João Caldas Filho
João Caldas Filho

Grupo 3 de Teatro completa 15 anos com festival de peças que traduzem a realidade

Para refletir sobre o trabalho da companhia, o Estadão convidou artistas para questionarem o trio de fundadores sobre os 15 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2020 | 05h00

A excelência de uma companhia teatral nasce a partir de um processo de sedimentação: a cada nova peça montada, o grupo conquista credibilidade e, aos poucos, torna-se uma referência. É o caso do Grupo 3 de Teatro, que festeja 15 anos de criação. E a comemoração é virtual, no site do Itaú Cultural, que vai apresentar três importantes trabalhos da companhia criada por Débora Falabella (atriz), Yara de Novaes (atriz e diretora) e Gabriel Fontes Paiva (diretor artístico).

Nesta terça e na próxima, dia 20, acontece a apresentação ao vivo e online da peça Contrações, às 20h, via Zoom, no Palco Virtual, do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br). Já na terça, 27, será a vez da exibição do registro em vídeo de Love, Love, Love, também às 20h. E a cereja do bolo começa a ser oferecida nesta sexta, 16, e se prolonga até 13 novembro: a estreia da a websérie Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante + Conversas com Heroínas do Mundo Real, que será exibida em cinco episódios, no site do Itaú, sempre às 18h.

Com direção de João Wainer, a série traz uma versão online da peça Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante, além de mostrar os caminhos que os artistas percorreram no processo de criação. A peça estreou no final de 2019, em São Paulo, com texto de Silvia Gomez, direção de Paiva e com Débora e Yara no elenco. Na trama, enquanto aviões de várias partes do mundo decolam e aterrissam, a vigia do KM 23 de uma rodovia abandonada encontra, jogada no asfalto, uma garota que delira após ser violentada naquela noite estrelada.

Agora, na série, Silvia Gomez faz a apresentação, composta por cenas de ensaio do grupo e discussões do processo de mesa, além do espetáculo filmado em estúdio. Trata-se de um importante documento sobre a ação de um grupo cuja trajetória foi construída a partir de questionamentos vitais como relações abusivas no trabalho e o fracasso geracional.

Essa trajetória ilustra o catálogo digital 15 Anos do Grupo 3 de Teatro, já disponível para consulta e com importantes textos do jornalista Valmir Santos. Para refletir sobre o trabalho da companhia, o Estadão convidou artistas para questionarem o trio de fundadores sobre os 15 anos.

Silvia Gomez – O que representa para vocês ter um grupo hoje, quando a ideia de coletivo e encontro torna-se tão simbólica?”

Débora Falabella – A ideia de ter um grupo durante 15 anos é uma forma de resistir, de não desistir do outro, de pensar coletivamente. Acho muito simbólico comemorar os 15 anos produzindo algo juntos, mesmo estando distantes.

Yara de Novaes – O teatro nos ensina dia a dia a necessidade de estarmos ligados às pessoas, aos espaços, ao nosso tempo e ter um grupo é a ratificação desse legado.

Gabriel Fontes Paiva – O teatro é em grupo. Mesmo produções independentes reúnem um grupo para construir um espetáculo. Trabalhar em um coletivo, a princípio, não parece o caminho mais fácil porque é complicado conciliar ideias, desejos e formas de pensar, mas o que pode ser mais rico do que viver assim? A arte de ouvir e compreender o outro é algo raro no mundo hoje e você tem toda razão, Silvia, o teatro pode nos ensinar a migrar do pensamento individualista para o entendimento do coletivo.

Grace Passô (diretora de Contrações) – Ao longo desses 15 anos, o que mais mudou?

Débora – O que mais mudou foi tudo! Nesses 15 anos, mudamos nossas visões, nossos pensamentos, isso também coletivamente. Sinto que a mudança de um afeta o outro, e assim o pensamento do Grupo se modifica.

Yara – Nós mesmos!

Gabriel – O que não mudou foi a vontade de partir sempre de uma dramaturgia potente e profunda como a sua. No Grupo 3, uma montagem foi sempre decorrente da anterior. Partimos das nossas origens, em Nelson Rodrigues e Murilo Rubião, visitamos ‘nuestros hermanos’, em Marco Antônio De La Parra, e fomos atrás de novos dramaturgos que tratavam da atualidade, como Mike Bartlett, para então reunirmos tudo isso em Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante, de Silvia Gomez, peça quase que uma síntese da pesquisa de todos esses anos.

