RÔMULO JURACY
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Peça 'Jacy' louva a grandiosidade das pequenas coisas

Montagem do potiguar Grupo Carmin se lança no teatro documental e cria um jogo entre o passado e a efemeridade do presente

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

24 Agosto 2015 | 18h07

Eles são de Natal mas parecem falar do mundo inteiro. O grupo fundado em 2007 pelas atrizes Quitéria Kelly e Titina Medeiros apresentou o segundo trabalho da companhia durante o festival Cena Contemporânea, em Brasília. A montagem de Jacy com direção e atuação de Henrique Fontes partiu da temática sobre o envelhecimento. “O que pretendíamos era compreender como se dava passagem do tempo afetava o corpo da mulher e do homem”, explica.

Mas no meio do caminho, a pesquisa foi invadida por um estranho objeto. Um dia, enquanto Fontes caminhava pela rua, se depara com uma frasqueira no meio do entulho. Dentro dela ele encontrou maquiagens, uma radiografia, cartões com números de telefone e outros objetos de uma senhora chamada Jacy. De posse, o grupo passou um tempo em Curitiba estudando com o diretor Marcio Abreu da Companhia Brasileira de Teatro. “Quando mostramos a frasqueira, ele nos disse que já tínhamos um espetáculo inteiro nas mãos e nos incentivou e buscar mais informações”.

De volta à Natal, o Grupo Carmin inicia uma investigação para encontrar parentes ou amigos que pudessem falar de Jacy. A primeira pista estava em um cartão com o telefone de um serviço de entregas do supermercado. “O que descobrimos é que o Nordestão era o único da região que fazia entregas a domicílio especiais para idosos”, conta Quitéria.

Com os caminhos abertos, os artistas encontraram outras pessoas ligadas à Jacy e passaram a tecer a dramaturgia do espetáculo que se incorporou à história da capital do Rio Grande do Norte. Tal cena é demonstrada na intrincada árvore genealógica do governo da cidade na qual enumera os políticos e suas relações e alianças em prol do poder. “Ainda que a pesquisa se volte para algo no passado, o espetáculo é constantemente atualizado quando novas informações surgem. A cada nova eleição e a cada novo escândalo, o teatro se transforma”, explica Fontes.

Para dar forma à todas essas narrativas, o grupo vislumbrou um caminho na utilização de recursos audivisuais, comandados pelo videomaker Pedro Fiúza. Comandando uma câmera tal como um microscópio, Fiúza capta detalhes dos documentos, oferece suporte visual à narração dos atores e intervém ora em conflito, ora em consonância com a cena. “Nosso objetivo era que o audiovisual não servisse como mero detalhe, mas que pudesse se tornar uma dramaturgia”, explica.

E em contraponto com a própria cena carregada de passado, o grupo dá contornos à principal características do teatro. “Exceto por um áudio, todas as cenas são feitas ao vivo. A intenção é realçar a efemeridade teatral, esse tempo breve e que logo acaba”, conta Fiúza.

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