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'Godspell - Musical' estreia com forte marca no trabalho cênico

Peça traz desde o hip-hop até a diversidade marginal de diversas tribos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2016 | 05h00

Os 13 atores estranharam no início dos ensaios, quando foram recebidos pelo diretor Dagoberto Feliz. “Ele estimulou o grupo a fazer alguns jogos teatrais despretensiosos até que, em determinado momento, se sentia satisfeito”, conta Beto Sargentelli. “E, para nossa surpresa, muitos desses jogos foram incorporados à encenação. Eu não estava mais acostumado a trabalhar assim.” Foi dessa forma, pouco usual para quem atua no gênero, que Dagoberto preparou sua versão de Godspell - Musical, que estreia na quinta-feira, 4, no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado.

Por conta do excesso de detalhes na produção, musicais são habitualmente espetáculos rígidos em sua forma a fim de não comprometer o entrosamento entre canto, dança e interpretação. Grandes montagens têm um rigor em seu formato que deve ser seguido em qualquer país onde é encenado - com isso, a qualidade original é preservada. Mas Dagoberto Feliz é um homem essencialmente do teatro, aquele onde a inspiração caminha livremente, sempre em busca do melhor resultado. “Sei da rigidez na estrutura dos musicais, mas Godspell me pareceu mais livre e me permitiu várias leituras, principalmente metateatrais, por se tratar de um grupo de pessoas e várias historinhas”, comenta.

De fato, Godspell mostra a reunião de um grupo de amigos - na verdade, Jesus e seus discípulos. Baseado nas parábolas do Evangelho de São Mateus, o musical foi escrito em 1971 por Stephen Schwartz e John-Michael Tebelak a partir de uma ideia nascida de um projeto realizado por estudantes universitários em seu trabalho de conclusão de curso e que acabou se transformando em um espetáculo de sucesso na Broadway. A proposta era servir de contraponto a outra montagem que também conquistou grande êxito na época, Hair, ao enfatizar o legado do cristianismo e, principalmente, da personagem de Jesus como filho de Deus e salvador da humanidade.

Se, nos anos 1970, a estética hippie influenciou decisivamente as primeiras montagens, a que chega agora a São Paulo traz a forte marca das ruas, desde o hip-hop até a diversidade marginal das diversas tribos. Assim, em sua proposta de manter aberto o jogo cênico, Dagoberto, auxiliado pelo cenógrafo Paulo Correa, pensou em um cenário aberto, formado por elementos habitualmente usados por atores, como figurinos, adereços, objetos de cena. “Minha ideia é mostrar três níveis de interpretação: a dos atores, dos personagens e dos atores fazendo personagens. Gosto da ideia construtivista, aparente, sem maquiar as coisas, assumindo as estruturas como elas são, como uma colagem e descolagem de cenas, onde eles estejam com os camarins no palco, por exemplo, mas não como um ensaio, e sim como metalinguagem - um teatro dentro do Teatro. Encaminhei as interpretações para que fossem para este lugar, pois, afinal, tudo não passa de uma encenação.”

Foi nesse jogo que o elenco entrou de cabeça. “Foi uma espécie de criação coletiva, pois mexemos em algumas cenas, acrescentamos outras e até repaginamos canções, como a famosa Day by Day”, conta Beto Sargentelli, que inicia o espetáculo no papel de João Batista e, depois de batizar Jesus, transforma-se em Judas com um toque tipicamente teatral: passa a usar um gorro. “Usamos as letras em função da história. E o mais importante é o que estamos dizendo e não como. Daí a importância do uso das técnicas cênicas.”

Beto firma-se como um dos grandes nomes do teatro musical brasileiro, com uma carreira que inclui importantes participações em trabalhos como Jesus Cristo Superstar, O Rei Leão, A Família Addams e, mais recentemente, We Will Rock You. Agora, além do protagonismo, ele retoma técnicas que aprendeu no início da carreira, quando chegou a encenar peças de Pirandello.

Como João Batista ou Judas, ele divide a cena com dois atores que se alternam no papel de Jesus, Leonardo Miggiorin e Rafael Pucca. O revezamento não estava previsto dessa forma, mas Miggiorin precisou se ausentar em alguns momentos por causa das gravações da novela em que está participando, A Terra Prometida, da Record. Com isso, Pucca, que inicialmente seria o alternante de Sargentelli e Miggiorin, consolidou-se como Jesus.