Eric Lenate (diretor de Love Love Love) – Como o Grupo 3 está se preparando, ou já se preparou, para enfrentar esse período que ainda está muito longe de ter data para acabar? O Grupo acredita que alguns desafios se apresentam com potência de modificar de forma perene a maneira como lidamos com os mecanismos do fazer teatral?”

Débora – O Grupo foi surpreendido por ser justo esse o ano em que comemoramos 15 anos. Um ano para o qual estávamos planejando uma Mostra de Repertório no palco. O que aconteceu foi que essa pandemia nos levou a criar um projeto que é um segundo projeto de algo que já existia, isso foi muito valioso. Tivemos, por exemplo que entender uma nova forma de fazer Contrações e Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Acabamos tendo este cuidado para pensar em como tornar nosso repertório interessante para ser visto remotamente. Então, fomos instigados a olhar para este momento e não deixar essa data passar em branco.

Yara – Lenate, você, com certeza, foi uma luz nesses 15 anos de grupo! Amei ser dirigida por você! Sobre essa relação de leitura, reflexão e estratégias, digo apenas que continuamos vivos e em ação. É que, sobretudo, estamos tentando enfrentar essa neblina.

Gabriel – É muito difícil se preparar ou resolver a situação grave que estamos vivendo. O artista não vai deixar de se expressar, independentemente das limitações. Não conseguimos. Mesmo que a forma de se manifestar seja mais limitada. O teatro existe há 3 mil anos, poucas coisas tem um histórico como esse. O que nos parece que ele permanecerá. As novas mídias geram outras formas de expressão, mas nunca em substituição. Como a TV não substituiu o rádio, que segue firme, e o cinema não se sobrepôs ao teatro... Os espetáculos online poderão ser uma nova maneira de expressão mas, para haver teatro, precisamos de público e artista no mesmo lugar se encontrando para realizar algo ao vivo. Acredito que a força desse tipo de manifestação é insuperável e, por isso, já dura 3 mil anos.

Dr. Morris (autor de trilhas sonoras dos espetáculos: A Serpente, Continente Negro, O Amor e Outros Estranhos Rumores e Contrações) – Olhando a trajetória do Grupo 3, é notável a diversidade de temas e autores que habitaram os espetáculos nesses últimos 15 anos. Quais temas e/ou autores ainda não levantados instigam o grupo? E como a pandemia e a quarentena estão influenciando essa busca?”

Débora – A gente tem buscado falar um pouco mais sobre o nosso tempo, por isso buscamos autores contemporâneos, e essa pandemia evidencia isso. Algo tão raro e difícil acontecendo no mundo agora, deixa mais forte essa vontade de pensar sobre o presente.

Yara – Sempre penso que autores brasileiros e contemporâneos são grandes parceiros, sejam eles de teatro ou não! Sejam artistas ou cientistas, filósofos, etc...

Gabriel – Alguma coisa que você transforme em música. Momentos tão determinantes para a ordem mundial nos fazem refletir sobre nossa essência, o que tem me levado à releitura dos clássicos. O teatro grego falava do coletivo e provocava no público emoções catárticas, mas passava também noções de civilização. Exatamente o que estamos precisando agora. A antiga dramaturgia nos reafirma que as questões humanas são as mesmas, só se vestem de forma diferente.

Lucas Santtana (trilha sonora de Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante) – Vocês acham que a música numa peça de teatro é como um vestido, uma mesa, uma luz, ou seja, algo com que vocês precisam se relacionar em cena e ganhar intimidade? Ou apenas algo que fica ali no fundo?

Débora – A trilha é tão importante quanto todas as partes do espetáculo, que só é o que é por ser composto de muitas partes, desde os atores dizendo determinado texto, que junta com a visão do diretor, com a cenografia, com o figurino, a luz... Por isso, o teatro é tão bonito, ele é o trabalho do coletivo. Uma trilha é uma peça essencial dentro de um espetáculo. Principalmente uma trilha que contribuiu tanto para história como a que você compôs para Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante.

Yara – Temos certeza absoluta de que é um elemento estrutural em nosso trabalho, por isso, só trabalhamos com artistas profundamente comprometidos com a arte e a liberdade, como você.

