura iorubá, difundida no Brasil principalmente pelo candomblé, para compor a trilha. Elza Soares gravou duas faixas, e o poeta e artista plástico Nuno Ramos fez a letra de uma delas.

Exu é uma entidade mal compreendida por quem não segue o candomblé e a umbanda, associado de forma equivocada ao mal ou ao diabo. “Nos interessa falar das características do orixá Exu, sem as deturpações por causa da demonização histórica. Esse tema faz parte da nossa vida e do nosso fazer artístico. Se essa maneira de ver a religião, trazendo o olhar de quem a vivenciou por dentro, puder ajudar no entendimento da riqueza dessa matriz africana, será maravilhoso. Mas seria pretensioso querer isso”, afirma Juçara.

Freusa Zechmeister assina o figurino, igual para todos os bailarinos: saia branca bem rodada, deixando o torso nu. Paulo é responsável pelo cenário e iluminação - essa ao lado de Gabriel Pederneiras, filho de Rodrigo. Não haverá coxias no palco, e os bailarinos estarão o tempo todo em cena. Quando não dançam, permanecem sentados em cadeiras dispostas no fundo e nas laterais, cobertos por um véu negro. 

“Tem um quadrado iluminado, onde as pessoas dançam, onde ocorre a gira. Em volta, é tudo preto. É uma instalação, mais do que um cenário. Em cima de cada cadeira, tem uma lâmpada, que é menos para iluminar e mais para mostrar que ali tem a presença de uma entidade”, explica Paulo.

Segundo ele, é difícil chegar a um conceito simples de cenografia, em que existam apenas elementos essenciais. Além de muito trabalho, Paulo diz que a coerência das criações nasce “um pouco por acaso”. Foi assim com o cenário de Bach, que completa o programa do Grupo Corpo no Alfa. O trabalho é de 1996 e tem trilha de Marco Antônio Guimarães, sobre a obra de Johann Sebastian Bach. O balé conecta o barroco do compositor alemão ao de Minas Gerais.

“Em Bach, queria que os bailarinos caíssem no palco, que não entrassem pela coxia. Amarrei cordas no teto para vê-los segurando e caindo. De corda passou para bambu. No fim, cheguei a tubos de aço e fiz como uma instalação. Parece mentira, mas quando coloquei a luz, que vi a maneira como ela batia nos tubos, falei: ‘Olha o órgão de Bach aí’. É o instrumento de Bach o tempo inteiro, mas nunca tinha pensado nisso”, analisa ainda Paulo. 

O Grupo Corpo dança no Rio (entre os dias 23 e 27), em Belo Horizonte (2 a 6 de setembro) e em Porto Alegre (7 e 8 de outubro).

GIRA

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722. 5693-4000. 4ª/5ª, 21h. 6ª, 21h30. Sáb., 20h. Dom., 18h. R$ 50/R$ 160. Até 13/8

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