“Conversei muito com o Dagoberto sobre como interpretá-lo de forma despojada, mas sem perder a importância”, conta Pucca que, no início, criou um Jesus com muita majestade. “Dago logo me disse que não queria algo soberano, mas com simplicidade”, continua o ator, que logo mudou, principalmente nos pequenos gestos. “Agora, Jesus olha de baixo para cima para as pessoas e não o contrário, como vinha fazendo.” Para Miggiorin, Dago “brinca com os clichês do musical, além de apostar na fantasia sem parecer alienado”.

Godspell mostra como um grupo de 10 pessoas - arquétipos da sociedade pós-moderna e que podem ser encontrados em qualquer grande metrópole - tem seus caminhos cruzados por João Batista/Judas e por Jesus. Esse encontro inesperado altera as ações e o olhar de todos para a vida. Daí a grande importância das canções. “Sua partitura é extremamente desafiadora”, observa o ator Carlos Alberto Jr., que aqui atua como diretor musical e também diretor da LS Produções Artísticas, responsável pelo espetáculo. “O elenco precisa mostrar uma energia vocal que atravessa o rock e o gospel para cantar clássicos como Day by Day e Bless The Lord. O libreto permite ao espectador uma reflexão sobre suas ações e traz os ingredientes que compõem essa história rica em mensagens, tão apaixonante e atemporal.”

As letras das canções ganharam novas versões assinadas por Guilherme Leal e Kaíque Azarias que, “após uma epifania poética, optaram juntos por letras tocantes, reflexivas e fiéis”. E, ao contrário da maioria de outros musicais, que privilegia os protagonistas com as melhores músicas, em Godspell todos atores têm seus solos, o que permite descobrir talentos vibrantes de jovens como Juliana Peppi (Joane), Pedro Navarro (Lamar), Matheus Severo (Herb) e Artur Volpi (Jeffrey), todos em momentos marcantes. Em grande nível, também estão Nathália Borges (Sonia), Mariana Nunes (Gilmer), Fernanda Cascardo (Peggy), Gabi Medvedovksi (Robin) e os alternantes Pri Esteves e Adler Henrique.

Em sua estreia, peça horrorizou público conservador

Godspell (termo que é uma grafia arcaica da palavra gospel) provocou rebuliço entre os espectadores mais tradicionalistas quando estreou na Broadway em 1971, especialmente os cristãos, que não aceitaram a bem-humorada adaptação das famosas parábolas do Evangelho de São Mateus ao cenário nova-iorquino. Para a maioria, era difícil de engolir um Jesus vestindo uma camiseta com o símbolo do Super-Homem estampado no peito. Ou mesmo um João Batista batizando os novos fiéis com água do chafariz da Praça Central. 

Na verdade, cegos pelas aparências, os revoltados demoraram para perceber que a mensagem da Bíblia estava intacta e aquele Messias hippie era mais acessível sem perder a divindade. Foi esse o tom que marcou a versão cinematográfica de 1973, que tornou o musical mundialmente conhecido a ponto de uma de suas canções, Day by Day, apresentada no álbum original, figurar na lista das mais ouvidas da revista Billboard.

Se, por vezes, soa datado para o espectador atual, o filme ainda mantém momentos impactantes, como a da crucificação de Cristo. Em sua montagem, Dagoberto Feliz mantém o despojamento ao evitar a clássica imagem da cruz e colocar um telão no palco, pelo qual a plateia vê imagens ao vivo de Cristo nos bastidores até sua volta à cena, marcando a ressurreição.

A primeira montagem brasileira de Godspell aconteceu em 1973, com Antonio Fagundes vivendo Jesus e sua então mulher, Clarice Abujamra, assinando a coreografia. A direção foi de Altair Lima, que já havia produzido anteriormente Hair. 

Dez anos depois, Fernando Eiras viveu o filho de Deus em uma montagem carioca. Em 2002, Miguel Falabella produziu uma nova versão, com grandes nomes do teatro musical, como Fred Silveira (no papel de Jesus), Sara Serres, Amanda Acosta e Paula Capovilla. E, em 2012, surgiu a mais recente versão de Godspell, no Teatro Commune, em São Paulo.

GODSPELL - MUSICAL

Teatro das Artes. Shopping Eldorado, Av. Rebouças, 3.970. Tel.: 3034-0075. 5ª e sáb., 21h; 6ª, 17h e 21h30; dom., 20h. R$ 60 / R$ 100 Até 9/10. Estreia 4/8

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