Gabriel – Buscamos usar os elementos constitutivos da cena em seu máximo potencial representativo, narrativo e interpretativo. Sua música foi tratada como um personagem em Neste Mundo. O teatro é o lugar de aglutinar as artes e as linguagens. Tudo se soma e se transforma em algo muito maior – e essa é a beleza desse fazer chamado teatro.

Fabio Namatame (figurinos de Love, Love, Love, Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante) – 15 anos.... muito tempo de trabalhos incríveis. Como vocês conduzem o bom relacionamento, saudável e criativo, direcionamento das suas escolhas e manutenção das colocações artísticas?

Débora – Como Grupo, nós divergimos muitas vezes, mas penso que aí é que está a nossa potência criativa, onde cada um traz suas ideias e luta por elas. Temos também uma grande identificação entre nós, relacionada às coisas que queremos dizer, então isso faz com que o Grupo se mantenha unido, somos amigos acima de tudo. Sinto que caminhamos bem tanto nos acertos como nas divergências.

Yara – Tentamos conduzir com respeito e amor, isso não significa que haja embates ou rupturas. Somos um grupo de artistas e sabemos que o mais objetivo no nosso trabalho sempre resvala na história passada e presente de cada um. E nos desejos também. Você é um cara que tem me ensinado que a escuta é um bem precioso e imprescindível para que a gente possa trabalhar com mais harmonia. Falar, falar, e falar pode ser o nosso cadafalso!

Gabriel – Acho que partimos de muita ligação artística e isto ajudou muito. Uma companhia teatral é também uma família. Convivemos com muita intensidade. Viajamos em turnês, muitas vezes por quase um ano. Levamos as famílias e viramos uma família só. Nossa profissão tem essa particularidade de misturar vida pessoal e profissional, é só para quem tem vocação. Fundamental que se tenha confiança, intimidade e liberdade e que a convivência seja boa, com muita amizade. Me sinto assim ao seu lado.

André Cortez (cenário de O Amor e Outros Estranhos Rumores, Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante, cenários e figurinos de Contrações, Continente Negro, A Serpente) – Já andamos por muitos espaços juntos! Alguns multifacetados, uns muito abstratos e outros muito realistas, todos poéticos, em um trajeto altamente criativo e todos dentro de uma caixa cênica e emoldurados por uma boca de cena. E agora, no novo ‘quinzenio’ que virá e diante da nova percepção do espaço que estamos vivendo, para onde poderíamos ir?

Débora – Eu devolvo essa pergunta a você, André! Como cenógrafo maravilhoso que é, companheiro do Grupo há tantos anos, acho que vai saber responder muito melhor do que nós, porque você tem uma potência criativa muito forte. Você sempre cria espaços onde os textos que a gente escolhe, a direção, tudo se torna mais potente. Então, devolvo a pergunta para que você nos guie nessa busca por novos espaços

Yara – Vou com você para qualquer lugar, Dedé! De preferência um lugar onde haja água!

Gabriel – Com você, o céu é o limite, André. Estamos partindo do que criamos juntos em cena. Vemos as novas molduras e nos encaixamos, perguntando o que elas podem trazer de novo para servir à obra. Momentos como este nos tiram do conforto. Como sempre, fomos artistas experimentais, isso só pode ser visto com bons olhos. Um espetáculo online e uma websérie estão chegando. Está sendo instigante pensar como fazer e isso vai refletir em nossa pesquisa.

João Weiner (direção da websérie Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante) – Vocês sentem que o fato de pertencerem a um grupo, além das suas carreiras individuais, contribui de que forma para os artistas que vocês são?

Débora – Acho que é uma via de mão dupla, tudo o que nós conquistamos trabalhando como grupo nos alimenta para os projetos individuais, e vice versa. Muitas experiências individuais que trazemos para o grupo, o enriquecem, e que aprendemos no grupo nos torna mais potentes individualmente.

Yara – Contribui muito mais do que a gente consegue perceber. Sinto-me em constante movimento e esse movimento faz com que Débora e Gabriel se movimentem também e vice-versa.

Gabriel – O processo continuado permite aprofundar a pesquisa artística. Foi muito bom trocar com você na websérie. Seu trabalho me despertou para muitas coisas novas e arejou meu processo de criação.

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